Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 92
Julho de 2006
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A onça e o cabrito, por Figueiredo Pimentel



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A onça e o cabrito

Figueiredo Pimentel

No tempo em que os animais falavam, nesse mesmo tempo chamado do Onça, em que se amarravam os cachorros com lingüiças, achava-se uma onça  dormindo a sesta, enganchada num galho de árvore, quando exclamou:

— Qual! isto assim não tem jeito! Estou há largo tempo a procurar cômodo neste pau, e nada de poder dormir! Vou fazer uma casa para morar.

Foi a um lugar da floresta, e depois de procurar bem, disse:

— É aqui mesmo; melhor lugar não poderia encontrar.

Roçou o mato que ali havia, capinou tudo muito bem.

Mestre Cabrito também andava com vontade de fazer casa de moradia. Saindo uma vez, em busca de local apropriado, deu com o roçado que dona Onça tinha feito horas antes, e disse:

— Bravo que belo sítio este aqui! Parece feito de propósito para uma casinha.

Dizendo isso, pôs-se logo a cortar grossos paus para servirem de esteios à casa; fincou-os no chão e foi descansar.

No dia seguinte, chegou dona Onça, e vendo os esteios já fincados, exclamou:

— Com certeza, é Deus quem me está ajudando. Ontem, apenas limpei o mato, e hoje já venho encontrar os esteios da casa!

Cortou mais paus; fez a cumeeira; pôs as travessas e retirou-se.

Quando o senhor Cabrito chegou e viu aquele progresso na construção, exclamou:

— Qual! Decididamente Deus Nosso Senhor Jesus Cristo está me ajudando. Estou encantado de Graça... Não pode ser outra coisa. Por isso, mãos à obra senhor Cabrito, quanto mais depressa melhor.

Então colocou caibros na casa, e nesse dia deu por findo o serviço, achando que havia trabalhado muito.

Quando dona Onça veio, ainda mais admirada ficou. Nada disse, todavia pregou as ripas e os enchimentos, e foi embora.

O cabrito pôs as varas, os portais e as janelas, e saiu.

A onça cobriu a casa de telhas.

O cabrito assoalhou e fez o teto.

Um dia, um, outro dia, outro, trabalharam sucessivamente os dois animais, sem no entanto jamais se encontrarem, cada um pensando que era Deus que o protegia.

Ficando pronta a casa, dona Onça fez a cama e deitou-se.

Ainda não tinha ferrado no sono, quando chegou também o cabrito, que, vendo a onça, disse:

— Não, comadre Onça; esta casa é minha. Fui eu que finquei os esteios, pus os caibros, os portais, as janelas etc.

Depois de muita discussão, a Onça, que já estava com vontade de comer o cabrito, falou:

— Bem, compadre, não é preciso fazer questão; vivamos juntos, como bons amigos.

O cabrito, embora com muito medo, aceitou a proposta da onça, mas por precaução, armou a cama longe, perto da janela, para poder escapulir ao primeiro sinal de perigo.

Achava-se ainda na cama, aos primeiros albores da madrugada, quando a onça se virou para ele e lhe disse:

— Vou dizer-lhe uma coisa, compadre Cabrito, quando estou zangada, começo a franzir o couro da testa, tome cuidado.

— E eu, comadre Onça, — respondeu o outro, fazendo-se forte, mas com verdadeiro pavor, — quando estou com raiva, começo a sacudir as minhas barbichas, e se der algum espirro, então fuja, porque não estou para brincadeiras.

Vendo que o outro não fugia, a onça saiu, dizendo que ia buscar alguma coisa para comerem.

Meteu-se atrás de uma moita, num mato muito cerrado, pertinho de um regato, onde os outros bichos costumavam ir beber água.

Apareceram diversos animais, mas a onça não se mexeu. Quando porém, chegou um cabrito grande, muito gordo, de um salto caiu-lhe ela em cima e matou-o.

Arrastou-o até a casa e, de fora, já vinha gritando:

— Abra a porta, compadre Cabrito, para eu poder passar com a minha caça!

Mestre Cabrito, já desconfiado daquele barulho, imaginando ser alguma cilada que lhe armara ela, respondeu no mesmo tom:

— Está aberta, comadre, basta empurrá-la.

Quando o cabrito viu o seu companheiro teve muito medo, e disse consigo mesmo:

— Se ela matou ele, que é maio e mais forte que eu, como não procederá comigo.

E protestou ficar cada vez mais alerta.

Ofereceu-lhe a onça um bocado de carne, mas o cabrito não aceitou dizendo já ter almoçado.

* * *

No outro dia, foi ele quem disse à onça:

— Agora comadre, sou eu quem vai à caça. Vou arranjar alguma coisa para comermos.

Embrenhou-se pela floresta adentro, quando viu uma onça muito grande e gorda.

Disfarçou e começou a cortar cipós fortes.

A onça, chegando perto, indagou:

— Amigo cabrito, para que é que está você cortando tanto cipó?

— Oh! Amiga onça, não sabe do caso? Então não sabe que o mundo está para vir abaixo, que um grande dilúvio e grande ventania vem cá para a terra? Trate de si, que é o que deve fazer. Eu vou-me amarrar com estes cipós, porque não quero morrer já.

A onça, com medo, escolheu um pau bem grosso e pediu ao cabrito por tudo quanto havia que a amarrasse.

O cabrito amarrou-a perfeitamente com uma porção de cipós, e quando a viu bem segura, matou-a.

Desatou o cipó que a prendia, e começou a arrastá-la até a casinha.

Quando chegou, disse à sua comadre, que ficara em casa:

— Comadre Onça, trago comida para dois dias, venha ver, e vamos esfolar o bicho, que está gordo que faz gosto.

A onça, quando viu uma companheira sua, morta pelo cabrito, teve muito medo, mas nada disse.

* * *

Começaram os dois a ter medo um do outro.

Um dia, o cabrito estava perto da janela, tomando fresco, quando viu a onça com o couro da testa todo enrugado, o que nela era sinal de raiva.

Teve receio. Começou a sacudir as barbinhas, e deu um grande espirro.

A onça ouvindo-o e lembrando-se que era o sinal da zanga do cabrito, pulou de cima da cama e começou a correr como uma desesperada, por este mundo afora.

O cabrito, por seu lado, fugiu também, em direção oposta, com medo da onça.

E os dois ainda hoje se evitam...

 

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da avozinha. Rio de Janeiro; Belo Horizonte, Livraria Garnier, 1994, p.86-90 (Biblioteca de autores célebres da literatura infantil, 3))
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