Meu amigo e confrade Valter Spalding, escritor gaúcho, coligiu e publicou algumas quadras anônimas relativas a dom Pedro II.
O nascimento do principezinho foi assim popularizado nas Minas Gerais:
Lá se vai o sol entrando
Arraiando pelo mundo
No dia 2 de dezembro
Nasceu dom Pedro II
Quando lhe morreu o pai, em Lisboa, em 1834, o caso foi assim cantado aqui no Nordeste:
Morreu dom Pedro I
Ficou dom Pedro II
Batendo com as pestanas
Governando sempre o mundo
Em verdade, dom Pedro não governava nem o Brasil, quanto mais o mundo. Tinha apenas nove anos e o governo era, em seu nome, feito pela Regência.
Promoveu o Partido Liberal a revolução da maioridade. Os partidários do movimento cantavam por toda parte:
Queremos Pedro II
Embora não tenha idade
A nação despreza a lei
E viva a maioridade
Vitorioso o movimento, a quadra foi substituída por esta:
Sobe ao trono o jovem Pedro
Com geral satisfação
Foi abaixo a camarilha
Exulte toda a nação
Em muitos pontos se cantava:
Atirei um limão n'água
De tão alto foi ao fundo
Os peixinhos responderam:
— Viva dom Pedro II
Aqui, em Pernambuco, porém, havia certa cautela. Foi posto um pouco de água fria no entusiasmo:
Por subir Pedrinho ao trono
Não fique o povo contente
Não pode ser boa coisa
Servindo com a mesma gente
Por sua vez, os insatisfeitos com a ordem das coisas diziam:
Quem põe governança
Na mão de criança
Põe geringonça
No papo da onça
O vento mudou e quando o imperador veio a Pernambuco, em 1859, exultou a musa:
Os leais pernambucanos
Bradam deste ponto ao mundo
De outros reis cale-se a fama
Viva dom Pedro II
Quando, na guerra do Paraguai, a coluna invasora de Estigarribia se rendeu em Uruguaiana perante o imperador, a musa popular vibrou:
Cercado, batido, preso
Jaz o paraguaio imundo
Viva o herói de Uruguaiana
Viva dom Pedro II
Proclamada a república, dom Pedro foi para o exílio. A musa ficou inconformada:
Saiu dom Pedro II
Para o reino de Lisboa
Acabou-se a monarquia
O Brasil ficou à toa
E como o maior responsável pela queda do trono fora o marechal Deodoro da Fonseca, sobre este caiu a maldição da mãe, em cujo ventre se gerara:
A mãe de Deodoro disse:
Este filho já foi meu
Agora tá maldiçoado
De minha parte e de Deus
Por onde se vê quão útil é o folclore, até como auxiliar da história.