No interior do Nordeste as mulheres do povo andam com a cabeça coberta com pano branco. Em geral elas procuram vestir-se de encarnado ou pano com fortes traços vermelhos. Essa cor é estimada e deve ter a sua explicação, pois os cariri, costumavam revestir-se ou lambuzar-se de óleo assim colorido, dizendo-se hoje que o gosto vinha do isolamento dos raios solares. O corpo ficava imune de sofrer queimaduras. O encarnado tem tamanha significação regional que serve para designar a existência de muita coisa. Por exemplo: quando cobre uma rede com gente morta dentro já se sabe que este "desapareceu" por faca ou bala; festa com bandeiras terá forçosamente de ostentar aquela cor como principal — chama a atenção e é, como se diz comumente a "cor preferida pelo homem", enquanto a mulher aprecia o azul; nos "cordões" o encarnado, figura como uma força afirmativa que tem muito da masculinidade, chegando a ficar meio-ridículo o sujeito que abraçar a cor verde, azul ou cor de rosa. A preponderância do vermelho se mostra visível. Entre Natal e Reis se costuma dançar o congo e o bumba-meu-boi, as pastoras, os caboclinhos e lapinhas, a Nau Catarineta, o maracatu, tantos outros folguedos populares que enchem a vida nordestina. Em todos esses autos a cor encarnada pode ser vista com larga margem de superioridade sobre as demais, as roupas dos figurantes ostentam-na em fitas, flores e tecidos, por igual ocorrendo com o ambiente pintado ou cheio de lanternas.
Por ocasião da temporada de lapinha, as pastoras se reduzem a duas fitas distintas, uma do cordão azul, outra do cordão encarnado. Este sempre é o mais poderoso, nele se ajustando arruaceiros ou brigões, personagens de prestígio social — e já desta forma não sucede com o outro, e azul que arrebanha mulheres e um pessoalzinho fraco. Se acontece porém, as forças se igualarem o resultado não discute, pode ser esperado como certo; o cipó-pão terá de roncar, ficando muita cabeça largada e, no fragor da luta até a polícia também apanha. O negócio apaixona. Dos autos populares acima indicados apenas a lapinha, consegue reunir tanto entusiasmo entre os adversários dos cordões azul e encarnado. Rua com este nome se encontra facilmente por onde se anda. Desde que estamos falando também sobre o assunto relacionado congo e caboclinho, preponderância do vermelho sobre as outras cores, os comentários podem ser entendidos e, pois, houve no Nordeste um folguedo conhecido por "tirar os Reis" que se praticava freqüentemente no Ceará. Famílias inteiras saiam à rua: rapazes e moças, ao som de orquestras, iam estacionar em frente das casas de amigos dizendo em solfa apropriada a quadra seguinte:
Aqui estou em vossa porta
Em figura de raposa
Não vos venho pedir nada
Mas o dar é grande coisa.
Esta visita com "pedido" ao senão "tirar os Reis", era feita às dez horas da noite e, então os salões se escancaravam, bebidas e bolos eram servidos em profusão. Era festa divertida. Lugar onde ela se realizava ninguém mais podia dormir. Nesses tempos, pelos fins do século XIX, os jovens jogavam a bola, bem feita de palha de milho e foi exatamente nos começos do atual futebol começou a entrar. Na Paraíba, o primeiro campo onde se jogou foi na Cruz do Peixe, agora praça da Indepêndencia, fazendo-se o possível para o association não falhar em suas regras. Começou havendo muita briga de cacete. E ainda hoje permanece o costume, tanto assim que, em Campina Grande, os meninos vendem seus tabuleiros cheios de armas brancas apregoando: "faquinhas, para depois do jogo". Aliás, não é só no Nordeste que se nota a particularidade de encontros furiosos, sangrentos mesmo, entre os adeptos do futebol. Por todo o país se estende a preocupação. Rara a partida que não termina em desavenças. Foi-se época em que se jogava o João Galamarte sem se conhecer senão reciprocidade de gentilezas. A cabra-cega é outro jogo que não morreu totalmente como também a onça, academia e a ponga, o fico — coisa de gente grande, enquanto as crianças se entregavam aos quatros cantos, ao tempo-será, brincar de esconder, o manjim-manjão, jogos de castanha, de carretéis sem linha, pedras miúdas, a gerada, o pé de parede. As meninas se divertiam com "já condessa", a ciranda ou a "senhora dona Sacha coberto de ouro e prata", tirar sorte, berlinda, o anel — tudo isso constituía jogos domésticos muito usados.
Ainda agora sobrevivem tais formas de divertimentos. A dança era, todavia, o brinquedo preferido. Onde havia dança, correndo a notícia de que um salão estava aberto, o povo corria para lá aglomerando-se, fazendo o "sereno". Nada mais interessante do que se assistir um espetáculo desse gênero. A orquestra procura esmerar-se, não tocando em falsa nota nenhuma, pois que, do contágio, estrugem as gargalhadas e os ditos se dirigem diretamente num sentido de ofensa. "Cangueiro", ouve-se o grito. Senão "vai fazer renda" ou "vem tomar chanana". Naturalmente que, no começo da festa, as disposições se mostram tolerantes, mas depois, diante das vaias ou constantes pilhérias diretas que se tornam por vezes grosseiras, a complicação não tarda a manifestar-se com solidariedade generalizada. De dentro de casa partem diretas respostas a provocações: "estúpido" ou "com inveja porque está do lado de fora" ou "aí é o seu lugar, vagabundo". Alguém traz a sua contribuição para ajudar o companheiro da orquestra, soltando uma palavra nos termos mencionados e, em revide, ouve-se a expressão "chaleiro" ou "jambeiro". Neste provocamento a coisa começa a esquentar. As moças vêm para a varanda ou janelas, ouvem palavras amáveis, fingem não gostar, porém algumas riem e estabelecem até conversa com personagens do "sereno". Algum namorado. No meio da sala aparece o tipo de sujeito conhecido nas rodas da rapaziada, recebendo logo a flechada: "penetra", ou "estás tirando a barriga da miséria hein?". Se vai tirar seu par para a dança, recebe a alfinetada de "enxerido" e, sendo recusado, então leva uma vaia danada.
O antagonismo entre os que se acham tomando parte na festa e o pessoal do "sereno" aumenta de intensidade a cada instante que passa. Também o palavrões não tardam a surgir. O dono da casa fica amolado ou se vê na contingência de tomar as suas providências. Aquilo não pode continuar. Desaforo. Tem as filhas donzelas e, no seu terreiro, ninguém acima dele, é o senhor absoluto que precisa manter a ordem e o respeito. De repente surge na varanda para pedir silêncio: "não admito que procurem desmoralizar o baile". Passeia os olhos pela assistência que enche, a rua, prosseguindo: "Estou aqui, estão ouvindo?" O silêncio domina o ambiente. E o "orador" espera alguma resposta que ninguém pronuncia. Fica em atitude arrogante toma fôlego, fumando e em exposição, até que uma vozinha fina se ouve distante. "hoje tem espetáculo?" Outra responde: "tem, sim senhor?". Arrebenta a gargalhada geral com assovios e ditos desencontrados. Sente-se o dono da casa inteiramente desmoralizado perante o "sereno", quer reagir, vocifera, mas ninguém o leva a sério. A zuada é alegremente comunicativa. Todos tomam parte nesse folguedo, porquanto o "sereno" não tem outra significação, acontecendo que muita gente com ele se anima, deixando a sala de dança para participar dos ridículos e maliciosos apartes que a multidão costuma glosar passagens provocadas pela "musga" ou pelos participantes da dança. Por sua vez o dono da festa também desce a escada para tomar satisfação pessoal. Fica na calçada a dizer: "Apareça alguém para sustentar o que ouvi". Claro que ninguém aparece, permanecendo o quadro por longos instantes e, cansado de aguardar uma qualquer manisfestação, o homem volta para dentro da casa, enquanto que, exatamente neste momento a zombaria entra a fazer-se em grande assuada. A vaia não é deste mundo.
Raro registrar-se conflito em "sereno" porque este se caracteriza pela permanente representação de ridículo em forma de crítica aos que estão tomando parte nas danças domésticas. Nas cidades nordestinas, havia tanto gosto pelo "sereno" que os grupos viviam alertas para não perder oportunidade no comparecimentos em massa, formando aglomerações e de todos os lados, como requeria técnica, vinham os ditos proferidos em tom de mexerico. A política seguida por muitos donos de casa era convidar quem quisesse entrar com o fim de assim conseguir ausência de vaia ou discussões dentro para fora da sala onde se dançava. Outros preferiam enfrentar a situação e, nestas condições, o conflito era procurado, porém não facilmente conseguido, desde que a briga jamais foi o objetivo dessas reuniões alegres, concorridas e, em muitos casos famosas. No Recife, o "sereno" tomou proporções enormes para a participação dos estudantes, a polícia pelo meio, grandes conseqüências — e isto já neste século, porque no passado ele tinha o caráter lírico das brincadeiras sem conseqüência. Na Paraíba ele nunca deixou de ter esse folclórico aspecto. E o hábito ficou, permanecendo até os dias atuais no Nordeste, onde a notícia de um baile arrasta verdadeira multidão de assistentes, comentando e falando alto, dizendo suas lerias nem sempre leves. O "sereno" apenas perdeu aquele sentido de discussão entre os que se achavam na rua e os que tomavam parte nas danças.