A constribuição do imigrante germânico para o enriquecimento de nosso folclore foi apreciável. Embora transcorrida mais de um século de sua instalação entre nós, ainda não se apreciou seu valioso concurso. As canções que trouxera da terra natal e que lhe relembravam a tátria distante e o reanimavam na faina hercúlea para a conquista do novo habitat, as festividades, os usos e costumes que lhe marcavam a origem e amenizavam, ao mesmo tempo, as agruras e a rudeza que lhe impunha a adaptação, representam, sem dúvida, série preciosa de elementos culturais que viria a incorporar ao nosso acervo folclórico.
Entre as práticas que tiveram larga repercussão na região colonial através de mais de cem anos e que constituiu como ainda constitui o principal motivo de reunião e divertimento, a par da cultuação de tradição cara, destaca-se o kerb ou kirchwein, que, na Alemanha, se festejava por ocasião do aniversário da igreja, ou do dia onomástico de padrieiro da paróquia, durante três dias.
Nos primeiros tempos, o kerb realizava-se ainda que o dia consagrado ocorresse em meio da semana. Mais tarde, por conveniência da faina rural, que exigia do colono mais dias de trabalho, ou para permitir que o domingo, dia santificado e de missa, marcasse o término ou início dessa tradicional festividade, — o kerb começava sexta-feira e se prolongava até domingo, ou se iniciava neste dia e se encerrava terça-feira. Este costume vem sendo observado, salvante raríssimas exceções. Na vila de Dois Irmãos, sede do quarto distrito de São Leopoldo e onde se procura assinalar a realização do primeiro kerb do Rio Grande do Sul, os descendentes procuraram observar, até há pouco tempo, o hábito de inaugurar a festa no dia do padroeiro, ainda que não coincidisse com aqueles.
Para esses dias de divertimento, em que o colono recordava todas as tradições d'além-mar, desde as canções que lhe embalaram a infância e o acompanharam na puberdade e adolescência até as práticas alimentares, preparava-se, desde cedo, economizando durante meses com sua família, para os grandes dias em que revia velhos compatriotas, dispersos por toda a região colonial, e procurava esquecer as fases tormentosas de luta na mata, e no amanho diuturno da terra. E não se importava de gastar todas as suas economias, amealhadas avaramente, porque neses dias de intensa alegria se retemperava para continuar seu destino de fazer progredir o Rio Grande e conseguir sua própria independência econômica.
Mas não eram apenas os bailes nos salões improvisados nas casas comerciais, que se transformavam em bailantes por três dias e onde crepitava dia e noite o fogopara assar o leitão, a carne de boi e os frangos, como para cozinhar a lingüiça, a batatinha e outros pratos, que faziam a delícia dos circunstantes e a fartura admirável daqueles instantes que assinalavam o kerb. Era também da tradição recepcionar, em sua casa, os parentes, os amigos, que, de longe, a pé, a cavalo, ou transportando-se em carroções ou carretas de serviço, acorriam para festejar, juntos, no mais íntimo contato, a festa tradicional. E então, transformava-se a casa em hospedaria, ocupando-se até galpões e paióis, a fim de acolher todos quantos apareciam, e paralisava-se quase todo o trabalho rural, para preparar as cucas, os doces, o queijo, a kaaschmier, o aquerkraut, as conservas de pepino, rabanete e couve, afora outras iguarias.
Nessas ocasiões, a mesa se repetia, para poder-se atender ao elevado número de pessoas, como se observa ainda em nossos dias, se bem que em menor escala, sem razão do encarecimento da vida, que já não permite a fartura doutros tempos. Só as famílias mais abastadas podem dar-se àquele luxo. Todavia a família colonial, ainda que menos remediada, não deixa de realizar, em sua residência, festa, ciosa de receber os parentes, os amigos e oferecer-lhes tudo quanto pode fazer para a tradicional recepção. E em todas elas, — as casas costruídas há muitos anos, — notam-se, ainda, os enormes bancos e mesas, em madeira de louro e que reuniam a prole numerosa, já em descréscimo, nos últimos tempos. E aí se recorda, hoje, os bons tempos, em torno da velha mesa, festejando os dias de kerb embora mais modestamente.
O colono sente-se magoado, nessa fase em que cultua o passado, quando não é visitado pelos parentes e amigos. Considera-se, por vezes, até ofendido.
E, por certo, o vinho, que, nos primeiros tempos, se fazia de laranja, e a cerveja, que se começou a fabricar desde o início da colonização, não faltavam e nem podiam deixar de faltar na casa de quem trouxera o hábito de ingerir álcool.
Como um aviso de que haveria festa, baile, comilança que se realizaria kerb, colocava-se defronte ao prédio em que se efetuaria a solenidade, um pinheiro enfeitado de papéis de cor e que se denominava kerbaun, e no interior do salão de danças, pendente do teto, uma coroa engalanada de ramos de árvores e com fitas de papel ou de tecido de seda, a que se dava o nome de kerbkrantz (coroa do kerb). Esses atos efetuavam-se com banda de música, para maior animação e propaganda.
No centro e na parte de baixo da coroa, dependurava-se uma garrafa de cerveja, enfeitada e que era leiloada — como se pratica ainda, mais raramente, em certas localidades — na segunda noite do kerb.
O leilão resumia-se em pagar cerveja e não em dar dinheiro. O que conseguia a garrafa pagava uma, duas ou mais dúzias e até caixas de cerveja, as quais eram abertas no balcão para todos os presentes. Outros participantes repetiam o ato, mandando servir mais cervejas, o que renovava a libação, que se prolongava pela madrugada e recomeçava na noite seguinte, até findar os dias de kerb. E tal era o consumo de bebida — o que se observa nos dias correntes em determinadas localidades — que o balcão e a parte do assoalho ficavam alagados. E ninguém ficava de copo vazio. Às vezes, nem se chegava a consumir toda a cerveja contida no copo, e este era substituído por outro cheio, pois que os ofertantes eram muitos e todos eles desejavam que os presentes se servissem da bebida que pagara. E isto era numa constante que concorria para despertar a mais desbragada alegria, que provocava cantorias e brigas, pelos motivos mais fúteis.
Em certos salões, no recesso da colônia, não se abandonou de todo esse hábito, a despeito do encarecimento da cerveja. É que o colono não se importa de gastar nessas ocasiões, que representam para ele algo que transcende as dificuldades da vida presente.
A festa do kerb começa na igreja, donde, após a missa, partem os assistentes com a banda de música até ao salão de baile. Aí chegados, dançam algumas marcas e se retiram, para voltarem às 14 horas, quando, então, se inicia o baile, que geralmente se prolonga até ao clarear do dia e recomeça à tarde, pelas mesmas horas.
A mesa de refeições, nas bailantes e nos salões improvisados, é farta e se repete indefinidamente, tal o número de pessoas presentes. E quando já não há mais comida, depois da meia-noite, serve-se frustuck, que se resume no café com cuca, pão, bolob, carne de porco, lingüiça cozida ou aferventada e chucrute.
Antigamente, nos intervalos da música, entoavam-se canções em alemão. Depois das duas guerras mundiais, foi desaparecendo esse tradicional hábito.
O colono prepara-se com a mlehor indumentária para as festas do kerb. É quando se submete ao sacrifício de usar sapatos. As crianças também participam dos bailes e as mulheres com filhos ao colo não perdem as festividades e, lá ficam toda a noite. E de quando em quando arriscam também a dançar, enquanto as filhas mais velhas ou pessoas amigas zelam pelos nenês. É que o kerb é a festa máxma da colônia, a que ninguém falta. Por isto, é pitoresco nesses dias, encontrarem-se pelas estradas e picadas, famílias inteiras, a pé, de sapatos pela mão, em demanda dos salões de baile, ainda que com mau tempo.
Os músicos — prática que está quase desaparecida — nos intervalos dos bailes, visitam, incorporados, as casas próximas à bailante, para ali tocarem e serem recepcionados com iguarias e bebidas, ou receberem dinheiro. Esta norma, em regra, verifica-se no terceiro e último dia de kerb, com o propósito de chamar a atenção de todos para o término da grande e memorável festa.
O segundo dia de kerb, conhecido pela "noite dos velhos", é dedicado aos casados. E era obrigação moral, já em desuso, de o convidado dançar com a parenta que estivesse presente ao baile. E se não o fazia, atraía a desafeição da que se julgava ofendida. E maior era a desconsideração se o convidado acolhido que fora em casa de amigo, não dançasse com a esposa deste.
Além do kerb, há também a festividade conhecida por nachkerb, considerado kerb secundário e que se realiza após duas ou três semanas deste. Trata-se de festa civil e de um dia só. Não é festa religiosa, como o kerb.
Atualmente, pratica-se o nachkerb durante dois e até três dias, com finalidade beneficente, como a quermesse, ou comercial, cobrando-se ingresso.
A imagem Festa do Kerb: baile popular das colônias alemães no sul do Brasil, 1892, que ilustra este artigo é de autoria de Pedro Weingärtner e pertence à Coleção Sérgio Sahione Fadel (Rio de Janeiro RJ). Gentilmente cedida pelo Projeto Fontes da História da Arte no Brasil www.artedata.com/fhab