Recebi, certa feita, de presente, um livrinho caprichosamente encadernado, encerrando um texto muito bem datilografado, todo ele sobre rezas e benditos de Santo Antônio. Reproduzia trezenas inteiras tais como eram cantadas por uma velha senhora devotíssima do santo casamenteiro. Tinha coisas de morrer de rir, acrescentou a ofertante, citando inclusive algumas frases curiosas como "Misericórdia arcançada dideu", "Domine festinha", "Domine e regina adjutora", sem falar no clássico "Regina partiu a cara".
Agradeci, desvanescida, já antevendo o quanto poderia extrair de tão precioso manancial. Mas quando examinei o material, tive uma decepção. Nada havia de interessante. Tudo era em linguagem normal, com um ou quatro errozinhos banais, sem qualquer expressão popular ou folclórica.
Tempos depois soube do que acontecera. A ofertante se encarregara de passar a limpo um caderninho sujo, esmulambado e de difícil leitura. Confiara o serviço a uma funcionária de ótimos préstimos, católica fervorosa e com tinturas de letrada, que vertera tudo para um razoável português, copiando as frases latinas de um antigo livro de benditos impresso no Porto. A moça confessara que se sentira mal em bater semelhante asneira. Que poderiam pensar dela vendo que deixara passar aquela enxurrada de bobagens?! Assim ficou estragado o caderninho oferecido com tanto prazer.
Referi o caso, porque várias pessoas têm indagado por que na crônica A bênção, publicada na última semana, aparece vosmecê em lugar de vosmincê. Todos protestam que está errado, que nunca ouviram vosmecê e sim vosmincê ou vosmicê.
Todos estão cobertos de razão. Também eu nunca escutei dizer vosmecê, sendo bom baiano e não querendo ser explicado demais. Nem escrevi vosmecê nos originais. Lá figuravam outros vosmincês sublinhados segundo a convenção para mudar o tipo da letra no momento da composição. Quando o jornal publicou apareceu o vosmecê. Quem emendou? Só pode ter sido a revisão, sempre zelosa da pureza da linguagem, mesmo em artigos assinados.
Aliás o vosmecê existe, Qualquer dicionário explica que é forma pronominal antiga, conrruptela de vossemecê. Cita Franklin Távora, em outra região do país se diz vosmecê em lugar de vosmincê. Vossemecê por outro lado é uma forma pronominal portuguesa que se emprega em tratamento familiar ou quando alguém se dirige a pessoa de mediana condição, contração de vossa mercê.
Se o dicionário se baseou no que Franklin Távora deve ter ouvido e por isto grafou, por minha parte segui a maneira porque o nosso povo fala e diz. O povo que não quer saber de lógicas gramaticais nem toma conhecimento de que em outra região do país se diz vosmecê em lugar de vosmincê. Vosmincê ou vosmicê, bem nasalado, é termo bem baiano, e absolutamente certo. Mesmo na moderna concepção, quando o vosmincê está ficando meio ofensivo pois taxa o visado de velho, ainda é assim pronunciado mesmo pelos ciclosos, desses que sibilam determinadas consoantes e que o povo chama de boca cheia de línguas.
Franklin Távora grafou vosmecê, em lugar de vosmincê, porque naturalmente em sua zona é assim, que se pronunciava e se pronuncia. É o mesmo que o nosso mãe-im, exclamativo de mãe, corresponder ao mãe-ê do sulista. Quero que fique esclarecido ser o vosmecê que figura em A bênção gentil colaboração da revisão.
Tratar de assuntos regionais não é tratar de assuntos gerais. Quando se registra um fato ou focaliza um tipo regional é necessário utilizar a linguagem popular de forma adequada, sendo obrigatório reproduzir na escrita a ortografia usual. Não importa se quem escreve sabe todas as regras da gramática, obedece o dicionário antes de usar determinados termos ou sabe de cor todas as reformas ortográficas, pondo todos os acentos nos seus devidos lugares sobre as vogais.
Expressão popular é expressão popular. Varia em pronúncia e significação de lugar para lugar. Se a lavadeira que estamos retratando nos disse: O'xente, meupatia cura puxamento, sofocação e esfraquecimento. Curou até a dor que eu tinha assim na reguinguela, não é lícito traduzir para maneira mais correta. Se ela quem fala assim deve ser. O que se pode é explicar que ela queria dizer: Ô gente, homeopatia cura asma, dispnéia, e anemia. Curou até a dor que eu tinha aqui assim na região coccigeana.
Se meus velhos chamavam os mais antigos de vosmincê, se o tabaréu chegado de fora me chama de vosmincê, se aquela moça chama os seus pais de vosmincê, por que irei eu escrever vosmecê, apenas porque a palavra alcançou ser posta no dicionário?
Há alguns anos atrás possuí uma informante, valiosa postadora de folclore, que sabia casos, histórias cantadas, adivinhações, rezas, cantigas, ditados, quadrinhas. Seu vocabulário era o mais estranho possível, cheio de regionalismos, precisando sua conversa ser traduzida para circunstantes menos avisados.
Covarde ou covardo, de acordo com a flexão, qualificava uma mulher ou um homem de natureza afoita ou empreendedora. Bilinga era pedaço pequeno de qualquer coisa. Tibúrcio era faca pequena e de ponta. Lendo razoavelmente bem e escrevendo pessimamente várias ocasiões me forneceu por escrito alguns dos tesouros do seu repertório. Sua ortografia era a mais confusa possível e as palavras tinham um sabor especial dentro da ingenuidade com que eram escritas.
O tempo passou e a minha informante entrou para a aula noturna. Tirou o curso primário com muito garbo. Nunca mais quis escrever como ouvira em sua terra se pronunciar isto ou aquilo. Também só narrava traduzindo para a linguagem corrente. Tudo quanto sabia perdeu parte do valor. Até o vosmincê que empregava para se dirigir aos mais velhos foi substituído por um senhor e senhora muito sem sal.
Interpelada certa feita, com insistência, do porque da mudança radical, esclareceu que perdera uma boa colocação como governanta porque chamava a dona da casa de vosmincê. A referida senhora, já um tanto entrada em idade, não admitia a forma de tratamento, "coisa da antigüidade".
(Viana, Hildegardes. "Por causa de vosmincê". A Tarde. Salvador, 07 de maio de 1968)