As grandes enchentes do rio São Franscico dão lugar a interessante fenômeno, quando o seu nível ultrapassa o do seu afluente Pandeiros. Com efeito, as águas do grande rio vão de encontro às do seu tributário provocando um estrépito medonho, numa luta soberba. Vence o mais forte.
E o Pandeiros passando a "corrê prá riba", como dizem os barranqueiros, vai represando também seus afluentes e cobrindo lavouras, pântanos e alagadiços até às proximidades de sua famosa cachoeira, numa extensão que vai de cinqüenta a sessenta quilômetros.
Cessada a causa, pela ausência de chuvas nas cabeceiras, volta o Pandeiros a correr normalmente; todavia, algo fica preso nas ipueiras, lagoas e sangradouros.
São os cardumes de peixe.
É a lei da compensação, o presente de Deus aos rudes camponeses daquele formoso vale.
E a seca continua a crescer, as vazantes, descobrindo ilhas e baixadas, ou enxugando vargens e brejais. Nos meses de julho a agosto a paisagem torna-se amarela e triste.
Os camponeses no entanto, mostram-se alegres e se aprestam para receber o presente que Deus lhe enviou.
O dia é marcado, ninguém sabe como, nem por quem. O fato, contudo, é que todos se arranjam, cada qual cuidando de um mister, imperativo da prática de longos anos, numa espécie de obediência à tradição.
Três dias antes o êxodo começa.
Correm a tinguijada.
As estradas desertas enchem-se, então, de cargueiros, de homens, mulheres e crianças, convergindo todos para um só ponto, ignorando-se também quem a eles o determinara. Levam suas roupas, algumas esteiras de buriti, bem como a tralha de cozinha, a rapadura, e café, a farinha de mandioca, a cabaça e, segundo as posses, uma, duas ou mais sacas de sal, que se destina aos vários processos de conservação do peixe.
Chegados no local improvisam ranchos, armam toldos de ramos ou simplesmente se acomodam aos pés de frondosas ingazeiras.
E dão começo no trabalho. Fragmentam-no em tarefas. A tinguijada exige a contribuição de várias pessoas, sendo empresa um tanto arriscada, mas divertida. Nada mais, nada menos que uma pescaria em grande escala, deitando-se nas lagoas ou nos rios apreciável quantidade de raspas de tingui depois de passar por ligeira fase de espumação. O tingui, como o timbó, é planta que se desenvolve nas chapadas, constituindo uma das riquezas daquela região norte mineira. Ambas encerram substância tóxicas, que em mistura com a água ocasionam o envenenamento dos peixes, sem contudo oferecerem perigo aos seus moradores.
A tinguijada faz-nos lembrar de mutirão, que é, segundo me ocorre, trabalho conjunto em benefício de uma pessoa ou família. Entretanto, nessa pescaria o esforço coletivo é distribuído individualmente, pois uma vez envenenados, os peixes são colhidos a vontade por qualquer das pessoas que nela colaboraram.
É um espetáculo de beleza rara. Centenas e centenas de pessoas entram na água e começam por impedir a saída dos peixes, para isto cercando os sangradouros com ramos, troncos de árvores e grandes novelos de tiririca ou cebola aquática. Prontas as barragens, dão início ao envenenamento da seção escolhida, lançando na água blocos de espuma do tingui batido no fundo das canoas. Uma hora depois, se muito, o tóxico começa a produzir efeito, atacando inicialmente as piabas, curimbatás, matrinxãs, piaus, depois os dourados e piranhas, mais tarde os surubins e traíras.
Os homens se munem de arcos e flechas e passam a fisgar os peixes, ou, na falta daqueles instrumentos, utilizam-se de chaços e facões, ou os apanham com a mão.
Enchem canoa e cargueiros de peixe salgado e partem de volta com suas provisões garantidas para toda a primavera.
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