Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A cobra no folclore gaúcho

Antônio Augusto Fagundes

A cobra tem — e a psicanálise explica claramente porque — enorme importância na imaginação popular de todos os povos. Já o "Romualdo" de Lopes Neto advertia: "... em roda de palestra há dois temas que fornecem — sempre — matéria de assunto: histórias de cobras e de jóias perdidas". E logo adiante registra também suas histórias de cobras de outros mentirosos de galpão.

Luíz da Câmara Cascudo, em suas Tradições populares da pecuária nordestina. onde estuda o "curado" e o "curador" de cobra, mostra o quanto temos de igual — norte e sul — nesse terreno folk-herpetológico.

Vamos, então, estudar o material que temos aqui, fruto de experiências pessoais, pesquisas diretas e consultas ao Museu de História Naturais da Divisão de Cultura, em sua seção herpetológica.

Maneiras de evitar cobra

No Rio Grande do Sul evita-se cobra largando pelos cantos da casa ou galpão pedaços e cabeças de alho. Queimando chifre. Por sinal que chifre queimado em boca de toca onde uma cobra está escondida faz um efeito rápido e seguro: a cobra deixa imediatamente o abrigo e sai, para as mãos do perseguidor, naturalmente. Toco de cipó (de uma certa espécie miraculosa) no bolso dos lenhadores também afasta o perigo. Cobra também não morde — porque se assim o fizer, morrerá — a mulher menstruada. E é uso, ainda, em certas regiões do Rio Grande: o gaúcho que for entrar em mato ou hervaçal perigoso, pronunciar o célebre exorcismo:

"São Bento, Cobra Bento,
Jesus Cristo no altar;
Cobra baixa a cabeça
Por aqui quero passar".

O "cobreiro"

O gaúcho acredita que uma cobra passando por cima de uma peça de roupa deixada ao léu, segrega aí uma substância qualquer que causará uma afecção na pessoa que usar a referida peça, mais tarde. Curiosamente o "cobreiro" (nome popular da afecção) não tem nada  a ver, em realidade, com a cobra, de onde tirou inclusive o nome.

Os bichos inimigos

Vários são os inimigos da cobra, sem contar a própria mussurana, espécie que devora as outras. Entre eles podemos citar o veado, que enquanto corre em volta da presa para desnorteá-la e imobilizá-la, vai babando em círculo. Quando a cobra está totalmente enroscada (e tonta, segundo se acredita), de tanto seguir os volteios do esperto animal, este pula e com as duas patas dianteiras esmaga-lhe a cabeça em golpes rápidos. A "avestruz" (ema) usa de processo idêntico, com a diferença de que não baba e termina por devorar a inimiga.

O bem-te-vi ataca espécies pequenas e golpeia com o bico até matá-las, inclusive usando o recurso de erguê-las nos ares e soltá-las nos chão. Também o seu fito é o alimento. Mas quem domina mesmo as cobras parece ser o gato doméstico. É incrível o poder destes bichos inofensivos sobre esses animais tão perigosos. Gatos quase recém-nascidos brincam aos tapas com cobras grandes e venenosas, como um piá brincaria com gadinho de osso. O gaúcho atribui o fato ao olhar "magnético" dos felinos, hipnotizando a vítima, que fica toda mole, medrosa, entregue e termina sempre por fugir. O joão-de-barro entra para o rol dos inimigos da cobra, mas como vítima sempre. Chega a escolher os postes eretos para a construção de seus ninhos, porque lá a cobra não sobe. É sempre um perigo meter a mão em ninhos, porque pode estar aí escondido um ofídio.

A cobra morta

Matar uma cobra é coisa que não pode ser feita assim no mais. Requer na maioria das vezes conhecimento de todo um ritual complicado. É crença que uma cobra nunca anda sozinha; assim, quem mata uma tem que esperar para matar a outra, porque senão esta vem pelo rasto e termina por morder o matador da companheira. Depois da cobra morta, seu cadáver não deve ser abandonado em qualquer lugar. Se o seu corpo fica exposto no chão, quando restarem só espinhos, caso uma pessoa pise em cima, estes espinhos entram no pé e, correndo pelo corpo como os de ouriço, terminam por chegar ao coração e matar a vítima. Por isso sempre os cadáveres de cobra vão para as fossas sanitárias para os arames de cerca ou para os formigueiros onde não há o perigo de um cristão pisar em cima. Se der na cabeça por outro lado, do matador atirar o cadáver da cobra ao fogo, estará perdido; a cobra mostrará as patas que são muitas) e quem vê patas de cobra morre em seguida. (Isso acontece no campo do folclore, porque em realidade a cobra não tem patas nem viva, nem morta, nem no fogo nem em parte alguma). Se a cabeça de uma cobra for cortada, poderá ainda saltar e morder fatalmente. Meu avô, numa faina de arroz, decepou a cabeça de uma cruzeira com um talha de adaga. Chegando a casa a vovó foi sacar-lhe o poncho, e encontrou nele o que pensou ser um carrapicho; era a cabeça atorada da cruzeira que havia saltado em direção ao meu avô, que foi salvo pelo pano grosso do poncho!

"Curado" e "curador"

"Curado" é aquele que sendo mordido por cobra venenosa, se salva. Então fica imune ao veneno ofídico. Pode lidar à vontade com as cobras, sem perigo algum. Além desta forma de ficar "curado", havia outra, na qual a pessoa interessada se preparava, isto é, se "curava" ingerindo determinada droga importada pelos gaúchos. Infelizmente não pudemos identificar e conhecer perfeitamente este processo de "curar-se". Foi assim que a progenitora do folclorista Carlos Galvão Krebs ficou "curada" de cobra. Nosso peão Tito se "curou" por mordedura. "Curador" é a pessoa que por benzimentos, remédios etc., evita o desenlace trágico de uma mordida venenosa. O "curador" não é necessariamente, "curado". Os remédios mais usados contra mordida de cobra, na campanha, são o querosene bebido, é a "pluméria", infusão vendida nos bolichos, fabricada não-sei-aonde. O "curador", para chupar o veneno de uma mordida, alarga o ferimento com a faca e aplica aí a boca. Mas não deve ter lesões ou cáries, para não ser ele próprio infeccionado.

A vida das cobras

A espécie ofídica é ovípara, isto é, "descasca" os filhotes. Mas o gaúcho acredita, em muitos casos que a cobra seja vivípara, isto é, que "pare" os filhotes. O fato de muitas cobras mortas terem dentro cobrinhas, serve para robustecer a crença da viviparidade. Quando isso ocorre — que ocorre! — decerto é porque a cobra-mãe comeu a ninhada, como as porcas e as gatas fazem às vezes. Também é crença que a cobra não morre de velha de morte natural. Quando se sente "judiada pelos anos" simplesmente muda de casca e fica novinha em folha! Em realidade a vida de todos os seres vivos é limitada, ao contrário do que acontece ao reino mineral. A mudança de casca nas cobras é um fenômeno natural, coisa parecida com "pelechar" dos bois e dos cavalos. Como a casca escamada envelhece, cai, deixando aparecer em seu lugar uma outra, nova e brilhante, que dá a impressão de eterna juventude que a alude a crença gaúcha. Essas "cascas" — roupa velha que é abandonada — ficam ao léu, no campo, inteirinhas da silva. Os gaúchos ai vão recolhê-las porque usadas como vincha na testa, são "um porrete" contra febre e dor de cabeça. Quando a cobra está mudando de casca — e eu vi isso muitas vezes — leva um tempão demorado, e fica imóvel como se estivesse morta. A gente pode chegar, tocar nela, bater e ela nem se mexe. Meu irmão foi atacado por uma mussurana que ia provavelmente comer uma indefesa papa-pinto que estava mudando de casca, observada por nós.

Atração nas cobras

Segundo a crença, cobra "atrai" e é "atraída". É atraída por leite — de que falarei mais adiante — por música, por assobio dentro da noite e pelo vento Norte. Por outro lado ela "atrai" a vítima olhando-a fixamente. Cada movimento do animal "encantado" é um passo na direção da goela hedionda da assassina. Isso em realidade não ocorre. O animal sabe instintivamente, que imóvel ele é mais dificilmente presa da cobra e por isso faz um mínimo de movimento. A fixidez de seu olhar tem a seguinte explicação científica: as pálpebras da cobra são uma cortina transparente sobre os olhos, daí ser fixo seu olhar, que nada tem de hipnótico. Isso é coisa impossível pois a cobra não pode "hipnotizar" ninguém desde que tem os olhos colocados nos lados da cabeça e não olha para a frente.

As cobras que mamam...

Segundo os gaúchos as cobras mamam nos tetos das vacas (meu pai viu muitas assim dependuradas) e na mulheres que amamentam, neste último caso iludindo o bebê com a ponta da cauda metida em sua boca enquanto a mãe dorme placidamente... Não é verdade cientificamente, isso também. A conformação anatômica da boca das cobras impede a sucção, o "mamar". O máximo que poderá fazer é lamber os resíduos, de leite deixado pelos terneiros... ou pelos bebês, vá lá!

"Cobra que perdeu o veneno"

É comum na campanha essa expressão: "... ficou como cobra que perdeu o veneno!" significando que uma pessoa ficou furiosa, intratável. Isso tem explicação na crença que quando cobra vai beber água deixa o veneno numa folha. Se alguém esconder a folha, quando, ela voltar para retomar o que é seu, barbaridade! A avó de uma colega nossa viu uma cobra ir para a fonte, e seguiu-a. Viu quando o réptil parou na frente de uma folhinha, e se afastou na direção da água, rapidamente a avó de minha amiga agarrou a folha, onde estava uma gosma feia e se escondeu. Quando a cobra voltou, e não encontrou, se retorcia e dava pulos deste tamanho. Uma coisa medonha!

Os "pêlos"de cobra

Recolhemos os nomes populares das cobras no estado e os científicos com o pessoal do Museu de História Natural. O Rio Grande do Sul tem quase cem espécies de cobras catalogadas, sendo que a região oeste-sudoeste permanece quase inexplorada nesse terreno. Eis aqui o que apuramos: 

Cotiara (ou contiára): Bothraps cotiara;
Cruzeira: Bothraps alternata;
Cascavel: Crotatus terrificus terrificus;
Coral: Micrurus frontalis multicinctus (a espécie mais comum);
Jararaca: Bothraps jararaca;
Jararaca de rabo branco: Bothraps Weuwiedil Riograndensis;
Jararaca banhada ou cobra nova: Drychophis bifossatus bifassatus;
Papa-pinto: Chironius sp;
Cobra-verde: Philodryes aestívus;
Parelheira (ou corredeira): Philodryas schotti;
Caninana: Spilotes puliatus;
Mussurrana: Pseudoboa cloelia;
Cobra-de-campo (espécie mais comum): Leimadophys paecilognpus;
Cobra-d'água: Helicaps carinicauda (espécie mais comum).

Além dessas que aí estão poderiamos citar a famosa e temida "cobra-voadora", que segundo a crença dá nos eucaliptos numa certa época. Mas a jaquitirana-bóia nem é cobra nem é voadora. É uma espécie de inseto, é só a forma lembra ainda que remotamente parentesco ofídico.

As maiores espécies são a caninana que chega a três metros, e a jararaca do banhado, por aí também.

Toponímia

No município do Alegrete onde existe um lugar chamado Jararaca, bem perto da cidade. Há, ainda o Guassu-boi mais distante.

Lendário

São bem conhecidas as lendas da boi-guassu (ou guassu-boi) que quer dizer "cobra" (boi) grande (guassu, assu) em guarani, e de cobras que guardam lugares encantados, como o túnel que ligaria São Borja ao Passo naquela cidade. Dizem que essa cobra de tão velha chega a ter cabelo! Na salamanca do jarau também aparece a temática cobra, como um dos perigos do seu Nunes

Ainda poderíamos acrescentar mais a crença de que não se erra tiro em cobra, de que guizo de cascavel retine de um lado e está do outro de que o mesmo guizo dentro de um violão, piano, eletrola ou rádio purifica o som destes aparelhos, e de que as cobras que são vistas perto de fontes, são as "mães-da-água" e que não podem ser mortas.

Poderia citar ainda gente que cria mussuranas em casa, por prevenção mas ja é abusar do assunto.

 

(Fagundes, Antônio Augusto. "A cobra no folclore gaúcho". A Hora. Porto Alegre, 17 de maio de 1958)
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