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José Jambo da Costa
As cartomantes procuram revelar através das cartas do baralho, dispostas de
maneira particular sobre a mesa, o presente, o passado e o futuro das pessoas.
Usam, geralmente, baralho especiais, em cujas cartas aparecem desenhos
policrômicos, representando um veleiro em alto-mar, uma raposa devorando uma
pomba, abutres, túmulo, a par de outros símbolos que seria fastidioso enumerar.
A sorte da pessoa pode ser lida também, no baralho comum de jogo, onde se
afigura maior arte das cartomantes.
Já o nosso muxuango usa o baralho comum com outra simbolização, exclusivamente
amorosa ou religiosa, em seus torneios poéticos. E lê ao seu modo, de acordo com
a excitação mental, através das cartas e, às vezes, até de naipes. Não creio
porém, poder-se filiar o raconto do Baralho de Ricardo ou Ricarte aos dois que
transcrevo adiante, recolhidos no estado do Rio de Janeiro e de caráter
essencialmente amoroso. Acho mesmo duvidosa qualquer ascendência para essa
enfiadas de versos que pude surpreender em minha terra, tão nossas me parecem.
Além disso, nada conheço que se lhes aproxime. No castelhano, existe, sim, um
velho cantar em que o baralho aparece num jogo de amor, mas não em caráter
exclusivamente simbólico. É a canção de Rodrigo Dávalos, recolhida por Juan
Fernandez de Constantina e divulgada no seu Cancionero, Madri, 1914, sob o nº
57, que, aqui vai, para afastar qualquer dúvida:
Aunque com pena mortal,
Los naypes bien barajando.
Saruare, dama especial,
Si ai remedio de mi mal
Os podré ganar, dudando
Que com suerte tan perdida
Casar pueda
Quien mas de perder la vida
No le queda
Não vejo qualquer ponte para determinar uma filiação entre os cantares
fluminenses e este ibérico. Próximo deste último está, sem dúvida, o cantar nº
92 do Cancionero popular de Salta, de Juan Alfonso Carrizo, versão que,
também, nem um só ponto apresenta de comum com as que passo a divulgar:
Meu baralho
Morena, neste baralho
Está toda a confissão
do amor da minha vida:
Quando diz — sim, e diz — não,
Me fala o ás que eu sou seu único,
Diz o dois — eu e você,
Três — não tarda o vosso filho
Quatro diz não sei o que.
Cinco é os meses de noivado,
Seis os dias de trabalho,
Sete quer dizer domingo,
O oito eu ponho no baralho.
Nove é a mãe grande dor
Nosso filho vai nascer,
Dez serão dias de festa
Com sanfona e "di-comê".
A dama é você, querida.
Que há de ser minha rainha
O conde é o nosso filho
Quando você for velhinha.
Rei é Deus, lá, nas alturas
Que abençoa o nosso amor,
Pai da gente, pai dos pobres,
Pai das águas e da flor.
Quando parto o meu baralho
E só me sai cartas de ouro,
Sei que o ano é de fartura,
A colheita é um tesouro.
Quando parto o meu baralho
E me sai cartas de pau,
Sei que terá derrubada.
Muita seca, um ano mau.
Quando parto o meu baralho
E me sai cartas de espada,
Vamos ter guerra no estranja
Briga por "leição" passada.
Quando parto o meu baralho
E me sai copas na frente
Vamos ter muita alegria,
Ventura pra toda gente.
Note-se a referência, na penúltima quadra, último verso, às eleições, com suas
brigas e ódios, tão nosso!
Mais viva, graciosa, de maior expressividade é esta outra:
O que diz o baralho, morena
Corta o baralho, morena,
Pra ver o que a sorte dá;
Bate espadas? Bate copas?
Meu futuro qual será?
Corta o baralho, morena
Pra ver o que a sorte dá!
Eis um valete de espadas...
Quem é esse militar?
Cuidado! se tu me enganar
Sou capaz de te matar!
Corta o baralho, morena
Pra ver o que a sorte dá!
Agora esse reis de copas...
Essa barba, esse trajar...
Morena, quem é o velho
Que assim vive a te rondar?
Corta o baralho, morena
Pra ver o que a sorte dá!
Vejo, aqui, o naipe de ouro,
Dinheiro a gente terá,
Vou comprar uma fazenda
De bois e jacarandá!
Corta o baralho, morena
Pra ver o que a sorte dá!
Vivas! a dama de espada!
Não se deixe cazuzar,
Que ela foi por mim marcada
É tu mesma em bom trajar.
Corta o baralho morena
Pra ver o que a sorte dá!
Novo conde, mas de paus,
No que teu Chico vem dar
Boa roupas, dinheirama,
Teu amor, bonito lar.
Deixa o baralho, morena
Tenho tudo o que Deus dá.
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