Antônio Osmar Gomes
Na tradição popular de dias da semana constituem um tema interessante ao mesmo tempo que apresentam vasto campo de pesquisa em prosa como verso.
Há até entre eles um dia que não vem jamais, que é o dia de São Nunca, na voz chistosa do povo, que para ser ainda mais categórico dá a expressão este complemento de reforço — "de tarde" de modo que temos para completo desengano daquilo que estaríamos esperando amanhã ou num futuro mais ou menos próximo, "o dia de São Nunca de tarde". A curiosa expressão se acha registrada em nossos léxicos, entre outros no excelente Pequeno dicionário brasileiro de língua portuguesa, organizado por Hildebrando de Lima e Gustavo Barroso no verbete de cujo vocábulo muitas outras expressões se encontram de expressivo cunho popular, inclusive o conhecido "dia-santo", significando "buraco na meia", e o que o dicionário Carlos Aulete registra como sendo da província portuguesa do Minho.
Entretanto, nessa ordem de significados interessante não encontramos em vários léxicos consultados bem alhures, um que é muito comum na Bahia e que queremos deixar aqui consignado — o "dia de branco". Trata-se, a nosso ver, de uma reminiscência da escravidão, que vem atravessando os tempos até os nossos dias, pois "dia branco" quer dizer muito simplesmente, "dia de trabalho". Quando na Bahia se adverte a alguém sobretudo nos dias feriados, no meio das festas, que "amanhã é dia branco" é uma observação que se lhe está fazendo para que não esqueça que o dia seguinte é de trabalho, pertence ao patrão, aquele cujas ordens está subordinado, sob qualquer que seja a condição ou a forma do emprego. O patrão de hoje, no caso, era o "branco" de ontem, isto é o senhor-de-escravos e daí a correlação que estamos admitindo.
Ainda com referência ao dia de "São Nunca", também os franceses têm uma expressão para significar o tempo que jamais virá e que é: "la semane des quatre jeudis", locução de uso familiar.
No adagiário é bastante conhecido este enunciado de que "não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça". Em Portugal se diz que "Natal em sexta-feira, por onde passares, semeia; em domingo, vende os bois e compra trigo". Ainda mais que "à terça-feira não cases a filha, não urdas a teia, nem partes em navio para terras alheia". E, finalmente que "chuva de sábado nunca se acaba", assim como que "sábados a chover, bêbabos a beber, nunca ninguém pode vencer". (em Adágios populares, de Antônio Delicado, e Rifoneiro português, de Pedro Chaves).
Da maneira como foram aproveitados, romanticamente, por um poeta da musa anônima das ruas os sete dias da semana, nos dão notícia as quadrinhas seguintes recolhidas por Sílvio Romero no seu livro Cantos populares do Brasil:
Benzinho, te vou contar
No domingo em que te vi.
Fiquei todo embelezado
Das prendas, que vi em ti
Na segunda eu aprontei-me
Para te ir visitar
Logo que vi o teu rosto
Fiquei louco por te amar
Na terça por todo o dia
Para mim tudo era flor,
Só pensando em ir gozar
Delícias de teu amor.
Quarta-feira destinei
Continuar nossa amizade
Se assim fosse de teu gosto
Como é de minha vontade.
Na quinta falei a teu pai
Disse-me ele que cedia;
Só me restava saber
Se o meu amor me queria.
Mandei falar à tua mãe;
Foi dia de sexta-feira.
Ela me disse que sim
Que não te tinha pra freira
Sábado, não te arrependes
Dos filhos que havemos ter;
Ou com eles, ou sem eles,
Juntos temos de viver
Com esses últimos versos deveria estar completa a enumeração dos dias da semana, com o detalhe de que a poeta faria pelo seu amor, em cada um deles no entanto vem mais outro, contendo singular advertência à bem-amada, com relação ao domingo:
No domingo veja os moços
Olha bem para a feição
E depois não te arrependas
Vidinha do coração.
Assim como há a semana do amoroso tão diligente e zeloso pelo seu amor, também temos a do preguiçoso, na variante de um tema francês que em seu livro O folclore, João Ribeiro transcreve de "Rimes et jeux de I'enfance", de E. Rolland, a saber:
Lundi, Mardi, fête;
Mercredi, fe n'y puis être;
Jeudi, Saint Thomas;
Vendredi, fe n'y serei pas;
Samedi, à la ville,
Dinanche à la meuse
E! ma semaine sera faile.
Na América do Norte, porém, a tradição popular quanto ao emprego dos dias da semana enumera alguns trabalhos de maior atividade conforme se verifica na seguinte transcrição do livro A treasury of American folklore, editado por B. A. Botekin:
Wash on Monday
Iron on Tuesday
Bake on Wednesday
Brew on Thursday
Clean on Friday,
Mend on Saturday,
Go to meeting on Sunday
Na Galiza, segundo o Cancionero popular gallego, de Ballesteros, nem mesmo o domingo, que é o dia universalmente consagrado ao descanso, se deixa de trabalhar. Eis o que diz ali o poeta do povo:
Para domingo que vem
Hei d'arar a minha rosa,
Rego abaixo, rego arriba:
Vente branca; vóve, rosa.
Aliás, no mesmo Cancionero vamos deparar com uma contradição a esse expresso propósito de trabalhar no domingo. É o que se depreende da seguinte quadrinha, em que se faz também um trocadilho entre o nome próprio de Domingos e o do primeiro dia da semana:
Domingo é meu amor,
e Domingos hei de amar
domingos son dias santos.
rodol-os penso guardar.
E parece mesmo que lá como aqui e em toda parte, o domingo é sempre um dia folgado, que deixa saudades, tanto que Ballesteros colheu em terras galegas, estes cantares de despedidas dominicais:
Adios hastro domingo
o domingo logo vem
de mañan en oito dias
ach'a semana que vem.
Adios, martes d'entroide
erres valente gandulo
tres dias de boa vida.
sete semanas d'aúno
Oxe é domingo
mañan dia santo;
oxe me deito
mañan me levanto.
Também nas quadrinhas populares, dispersas, os dias da semana servem de tema e aí está uma trova interessante recolhida pelo folclorista português Fernando de Castro Pires de Lima, em Cantares do Minho:
O meu amor me disse ontem
Pra domingo falaremos!
A semana tem seis dias,
eu inda queria menos...
Embora tenha sete dias a semana, contudo o poeta popular quis referir-se à semana de trabalho, isto é, a "semana solteira" ou "donzela", segundo os lexicógrafos registram bastando citar Laudelino Freire, dando-as como expressões do povo. Ainda neste particular, temos a "semana furada", aquela em que há um ou mais dias em que o trabalho é proibido, bem como a "semana dos nove dias" que é a que nunca há de vir, como aquela outra "das quatro quinta-feiras", dos franceses, citada anteriormente neste trabalho.
Mas, voltando às quadrinhas, bem interessante é a que se segue, transcrita do livro de Cantares do Minho:
Ó triste segunda-feira,
o sábado vai-se chegando!
Ó domingo, anda vindo,
eu por ti estava esperando.
Uma variante dessa encontramos entre as Mil trovas coligidas por Agostinho de Campos e Alberto d'Oliveira, assim:
Ó triste segunda feira
Da semana que há de vir,
Quais serão os tristes olhos
Que te hão de ver partir?
Na mesma coleção se encontra esta outra quadrinha mimosa mencionando, de medo romântico, a ocupação de quatro dos setes dias da semana:
Segunda-feira te amo
Na terça te quero bem,
Na quarta por ti espero,
Na quinta por mais ninguém.
Por sua vez, o folclorista luso dos Cantares do Minho, registra esta variante:
Na quarta-feira te amo,
Na quinta te quero bem,
Na sexta digo que morro,
Sábado digo por quem...
Como dissemos no início, é vastíssimo o campo que se oferece ao pesquisador relativamente ao que ainda anda por aí esparso sobre os dias da semana na tradição popular, mais fiquemos por aqui mesmo.