I
Eu vou narrar uma história
Espero boa atenção
É dos pobres seringueiros
Que vive neste sertão
Passando muitas agruras
Nesta triste solidão
II
Eu também fui destes tais
Que vivi constantemente
Trabalhando nestas matas
Sem achar conveniente
Porém cumprindo com a sorte
Dada pelo onipotente
III
A seringa é um trabalho
Somente de ilusão
Trabalha-se o ano inteiro
Sem se pegar um tostão
Só se pega na borracha
Para levar ao patrão
IV
Quando chega o fim do ano
O freguês de olhos fundos
Sem ter nome nem dinheiro
Somente seu traje imundo
Uma calça de boca larga
Com duas riatas no fundo
V
Os seringueiros é uma classe
Sem menor reputação
Mesmo ele tendo um parente
Que viva em boa posição
Se afasta e nega a parte
Se alguém faz interrogação
VI
Quando chega no domingo
Ele vai ao barracão
Levar sua borrachinha
Fazer sua aviação
Muitas vezes treme de medo
Da carranca do patrão
VII
Põe a pela na balança
Empregado vai pesar
Tira quatro ou cinco quilos
Mexendo pra lá e pra cá
Aí diz deu tantos quilos
O patrão diz venha-se aviar
VIII
O patrão diz: seu menino
Qual a sua aviação?
— Quero um quilo de açúcar
Uma quarta de café
Uma lâmina de gilete
Um cachimbo pra muié
E uma barra de sabão
IX
Ele diz: vou reduzir
Você está muito atrasado
Com a doença que tivesse
No mês próximo passado
A sua borracha foi pouca
E o verão está findado
X
O freguês fica tão triste
Mas o jeito é conformar
Põe o saquinho nas costas
E cuida em se arretirar
Pra cedo chegar em casa
Para cuidar em pescar
XI
Pega o caniço e a linha
Vai para o rio pescar
Quando pega um surubim
É caso de admirar
Só falta fazer a festa
De alegria no lar
XII
Carapanã e pium
Faz a gente ficar louca
Penetra pelos ouvidos
E nos nariz e na boca
...
XIII
Chega em casa às nove horas
Às dez horas vai jantar
Dez e meia vai dormir
Com sentido em acordar
Pra de novo duas hora
E a estrada cortar
XIV
Quando o relógio desperta
O seringueiro se alerta
Levanta, faz o café
Toma um pouco com farinha
Põe um pouco na latinha
Dá até logo pra mulher
XV
Aí se larga nas matas
Nos maiores tremedal
Rompendo muitos espinhos
Também grande cipoal
O patrão fica dormindo
E amanhece sorrindo
Dizendo ele foi aos paus
XVI
Quando chega em novembro
Que começa o chuveiro
O freguês entra na mata
Só se ver o aguaceiro
E também gritos de sapo
E de pássaro agoureiro
XVII
É triste a vida dos pobres
Que vivem neste sertão
Quando sai a mata é escura
Logo se ouve um trovão
Quando se olha para cima
Só se vê os nevoeiros
XVIII
As rolas dão um gemido
De arrepiar os cabelos
As cigarras gritam tanto
Com um tão grande zunido
Faz tão grande confusão
Que faz doer os ouvidos
XIX
À tarde ele chega em casa
Com a roupinha rasgada
E quase dando agonia
Vem trespassado de fome
Pois foi só a farinhazinha
Que comeu naquele dia
XX
Este verso que escrevi
Se não quiser acreditar
Pegue em Manaus um navio
Que vá para o Juruá
Lá fale colocação
Com qualquer dos patrão
Pegue a faca e vá cortar
F I M