Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Panacéia
....................................
Figas, por Fortunée Levi

O baralho como símbolo amoroso, por José Jambo da Costa

Folclore capixaba: Crendices do número sete, por Guilherme Santos Neves
....................................

Capa
....................................
Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Oficina
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Folclore capixaba: Crendices do número sete

Guilherme Santos Neves

Número sagrado por excelência, o sete está presente no mundo das crendices em todas as partes do universo. Para onde se estiram as pontas da rosa-dos-ventos, na Europa ou na América, na Ásia, na África, em todos os quadrantes e em todos os meridianos do mundo, o homem — branco ou preto, amarelo ou vermelho, bárbaro ou civilizado — teme ou respeita esse mágico número sete.

Não poderia ele faltar na colméia de crendices do povo capixaba, como poderá ver destas breves amostras, colhidas todas da nossa tradição oral, e constantes, da mesma forma, no folclore de outros recantos do Brasil e do mundo.

O gato tem sete fôlegos ou sete vidas. Por isso, quem mata um gato tem de matar mais sete (deveria ser: tem de matar mais seis, mas não é...). E ai de quem mata gato: terá sete anos de atraso.

Criança que morre sem batizar, sete anos depois ouve-se ela chorar.

O recém-nascido, a quem se der de presente um sapatinho vermelho, deve usá-lo no sétimo dia de nascido, senão ficará com o lado todo roxo.

Guardar espelho quebrado atrasa sete anos.

Espelho quebrado, sete anos de atraso (ou azar).

Durante o correr da quinta-feira santa é preciso visitar sete igrejas.

Quem tem sete filhos em seguida, se forem meninos, o último vira lobisomem; se meninas, a última vira bruxa (ou pata).

Esta velha superstição é conhecida em outros pontos do Espírito Santo. Em São Mateus, por exemplo, o filho ou filha que vira lobisomem ou pata não é quem nasceu por último, mas o mais velho, ou a mais velha. Há, porém, um jeito de não ocorrer a tremenda transformação: é o menino ou menina batizar o recém-nascido. Também se diz que das sete filhas encarreiradas, a primeira vira bruxa.

A crendice do lobisomem é generalizada no Brasil. Mestre Câmara Cascudo em seu amplamente informativo Dicionário do folclore brasileiro (Rio de Janeiro, 1954, p.359) escreve a respeito dessa transformação: "liga-se com o número que a astrologia acádia ou caldáica tornou fatídico — o número sete. O lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhos". (Diferente na nossa crendice, com relação à seqüência, mas igual com relação à constância do número sete).

Lá para o sul a crença coincide com a que por aqui ocorre: em Santa Catarina — afirma-nos Valter Piazza, "O lobisomem", Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore, nº 12, Florianópolis, 1952, p.41) — "se nascerem, consecutivamente, numa família, sete filhos varões, o último deverá ser chamado Bento, ao contrário ficará lobisomem".

E em São Paulo — segundo registro de Amadeu Amaral (Tradições populares, São Paulo, 1948, p.382) — acreditam os nossos matutos que se uma mulher dá à luz sete filhos do sexo masculino, sem que o nascimento de uma menina venha interromper, o sétimo rebento está condenado a ser lobisomem quando atingira a idade adulta".

Quanto à transformação da menina em bruxa, veja-se o que nos conta Ruth Guimarães, em seu curioso livro Os filhos do medo (Porto Alegre, 1950, p.130): "Certa mulher, mãe de sete filhas, notou que uma delas entrava em casa altas horas as sextas-feiras. fechou a porta a chave e ela entrava assim mesmo. Então colocou uma taramela na porta e ela não entrou porque a taramela atravessada contra o batente forma uma cruz. Então a mulher ficou sabendo que a filha era bruxa..."

A velha crença nos veio de Portugal — como quase todo o nosso tesouro folclórico. Na Revista lusitana (v.17, Lisboa, 1914, p.47), A. C. Pires de Lima inclui, entre as Tradições populares de Santo Tirso, esta: "Tendo uma mãe sete filhas a seguir, a primeira tem de ser madrinha da sétima, se não esta vai correr o fado". E, recentemente, Maria Emília de Castro e Almeida, em comunicação pública nas Atas do Colóquio de Estudos Etnográficos Dr. José Leite de Vasconcelos (v.1, Porto, 1959, p.286) — também insere a crendice, ouvida no conselho de Barcelos: "quando ocorrer o nascimento de sete rapazes ou sete raparigas sucessivamente no mesmo lar (...) é obrigatório dar ao sétimo filho o nome de Adão, se for rapaz, ou de Eva, se for rapariga, caso contrário terão de correr o fado". E prossegue: "As pessoas que, por qualquer motivo, têm de correr o fado, a certas horas da noite transformam-se em animais andando por montes e vales". E, depois, referindo superstições da Estremadura e das Beiras: "o sétimo rapaz ou a sétima rapariga de um casal é lobisomem, bruxo ou bruxa".

(Neves, Guilherme Santos. "Crendices do número sete". A Gazeta. Vitória, 18 de julho de 1960)