Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Julho 2005 - nº 80 - Ano VII


Sumário

Festança

Festas com sereno
Ademar Vidal

Cucumbis
Manuel Querino

O kerb
Carlos de Souza Morais

Cancioneiro

A greve dos bichos
Zé Vicente

Romance do Antoninho ou do menino que matou o pavão do professor
Rossini Tavares de Lima

A vida dos seringueiros
Francisco Castro de Brito

Imaginário

O geribu e o parafuso
José Paulino

Campeonato de jejum

Cobra sabida
Walter Spalding

Colher de Pau

Três pratos a base de charque
Antonio Augusto Fagundes

Mar Pequeno tem receitas que são tradição há meio século

Adendo sobre boas maneiras à mesa

Oficina

Velas brancas
Gustavo Barroso

Os fazedores de balaio
A. Seixas Netto

Tinguijada
Saul Martins

Palhoça

O cigarro de palha e o mineiro
Alberto Deodato

A cobra no folclore gaúcho
Antônio Augusto Fagundes

Por causa de vosmincê
Hildegardes Vianna

Panacéia

Um escapulário
Múcio Leão

Meizinhas do sertão
Eduardo Campos

Os remédios difíceis
Flávio Piza

Veja o que foi publicado em Oficina
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Oficina
Textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Velas brancas

Gustavo Barroso

A Aderbal de Carvalho

C'etait un vieux pilote aux paupières érailles par le vent, et des flocons blancs descendaient jusqu'à ses hanches, comme si l'écume des tempêtes lui était restée sur la barbe.
G. Flaubert. Salaammbô

Entrava já no seu septuagésimo quarto ano de vida o Matias Jurema, velho pescador do Meireles. Já não ia mais ao mar na jangada aventureira, para as pescarias abundantes de agosto, nem de dia com o sol sempre a brilhar num céu varrido e lustroso como esmalte, nem de noite com a prata líquida do luar a derramar-se sobre o extenso mistério das águas. Não é que a idade lhe tolhesse as juntas com dores reumáticas ou lhe fraquejasse o pulso cansado das manobras antigas. Outros, mais idosos que ele, ainda sustentavam filhos e netos com o que lhes dava a caçoeira e o anzol. Mas, por mal dos seus pecados, uma catarata cobria-lhe os olhos com um véu glauco, por trás do qual as argutas pupilas de pescador se esforçavam por distinguir o desmaio azul do céu no recuo do horizonte, com velas brancas saudosamente fugindo...

Teimava com a filha e o genro em andar sempre trajado de algodãozinho tinto de murici. Não ia mais para o mar. Não tinha precisão de roupas fortes. Porém queria ainda mostrar a todos, os velhos atributos da profissão que lhe levara a vida inteira. Com mão segura, apesar da falta de vista, remendava com cipós novos os samburás gastos, tecia tarrafas para vender aos pegadores de tainha do Cocó, examinava as poitas, à procura de falhas que pudessem comprometer a segurança das jangadas dormindo confiantes na ancoragem dos tacuaçus.

Ao romper do dia, de bordão em punho, demandava a costa, a sentar-se num mouchão de areia. A claridade fraca do dia nascente espalhava-se sobre as dunas alvas. Começava a lufa-lufa da partida dos jangadeiros para a pescaria. Escutava-a. Vivia pelo ouvido, já que não podia mais deleitar-se com os olhos. Imaginava a paisagem tão sua conhecida em outros tempos e quedava silencioso, o cachimbo esquecido ao canto da boca. Alheava-se em sonhos dos laços que o prendiam à terra. Navegava pela superfície ondulada e indefinida das saudades, que perspassavam incessantes como as vagas do largo. O mar bramia. Dava ao longe em rochedos com ribombos de canhão. Espraiava-se em ciclos pela areia lavada da praia. Rangiam os madeiros das jangadas empurrados nos rolos para as águas. Guinchavam retrancas de encontro aos mastros. E, alta, forte, rude, entrecruzava-se a vozeria de pescadores. Às vezes riam, outras praguejavam.

— Agüenta a ligeira, cabra frouxo!

— Segura a jangada, diabo!

— Manuel! Manuel, vamos, homem de Deus!

— Traz essa quimanga, capixaba!

— Ó Chico da Demitilde, cambeta, sarará!

Depois o barulho diminuía gradativamente. Uma a uma as jangadas partiam. Ainda os que ficavam enchiam-lhe os ouvidos de comentários:

— Olha a Sereia como como é boa de bolina!

— Menino, repara a Tubarão como pega vento!

Às vezes franzia os lábios numa comissura escarninha.

Tinha escutado uma manobra mal feita. Outras, quase levantava-se da areia, ansioso, ouvindo as mulheres apavoradas gritarem que uma das embarcações, dando um bordo à onda, ameaçava virar. A seu lado passavam jangadeiros. Davam-lhe bom-dia. Um ou outro detinha-se a dizer-lhe uma palavra, a pedir-lhe lume para o cachimbo ou a contar-lhe uma intriga aldeã. Os meninos corriam-lhe em torno, sujos e alegres, a pedir-lhe a bênção.

Quando na praia paravam as falas e somente o oceano resmoía os seus queixumes, voltava para casa plácido e satisfeito. Virava-se de quando a quando para o mar, como se através do véu que lhe cobria os olhos pudesse avistar, esmaecendo-se, as velas brancas na risca do horizonte.

De tarde tornava novamente à praia, a escutar os ruídos da volta dos jangadeiros. Gritos de prazer das mulheres ao conhecerem de longe as jangadas dos maridos, ou dos pais e dos irmãos:

— Lá vem a Faceira! É ela mesma. Está se vendo na vela encardida a cruz encarnada do Mané Dantas.

— Raimunda, olha a jangada do teu pai como veleja! Daqui já se vê a sereia azul que o Luiz pintou no canto do pano.

As jangadas encostavam; e eram abraços, risos, brados alegres. Depois a contagem monótona dos peixes, que caíam um a um na areia fina sob o olhar sagaz do cobrador do dízimo. Por vezes explodiam disputas. O dizimeiro falava em mandar prender. Os ânimos serenavam. De outras, uma mulher afastava-se em choro. O marido não voltara e nem os companheiros tinham deixado a sua jangada para trás. Não a tinham visto pelo mar. Cachorros ganiam, a lutar por tripas e guelras de peixes esquecidas no chão. Caía a noite. Acendiam-se as luzes do povoado e, apoiado ao braço do genro que voltava da pesca, aspirando com inefável gozo a salsugem do oceano que lhe ficara nas roupas e nos cabelos, o velho Matias regressava à choupana.

Eram aqueles dois passeios diários a sua única consolação neste mundo. Somente o mar o atraía e a terra ele desprezava por sua ingratidão. Ah! ela era miserável e covarde. A sua vingança estava na sua impassibilidade. Não tinha cóleras a sua inércia. O mar, não. Esse, quando tinha raiva, encapelava-se furioso e jogava os grandes navios sobre os rochedos e despedaçava as jangadas no abraço de uma onda. A sua cólera pintava-se na sua face, à luz do sol, à luz da lua e ao negror das trevas. E com ele o jangadeiro afoito aceitava a luta. Era o combate da inteligência contra a força e contra a ligeireza. A terra, essa estendia-se plana, calada e concentrada. Levava anos para dar um fruto, meses para produzir uma fécula. Tinha-se de esburacá-la com pás e enxadas, para se arrancar alguma coisa. Parece que dava esmolas. O seio largo do mar estava aberto a todo o mundo. Era inesgotável. Todos os seus tesouros lá estavam para quem tivesse ânimo de ir buscá-los. Enquanto o seu rosto enrugava-se de cólera formidável, o seu seio mantinha-se fundo e calmo. E como seu coração se dilatava jubiloso ao perder a terra de vista, quando sobre sua cabeça arqueava-se a cúpula iluminada do céu e aos seus pés estendia-se o chamalote movimentado das vagas.

Sobre a terra avara e esmolando as águas do céu, os seus avós tinham vivido curvados a procurar alimento. Dela migraram famintos e esquálidos, numa época terrível de sol e de seca. Vieram procurar a vida e a acharam com facilidade sobre as jangadas, na planície líquida do mar. Ele nascera e se criara naquela vida rude. Um dia sua mulher herdara nos morros dos Meireles uma posse de terra. Foi a sua desgraça. O seu filho mais velho nela trabalhou como negro cativo e um dia viu-a passar por uma hipoteca vencida às mãos dos Levis, uns judeus de Fortaleza. De desgosto e acabrunhamento adoeceu e se finou. O segundo filho, sorteado para o serviço da armada, metera-se com outros que se revoltaram e a tropa o espingardeou no galpão da Recebedoria, num dia feio de janeiro. A mulher tempos depois morreu do coração. ficara só com a filha casada, e em companhia do genro entregara-se unicamente à vida das pescarias. Era o mais ousado praieiro do Meireles. Arribara um dia ao Paracuru, para o norte; uma feita fora parar em Fernando de Noronha e de outra encalhara a jangada na baía de Touros. Dedicara sua vida somente ao oceano. A terra só lhe trouxera desgraças. Os seus olhos eram vermelhos e tristes das lágrimas que ela o fizera verter e a curvatura do seu dorso vinha ainda dos avós, que a tinham escavado à cata de comida.

Já no último quartel da vida aquela cegueira veio cortar-lhe a vontade imensa de só viver no mar. Era forçoso abandonar o velho companheiro. Já não podia mais vê-lo. Matava saudades ouvindo-o, com os dedos metidos na barba branca, que lhe caía sobre o peito e fazia destacarem-se as rugas de bronze do seu rosto de marujo antigo, em cujos traços ainda se liam vestígios de uma raça heróica que durante séculos devassara os oceanos.

Quando lhe perguntavam se queria ter menos idade, respondia que não, que desejava somente um "caquinho de olho", para enxergar o verde do mar, o azul do céu e o branco das velas pontilhando o horizonte...

Passaram-se tempos e num Domingo de Ramos ao repique festivo dos sinos, pretextando incômodos, o velho ficou em casa, enquanto os seus foram ouvir missa à cidade. O povoado estava triste e silencioso. Não havia quase ninguém. Sobre a praia, as velas das jangadas secavam ao sol, estremecendo ao vento.

O velho saiu de casa e dirigiu-se à costa. Às apalpadelas prepaou uma caçoeira. Pôs a jangadinha a nado, sentou-se na popa e, governando a escota, rompeu pelo mar em fora sob o ouro inquieto do sol a borboletear nas ondas verdes. E a vela branca da embarcação apagou-se no céu...

(Barroso, Gustavo. Praias e várzeas; Alma sertaneja. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1979, p.5-8)

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