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Ano VIII - Edição 92
Julho de 2006
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O mate no folclore

Wilson de Lima Bastos

Há dias tivemos a oportunidade de falar sobre o café e sua importância cultural no Brasil. Hoje vamos falar sobre o mate.

Lembra-me ter ouvido de Renato Almeida referências à riqueza de conteúdo folclórico apresentado pela erva mate, sendo fácil de se perceber que é sobretudo no sul do país a sua área de influência cultural.

Seu nome científico é Ilex paraguaiensis, o que não lhe tira o caráter brasileiro, pois que é nativo do Paraguai oriental e no Brasil meridional. O paraguaiensis poderia ser substituído, portanto, por brasiliensis.

Os índios guaranis o usavam habitualmente, mastigando suas folhas, como alimento e como remédio. O uso remonta à era pré-colombiana e se difundiu por extensa zona, com dominância no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, onde é fonte econômica e elemento cultural de alta importância, vinculado a lendas, crendices, superstições e tabus.

É largamente usado como bebida, sob diversas modalidades, já se difundindo pelo Nordeste e outras regiões do Brasil. A bebida pode ser obtida de infusão de folhas secas, de folhas torradas ou de folhas pulverizadas. É de uso típico nos estados acima apontados e no Paraguai, sendo que, no Rio Grande do Sul, o chimarrão está definitivamente inserido nos usos e costumes e no folclore regional, com a transposição de fronteiras para o Uruguai e à Argentina.

Em Minas, seu prestígio é sempre muito grande sob o nome de chá-mate, servido com açúcar. Em Recife, no mês de julho de 1964, tivemos oportunidade de saborear deliciosa bebida preparada com a mistura de mate gelado e Toddy, refrigerante de primeira, com conteúdo alimentício apreciável muito próprio ao clima e, destacadamente, ao calor daquela região.

Com preparo diferente das folhas, obtém-se o chimarrão, de gosto amargo, que deve ser usado ainda bem quente, por meio de um tubo de metal, que se denomina bomba. A cuia que contém a infusão é denominada parengo, de que há grande variedade de tipos.

No sul do Brasil é corrente ouvir-se o verbo matear, que Luís da Câmara Cascudo faz questão de esclarecer tratar-se de verbo intransitivo, para pessoa que gosta de mate ou "tomador de mate".

Assim fala o citado folclorista brasileiro: "Inseparável da paisagem folclórica do gaúcho, constituindo-lhe uma permanente característica e sugestiva".

Explica Renato Almeida: "com a sua origem cercada de lendas, inclusive que atribui a Sumé, identificado com São Tomé, ter revelado sua utilidade aos índios, como aconteceu com a mandioca. Quando os espanhóis chegaram ao Prata, pareceu-lhes que o mate era erva do diabo, coisa viciosa e portanto, condenável. Mas viram depois que o mate não era tão prejudicial, ao contrário, uma bebida agradável e estimulante e podia ser também considerável fonte de renda. Talvez tivesse impressionado aos jesuítas o folclore do mate, as crendices em seu derredor e possuir também poderes oraculares para inspirar os feiticeiros" (Renato Almeida, Manual de coleta folclórica, p.116).

O que se lê a respeito do mate nos leva a considerar que é, realmente, o mate uma das substâncias vegetais do maior significado folclórico, conforme bem o esclarece Câmara Cascudo: "A veneração do café e o perfumado fetichismo do chá, nada são, sem sequer dão uma idéia da profunda significação do mate, na América do Sul, que não se pode descrever com palavras, nem cantar, nem dizer, nem pintar, nem esculpir em mármore". (Dicionário do folclore brasileiro).

(Bastos, Wilson de Lima. "O mate no folclore". A Tarde. Juiz de Fora, 02 de julho de 1968)
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