Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Os remédios difíceis

Flávio Piza

Umas das características dos remédios que sobreviveram através do folclore é a de serem tanto mais difíceis de encontrar quanto menores são as probabilidades de curadas as moléstias a que se destinam. Correlação que se explica facilmente, pois os medicamentos que estivessem ao alcançe de todas as mãos tornar-se-iam, dentro de pouco tempo, completamente desprestigiados pelos insucessos repetidos diante de moléstias graves. Automaticamente sucumbiriam na tradição oral de qualquer povo levemente bafejado de cultura.

Há, por vezes exceções. Na África, em razão que não pudemos precisar, aconselha a tradição que se combata a cegueira com a ingestão de um cozimento de moscas e de formigas. Remédio tão fácil para cura tão problemática está indicando ínfimo nível de cultura, onde não se faz possível sequer a memorização dos tratamentos fracassados. E não deixa de ser uma tentação perguntar-se se não viria dessa origem, no bojo dos navios negreiros, a afirmativa que circula aqui entre nós de que formiga engolida faz muito bem à vista.

Mas em civilizações mais avançadas a regra é a proporção entre a dificuldade da cura e a raridade do remédio. Na Córsega diz a lenda haver uma fonte que cura a cegueira, guardada por monstros terríveis, vagos e mal descritos que é forçoso burlar para atingi-la. Num conto europeu, um astrólogo recomenda para a cegueira, como único remédio, o leite de uma fêmea de tigre no momento em que esteja terminando o trabalho de parto. Não é lá muito fácil descobrir uma fera nessas circunstâncias fisiológicas, mas, mesmo que o fosse, quem iria tirar o seu leite antes que o filhote experimentasse? O filamento esverdeado que se retira do rim de uma gralha européia também cura a cegueira. Mas a ave há de ser completamente branca. Uma pena preta tornará o remédio ineficaz.

Ainda para a cegueira, num conto sânscrito um grande médico recomenda que de uma excursão pelos vales e pelos picos de determinadas montanhas se tragam quatro plantas. A primeira há de ser aquela que apresente em si todas as cores e todos os gostos. O cego deve tomá-las depois de um cerimonial completo, em que há de amassá-las com os dentes, para depois introduzi-las no corpo com uma agulha. Toda a liturgia da medicação jamais se poderá executar. Os cegos morrerão, esperando a flor que traga todos os sabores e todos os coloridos.

Entre os caboclos brasileiros é de convicção de que algumas pessoas, mediante determinados feitiços, ou carregando consigo certos amuletos, ou ainda rezando orações misteriosas e obscuras, conseguem aquilo que se chama de "fechamento de corpo" e, sua invulnerabilidade a tiros e facadas de qualquer espécie. E é Monteiro Lobato quem nos conta da crença disseminada entre o nosso povo, de que essa façanha se consegue, de forma infalível com a posse de uma flor de samambaia. A lenda afirma que a samambaia somente floresce uma vez por ano e cada samambaia produz apenas uma flor, exatamente à meia-noite de São Bartolomeu. Mas os interessados que se previnam, que a colheira é extremamente difícil, pois o diabo em pessoa também a procura com avidez desesperada. Não consegue a fama tenebrosa dessa noite de agosto desiludir os candidatos. E a sua ignorância de botânica não lhes permite a pressagiar o insucesso, com a evidência de que as criptogâmicas não produzem flores. Mas uma vez se agradece à sabedoria por não haver atingido com a sua luz ofuscante certos recessos longínquos desse país gigantesco, onde ainda conseguem mediar a suave poesia de uma lenda e o encanto medroso de uma superstição. A instrução faz milagres, mas as tradições fazem a alma das nações.

Há porém uma cura mais difícil que a de todas as moléstias incuráveis: é a debelação da própria morte. Eis como Dana e Henry Thomas nos contam a história de uma mulher que buscava o remédio para ela. Era uma mulher muito moça e muito linda. Mas um dia, seu filhinho adoeceu nos seus braços e definhou lentamente, até que sucumbiu. Quando a chama da vida abandonou o corpinho frágil da criança, a mãe enlouqueceu de desespero. Apertando contra o peito o cadáver que esfriava, saiu de casa em casa, bateu de porta em porta, suplicando a todos um remédio que restituísse a vida à criancinha. Assim foi até chegar à soleira de um monge rico de sabedoria e de experiência dos homens. Cheio de piedade, o sábio murmurou somente para si: "Ela não compreende." E erguendo a voz afirmou-lhe: "Minha pobre filha: eu não tenho o remédio que procuras, mas sei de alguém que o tem." E a mãe implorou-lhe o nome dessa pessoa. "É o Buda. É a ele que dever procurar". Ansiosa e esperançada, ela partiu em busca de Gautama. Encontrou-o. E ele, ao escutar a súplica da mãe alucinada confirmou: "Sim, conheço o remédio capaz da ressurreição. É a semente da mostarda." Mas, quando os olhos da mulher se desanuviavam e seu coração palpitava de alegria, com a indicação de remédio tão comum, o profeta continuou: "Tens de consegui-la, porém, em alguma casa onde nunca haja morrido nenhum filho, marido, pai ou escravo. A formosa mãe partiu em busca do remédio salvador. Em todas as portas que batera ninguém se negou jamais a lhe fornecer as sementes desejadas. Mas quando a jovem perguntava se naquela casa nunca havia morrido um filho, pai, marido ou escravo, todos lhe respondiam penalizados: "Esta casa não esceto em parte alguma. Os vivos são poucos, os mortos são muitos." Então, mergulhada em profunda meditação, ela se voltou para junto de Gautama, este lhe perguntou se havia achado a semente de mostarda. E ela respondeu que não descobrira a semente, mas encontrara a cura: havia sepultado a sua dor na floresta. "E agora nada me falta para seguir-me em paz."

 

(Piza, Flávio. "Os remédios difíceis". Diário de Piracicaba. Piracicaba, 16 de junho 1957)
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