Assim como o folclorista procura a origem de um ditado popular, esgravatando as anedotas tabaroas, também o sertanejo inculto investiga, a seu modo, o porquê das coisas.
Investigando, o matuto baseia o seu raciocínio no princípio de que tudo acontece, ou aconteceu, porque houve uma razão de ser, um motivo, e, com a inteligência embotada pelos vaivéns da ignorância, procura descobrir a origem das coisas, o porquê.
Se não descamba para o absurdo, deriva para uma conclusão mista de inocência e deboche.
Por exemplo, dando tratos à sua própria filosofia, quer saber por que Deus, que condena o pecado original, quando criou o homem à sua semelhança o fez com a excrescência dos sexos. Por que macho e fêmea?!
E vem esta explicação, mista de inocência e zombaria:
Quando o Padre Eterno preparava o material humano, não desejava, nem ao menos pensava em sexo. Obra do acaso.
Porque não há mestre que não erre, também o Santo Mestre errou no cálculo do material humano e, desse erro, veio o pecado original.
Desejando o criador do universo dois zeladores para o sagrado jardim, cuidou, em primeiro lugar, de moldar as quatro bandas, que seriam depois unidas por uma linha especial.
Acontece que, quando costurou as duas primeiras bandas, fazendo com elas um corpo humano, descuidou-se no cálculo da linha especial e, ao invés de cortar a ponta da mesma linha bem rente, deixou uma pequena sobra.
Como havia pressa, e as outras duas bandas deviam ser costuradas imediatamente, para evitar a decomposição que já se fazia sentir, correu a costurá-las sem medir a linha especial, cujo material havia se esgotado. E qual não foi o seu espanto, ao chegar ao fim da segunda obra, quando percebeu, já sem recursos, que faltava linha para chegar ao finzinho.
Estava tudo irremediavelmente perdido, pela falta de linha, da linha especial. O que sobrou na primeira obra,faltou na segunda.
Esta a explicação matuta.