Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Julho 2005 - nº 80 - Ano VII


Sumário

Festança

Festas com sereno
Ademar Vidal

Cucumbis
Manuel Querino

O kerb
Carlos de Souza Morais

Cancioneiro

A greve dos bichos
Zé Vicente

Romance do Antoninho ou do menino que matou o pavão do professor
Rossini Tavares de Lima

A vida dos seringueiros
Francisco Castro de Brito

Imaginário

O geribu e o parafuso
José Paulino

Campeonato de jejum

Cobra sabida
Walter Spalding

Colher de Pau

Três pratos a base de charque
Antonio Augusto Fagundes

Mar Pequeno tem receitas que são tradição há meio século

Adendo sobre boas maneiras à mesa

Oficina

Velas brancas
Gustavo Barroso

Os fazedores de balaio
A. Seixas Netto

Tinguijada
Saul Martins

Palhoça

O cigarro de palha e o mineiro
Alberto Deodato

A cobra no folclore gaúcho
Antônio Augusto Fagundes

Por causa de vosmincê
Hildegardes Vianna

Panacéia

Um escapulário
Múcio Leão

Meizinhas do sertão
Eduardo Campos

Os remédios difíceis
Flávio Piza

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Campeonato de jejum

O jabuti é famoso por sua longa resistência à falta de alimento. Conta-se que, se acaso na mata lhe cai sobre a carapaça uma árvore muito grande, ele se resigna: fica imóvel até que a árvore apodreça. Então, safa-se e vai procurar ganhar a vida. Esta lenda, dos índios da Amazônia, baseia-se nessa resistência e mostra-nos que os índios sabiam que os ananases levam dois anos para amadurecer, assim como as frutas do taperebazeiro só aparecem de dois em dois anos.

Um dia estava o jabuti muito satisfeito tocando sua flauta de canela de onça quando chegou o gambá para desafiá-lo ao jejum: qual deles resistiria por mais tempo? O jabuti aceitou. O prazo mínimo seria de dois anos. O gambá fechou o jabuti dentro de um buraco e se foi. Passado um ano, voltou.

— Olá, jabuti.

— Olá, gambá! As frutas do taperebá já amarelaram?

— Ainda não, jabuti. Os taperebazeiros ainda estão em flor.

O gambá se foi e voltou passado mais um ano, quando as frutas do taperebazeiro já estavam maduras e havia muitas pelo chão. Aí, o jabuti deixou o buraco e o gambá entrou. O jabuti fechou-o ali e se foi. Passado um ano, voltou.

— Olá, gambá!

— Olá, jabuti! Os ananases já estão amarelos?

— Ainda não, gambá. Estão pequenos e verdes.

O jabuti se foi e coltou um ano depois, quando os ananases estavão amarelos.

— Olá, gambá!

Mas ninguém respondeu. O jabuti tornou a perguntar. Silêncio. Entrou no buraco e encontrou o gambá morto, esturricado, ressequido. O jabuti puxou-o para fora:

— Esse diabo morreu! Eu sabia, gambá, que você não era gente para se medir comigo.

("Campeonato de jejum". Folha de São Paulo. São Paulo, 20 de maio de 1966)
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