Há muitos anos, morava numa choça de cascas de pau, a alguns metros do barranco do rio São Francisco, uma velha tapuia, feiticeira e má. Alimentava-se de sangue humano e, às vezes, comia o fígado de suas vítimas, quando aquele não a fartava.
Lá um ou outro caçador surpreeendia-a, ocasionalmente, no meio da caatinga, ou à boca de uma furna ao pé da serra.
Quando tinha fome, primeiro despia-se, estendendo os trapos no chão, às avessas; depois, deitando-se neles, espojava-se.
Virava onça.
Assim transformada marchava contra pobres criaturas indefesas, de preferência mulheres e crianças. Satisfeitos os instintos, volvia ao ponto de partida, rebolando-se de novo sobre as roupas.
Tornava-se gente.
Um dia, veio-lhe o castigo, tendo então se arrenegado de quem inventou a mandinga. Passara a noite fora de sua cabana a saciar-se de vidas numa casa de justos. Durante a ausência, um pé-de-vento arrebatou seus mulambos e os atirou nas águas do rio.
E a onça lá existe.
Versão urucuiana: Dizem os moradores daquelas plagas que duas gêmeas conversavam, à beira de uma vargem, a olhar gorda novilha que pastava. Uma das irmãs falou:
— Já faz éra que nós num cumemo uma caga de carne. E óia que nuvia boa... Chega tá espeiano de gordura!
A outra, disse-lhe:
— Uai!... Se ocê agarante de num me ser falsa, io viro uma onça caboca e mato a nuvia pra nós comê.
— Apois tá dito!
A bruxa tomou duas folhas verdes, benzeu-se e entregou-as à irmã:
— Oia! Segura essas fôia. Io tiro a roupa atrás daquela moita e venho de quatro pé com a boca aberta. Aí entonce ocê mete a premera fôia na mia boca p'eu virá onça. Odispois que eu matá a nuvia vorto pra riba docê c'oa boca aberta e ocê bota a otra fôia na mia boca p'eu virá gente travêis. Num pricisa se arreceiá qui num te faço nada. Oís que se ocê ficá com medo tá tudo trapaiado pra mim pruque fico como bicho toda vida.
— Apois, sim! — exclama-lhe a irmã.
Na primeira parte saiu-se bem. Quando, porém, chegou a vez de colocar a segunda folha, a irmã teve medo e fugiu.
E a onça lá existe.
Mais tarde caiu, por algum tempo, numa armadilha que lhe armaram, tendo quebrado uma das patas, cujo defeito tem sido observado por várias pessoas. Em vista disso, chamam-na, hoje, onça da mão torta.