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A dança do Ramalhão

Rossini Tavares de Lima

Sob essa designação, Maria de Lourdes Borges Ribeiro, da Comissão Paulista de Folclore, encontrou, em Aparecida do Norte, uma dança de fileiras frente a frente, com acompanhamento de duas violas e pandeiro. Participaram dela roceiros da cidade de Cunha, que, segundo lhe disseram, a tinham recebido de seus pais e avós.

Para dançá-la, escreve a mencionada folclorista, homens e mulheres se colocam em duas fileiras, frente a frente, distanciadas mais ou menos dois metros uma da outra. De um lado, ficam os homens e do outro, as mulheres, sempre em número par.

O violeiro-chefe, acompanhado do ajudante, canta o estribilho:

Passe daqui pra lá,
Pra depois passá pra cá,
A, a, minha moreninha.
Pra depois passá pra cá.
E dá um balançado
Pra mode trocá de par.

Ao som desse canto, as fileiras se aproximam do centro, a dançar, e assim ficam, à frente do par, com o qual deram uma volta, no transcurso do penúltimo verso. A seguir, dirigem-se para o lado oposto daquele em que se encontravam no início da dança. Só a viola repica e os dançadores fazem gracioso balanceado rodando em seus lugares, para depois lançar quadrinhas tradicionais ou improvisadas, que vão se alternando com o mencionado estribilho, o qual anunciará sempre a troca de lugares.

A coreografia, muito simples, é a seguinte: 1) passo à frente com o pé esquerdo: 2) ponta do pé direito, avançando à altura do meio do pé esquerdo, após a metade do primeiro tempo. Nessa posição completa-se o primeiro compasso iniciando-se o segundo, perfeitamente igual, variando apenas o pé e sua ordem de colocação; 3) passo à frente com pé direito; 4) ponta do pé esquerdo, avançando à altura do meio do pé direito, depois da metade do primeiro tempo. A quinta parte é o retorno ao primeiro, assim prosseguindo, conforme as indicações descritas.

Alguns dançadores, esclarece Maria de Lourdes Borges Ribeiro, apóiam fortemente os pés no chão, enquanto outros, somente a ponta, ou então, fazem o seguinte: apóiam o pé que se movimenta em primeiro lugar no compasso, para o passo inteiro, conservando o outro apoiado apenas na ponta. Não há uniformidade, como verificamos, dependendo do gosto de cada dançador.

Os versos tirados por um e outro dançador, repetidos e intercalados com o refrão "a, a, minha moreninha" são, entre outros:

A moda do Ramaião
Ai, não se canta mais assim,
A, a, minha moreninha,
Não se canta mais assim,
Se canta daquele jeito
Que meu bem cantou pra mim.

Alecrim da beira d'água
Não se corta no machado
A, a, minha moreninha.
Não se corta c'o machado,
Se corta c'o canivete
Que tem o cabo dourado.

O campo verde se alegra
Quando vê o sol nascê
A, a minha moreninha,
Quando vê o sol nasce,
Meus zóio também se alegra
Quando está para te vê.

Para encerrar esta descrição, que devemos, como já dissemos a Maria de Lourdes Borges Ribeiro, lembramos que esta dança se relaciona ao Malhão do litoral do Minho e Beira-Alta não só pelo esquema geral de fileira frente a frente como também no movimento das fileiras de homens e mulheres, que se aproximam e se afastam, e ainda no caráter amoroso dos versos. Malhão, escreveu Alberto Pimentel, é o malhador errante, é namoradiço boêmio e conquistador, que de povoação, de eira em beira, anda seduzindo as mulheres e acobertando os seus instintos, sob o pretexto de trabalho. "O malhão é um trabalhador disfarçado, que estima mais as mulheres do que as searas". E este é recordado nos versos do Ramalhão cunhense dançado em Aparecida do Norte:

Eu tenho meu cavalinho,
Que se chama Roba Moça
A, a, minha moreninha,
Que se chama Roba Moça
Ontem mesmo eu robei uma
E amanhã vô robá outra.

 

Lima, Rossini Tavares de. "A dança do Ramalhão". A Gazeta. São Paulo, 19 agosto de 1957)
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