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Ano VIII - Edição 92
Julho de 2006
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A erva-mate

Renato Almeida

Com sua origem cercada de lendas, inclusive a que atribui a Sumé, identificado com São Tomé, ter revelado sua utilidade aos índios, como aconteceu com a mandioca. Quando os espanhóis chegaram ao Prata, pareceu-lhes que o mate era erva do diabo, coisa viciosa e portanto condenável. Mas, viram que o mate não era tão prejudicial, ao contrário, uma bebida agradável e estimulante e podia ser também considerável fonte de renda. Talvez tivesse impressionado aos jesuítas o folclore do mate, as crendices em seu derredor e possuir também poderes oraculares para inspirar os feiticeiros.

A região de cultura do mate no Brasil é constituída de áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. O mate hoje está inteiramente industrializado e é tomado, quente ou gelado, como infusão, espécie de chá. Mas, o seu grande sabor popular é no chimarrão, tomado nas cuias, com as bombas, passando de boca em boca, entre a gente do povo gaúcho. Também é usado nas classes mais altas da sociedade, como bebida local. As cuias e as bombas modestas, passam a ser luxuosas e de prata com bocal de ouro e se criou mesmo um artesanato no gênero, que aliás é reminiscência de mate, que é o nome da cuia, generalizando-se depois para denominar a erva. E faz parte dos avios a chaleira, dita também, chocolateira, para aquecer a água.

Se lhe couber coleta em região de ervais, procure conhecer as lendas numerosas que cercam o mate e outras formas do seu folclore, sobretudo relativo ao chimarrão, também chamado amargo, porque é bebido sem açúcar, daí falarem em chimarrear, matear ou amarguear. Na vida da peonada gaúcha, o amargo é a bebida constante, pelo que já se observou seu poder associativo. Contam-se aventuras e causos, cantam-se cantigas e dança-se entre sorvos de mate e o gaúcho canta:

Meu culto é o das raparigas
E do mate chimarrão

Verifique ainda os contos, o adagiário, as frases feitas, as superstições e crendices, porque inicialmente, como vimos, o mate andou associado à feitiçaria. Entre os dizeres, um se generalizou, é chamar dinheiro de erva, porque pagamentos eram feitos com a mesma. A roda do chimarrão é um centro vivo de folclore e, embora o assunto já tenha sido muito versado, uma coleta direta e minuciosa terá um valor incomensurável. Por isso, você deve, caso seja incumbido, registrar as formas numerosas de narrativas, lendas, versos, superstições, ditos, provérbios, cantigas e danças, que ouvir.

 

(Almeida, Renato. Manual de coleta folclórica. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1965, p.116-117)
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