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Guilherme Santos Neves
Número sagrado por excelência, o sete está presente no mundo das crendices em
todas as partes do universo. Para onde se estiram as pontas da rosa-dos-ventos,
na Europa ou na América, na Ásia, na África, em todos os quadrantes e em todos
os meridianos do mundo, o homem — branco ou preto, amarelo ou vermelho, bárbaro
ou civilizado — teme ou respeita esse mágico número sete.
Não poderia ele faltar na colméia de crendices do povo capixaba, como poderá
ver destas breves amostras, colhidas todas da nossa tradição oral, e constantes,
da mesma forma, no folclore de outros recantos do Brasil e do mundo.
O gato tem sete fôlegos ou sete vidas. Por isso, quem mata um gato tem de
matar mais sete (deveria ser: tem de matar mais seis, mas não é...). E ai de
quem mata gato: terá sete anos de atraso.
Criança que morre sem batizar, sete anos depois ouve-se ela chorar.
O recém-nascido, a quem se der de presente um sapatinho vermelho, deve usá-lo
no sétimo dia de nascido, senão ficará com o lado todo roxo.
Guardar espelho quebrado atrasa sete anos.
Espelho quebrado, sete anos de atraso (ou azar).
Durante o correr da quinta-feira santa é preciso visitar sete igrejas.
Quem tem sete filhos em seguida, se forem meninos, o último vira lobisomem;
se meninas, a última vira bruxa (ou pata).
Esta velha superstição é conhecida em outros pontos do Espírito Santo. Em São
Mateus, por exemplo, o filho ou filha que vira lobisomem ou pata não é quem
nasceu por último, mas o mais velho, ou a mais velha. Há, porém, um jeito de não
ocorrer a tremenda transformação: é o menino ou menina batizar o recém-nascido.
Também se diz que das sete filhas encarreiradas, a primeira vira bruxa.
A crendice do lobisomem é generalizada no Brasil. Mestre Câmara Cascudo em
seu amplamente informativo Dicionário do folclore brasileiro (Rio de
Janeiro, 1954, p.359) escreve a respeito dessa transformação: "liga-se com o
número que a astrologia acádia ou caldáica tornou fatídico — o número sete. O
lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhos". (Diferente
na nossa crendice, com relação à seqüência, mas igual com relação à constância
do número sete).
Lá para o sul a crença coincide com a que por aqui ocorre: em Santa Catarina
— afirma-nos Valter Piazza, "O lobisomem", Boletim trimestral da Comissão
Catarinense de Folclore, nº 12, Florianópolis, 1952, p.41) — "se nascerem,
consecutivamente, numa família, sete filhos varões, o último deverá ser chamado
Bento, ao contrário ficará lobisomem".
E em São Paulo — segundo registro de Amadeu Amaral (Tradições populares,
São Paulo, 1948, p.382) — acreditam os nossos matutos que se uma mulher dá à luz
sete filhos do sexo masculino, sem que o nascimento de uma menina venha
interromper, o sétimo rebento está condenado a ser lobisomem quando atingira a
idade adulta".
Quanto à transformação da menina em bruxa, veja-se o que nos conta Ruth
Guimarães, em seu curioso livro Os filhos do medo (Porto Alegre, 1950,
p.130): "Certa mulher, mãe de sete filhas, notou que uma delas entrava em casa
altas horas as sextas-feiras. fechou a porta a chave e ela entrava assim mesmo.
Então colocou uma taramela na porta e ela não entrou porque a taramela
atravessada contra o batente forma uma cruz. Então a mulher ficou sabendo que a
filha era bruxa..."
A velha crença nos veio de Portugal — como quase todo o nosso tesouro
folclórico. Na Revista lusitana (v.17, Lisboa, 1914, p.47), A. C. Pires
de Lima inclui, entre as Tradições populares de Santo Tirso, esta: "Tendo
uma mãe sete filhas a seguir, a primeira tem de ser madrinha da sétima, se não
esta vai correr o fado". E, recentemente, Maria Emília de Castro e Almeida, em
comunicação pública nas Atas do Colóquio de Estudos Etnográficos Dr. José
Leite de Vasconcelos (v.1, Porto, 1959, p.286) — também insere a crendice,
ouvida no conselho de Barcelos: "quando ocorrer o nascimento de sete rapazes ou
sete raparigas sucessivamente no mesmo lar (...) é obrigatório dar ao sétimo
filho o nome de Adão, se for rapaz, ou de Eva, se for rapariga, caso contrário
terão de correr o fado". E prossegue: "As pessoas que, por qualquer motivo, têm
de correr o fado, a certas horas da noite transformam-se em animais andando por
montes e vales". E, depois, referindo superstições da Estremadura e das Beiras:
"o sétimo rapaz ou a sétima rapariga de um casal é lobisomem, bruxo ou bruxa".
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