Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Julho 2006 - Ano IX - nº 92

Sumário

Festança
Milindô: dança popular do rico folclore caririense
J. de Figueiredo Filho

A dança do buá
Abelardo Duarte

A dança do Ramalhão
Rossini Tavares de Lima

Cancioneiro
Jeca Tatu
Catulo da Paixão Cearense

Flor do Dia

Dom Pedro II através do folclore
Mário Melo

Imaginário
O porquê das coisas
Carvalho Deda

Onça cabocla
Saul Martins

A onça e o cabrito
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau
O mate no folclore
Wilson de Lima Bastos

A erva-mate
Renato Almeida

A erva-mate
L. A. I.

Oficina
Redes de São Paulo, uma arte

Armadilhas
Saul Martins

"Chega, negro": É hora de puxar a rede que o xaréu tem que chegar
Maria Emília F. Saldanha

Palhoça
Onde nasceu o "ranzinza"

Apelidos têm razão de ser
Deise Sabbag

Rua de procissão
Francisco Pati

Panacéia
Quem esta oração rezar
Guilherme Santos Neves

Contadeira de estórias

Superstições no futebol brasileiro
Thelma Regina Siqueira Linhares

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A onça e o cabrito

Figueiredo Pimentel

No tempo em que os animais falavam, nesse mesmo tempo chamado do Onça, em que se amarravam os cachorros com lingüiças, achava-se uma onça  dormindo a sesta, enganchada num galho de árvore, quando exclamou:

— Qual! isto assim não tem jeito! Estou há largo tempo a procurar cômodo neste pau, e nada de poder dormir! Vou fazer uma casa para morar.

Foi a um lugar da floresta, e depois de procurar bem, disse:

— É aqui mesmo; melhor lugar não poderia encontrar.

Roçou o mato que ali havia, capinou tudo muito bem.

Mestre Cabrito também andava com vontade de fazer casa de moradia. Saindo uma vez, em busca de local apropriado, deu com o roçado que dona Onça tinha feito horas antes, e disse:

— Bravo que belo sítio este aqui! Parece feito de propósito para uma casinha.

Dizendo isso, pôs-se logo a cortar grossos paus para servirem de esteios à casa; fincou-os no chão e foi descansar.

No dia seguinte, chegou dona Onça, e vendo os esteios já fincados, exclamou:

— Com certeza, é Deus quem me está ajudando. Ontem, apenas limpei o mato, e hoje já venho encontrar os esteios da casa!

Cortou mais paus; fez a cumeeira; pôs as travessas e retirou-se.

Quando o senhor Cabrito chegou e viu aquele progresso na construção, exclamou:

— Qual! Decididamente Deus Nosso Senhor Jesus Cristo está me ajudando. Estou encantado de Graça... Não pode ser outra coisa. Por isso, mãos à obra senhor Cabrito, quanto mais depressa melhor.

Então colocou caibros na casa, e nesse dia deu por findo o serviço, achando que havia trabalhado muito.

Quando dona Onça veio, ainda mais admirada ficou. Nada disse, todavia pregou as ripas e os enchimentos, e foi embora.

O cabrito pôs as varas, os portais e as janelas, e saiu.

A onça cobriu a casa de telhas.

O cabrito assoalhou e fez o teto.

Um dia, um, outro dia, outro, trabalharam sucessivamente os dois animais, sem no entanto jamais se encontrarem, cada um pensando que era Deus que o protegia.

Ficando pronta a casa, dona Onça fez a cama e deitou-se.

Ainda não tinha ferrado no sono, quando chegou também o cabrito, que, vendo a onça, disse:

— Não, comadre Onça; esta casa é minha. Fui eu que finquei os esteios, pus os caibros, os portais, as janelas etc.

Depois de muita discussão, a Onça, que já estava com vontade de comer o cabrito, falou:

— Bem, compadre, não é preciso fazer questão; vivamos juntos, como bons amigos.

O cabrito, embora com muito medo, aceitou a proposta da onça, mas por precaução, armou a cama longe, perto da janela, para poder escapulir ao primeiro sinal de perigo.

Achava-se ainda na cama, aos primeiros albores da madrugada, quando a onça se virou para ele e lhe disse:

— Vou dizer-lhe uma coisa, compadre Cabrito, quando estou zangada, começo a franzir o couro da testa, tome cuidado.

— E eu, comadre Onça, — respondeu o outro, fazendo-se forte, mas com verdadeiro pavor, — quando estou com raiva, começo a sacudir as minhas barbichas, e se der algum espirro, então fuja, porque não estou para brincadeiras.

Vendo que o outro não fugia, a onça saiu, dizendo que ia buscar alguma coisa para comerem.

Meteu-se atrás de uma moita, num mato muito cerrado, pertinho de um regato, onde os outros bichos costumavam ir beber água.

Apareceram diversos animais, mas a onça não se mexeu. Quando porém, chegou um cabrito grande, muito gordo, de um salto caiu-lhe ela em cima e matou-o.

Arrastou-o até a casa e, de fora, já vinha gritando:

— Abra a porta, compadre Cabrito, para eu poder passar com a minha caça!

Mestre Cabrito, já desconfiado daquele barulho, imaginando ser alguma cilada que lhe armara ela, respondeu no mesmo tom:

— Está aberta, comadre, basta empurrá-la.

Quando o cabrito viu o seu companheiro teve muito medo, e disse consigo mesmo:

— Se ela matou ele, que é maio e mais forte que eu, como não procederá comigo.

E protestou ficar cada vez mais alerta.

Ofereceu-lhe a onça um bocado de carne, mas o cabrito não aceitou dizendo já ter almoçado.

* * *

No outro dia, foi ele quem disse à onça:

— Agora comadre, sou eu quem vai à caça. Vou arranjar alguma coisa para comermos.

Embrenhou-se pela floresta adentro, quando viu uma onça muito grande e gorda.

Disfarçou e começou a cortar cipós fortes.

A onça, chegando perto, indagou:

— Amigo cabrito, para que é que está você cortando tanto cipó?

— Oh! Amiga onça, não sabe do caso? Então não sabe que o mundo está para vir abaixo, que um grande dilúvio e grande ventania vem cá para a terra? Trate de si, que é o que deve fazer. Eu vou-me amarrar com estes cipós, porque não quero morrer já.

A onça, com medo, escolheu um pau bem grosso e pediu ao cabrito por tudo quanto havia que a amarrasse.

O cabrito amarrou-a perfeitamente com uma porção de cipós, e quando a viu bem segura, matou-a.

Desatou o cipó que a prendia, e começou a arrastá-la até a casinha.

Quando chegou, disse à sua comadre, que ficara em casa:

— Comadre Onça, trago comida para dois dias, venha ver, e vamos esfolar o bicho, que está gordo que faz gosto.

A onça, quando viu uma companheira sua, morta pelo cabrito, teve muito medo, mas nada disse.

* * *

Começaram os dois a ter medo um do outro.

Um dia, o cabrito estava perto da janela, tomando fresco, quando viu a onça com o couro da testa todo enrugado, o que nela era sinal de raiva.

Teve receio. Começou a sacudir as barbinhas, e deu um grande espirro.

A onça ouvindo-o e lembrando-se que era o sinal da zanga do cabrito, pulou de cima da cama e começou a correr como uma desesperada, por este mundo afora.

O cabrito, por seu lado, fugiu também, em direção oposta, com medo da onça.

E os dois ainda hoje se evitam...

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da avozinha. Rio de Janeiro; Belo Horizonte, Livraria Garnier, 1994, p.86-90 (Biblioteca de autores célebres da literatura infantil, 3))

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