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Adão Carrazoni
O futebol, apesar de sua origem alienígena, é — pode se dizer — embora sua
implantação no Brasil date dos princípios deste século, o esporte brasileiro por
excelência, ou melhor, o esporte da preferência dos brasileiros de todos os
quadrantes do país.
E que o futebol está arraigado de tal modo na sociedade brasileira, dizem-nos,
melhor do que nós, uns destrambelhados "Conselhos de Saúde", do SNES:
"A paixão absorvente do jogo, que arrasta muitas crianças e adolescentes, na
época presente, é tão fanática que domina por completo todos os campos do
pensamento.
É uma verdadeira mania o tal futebol. Toma-se café com futebol... Almoça-se
futebol... Janta-se futebol. Entra-se no bonde... a conversa é futebol.
Em casa, futebol. Na rua, futebol. No teatro, futebol. Nas livrarias, futebol.
Nas repartições públicas, futebol. Nas escolas, futebol. Nas academias, futebol.
Em toda a parte, futebol. Na boca de todos os jovens andam o Vasco, o Fla-Flu, o
Madureira. Cortam o espaço os nomes famosos... Perácio, Leônidas, Domingos.
A mocidade não pensa mais. Discute futebol. Nas praias, futebol. Em frente de casa, perturbando o silêncio dos moradores, partidas
terríveis de futebol. Nada mais interessa, é só futebol! Nada diminui a paixão
do futebol. Nem as luxações, as fraturas, as contusões, as escoriações, as
pernas cortadas, as orelhas arrancadas, os olhos vazados... Nada. A mocidade
deixa-se alucinar pelo futebol".
É evidente que toda essa ira despejada contra o esporte preferido pelo
brasileiro não tem finalidade construtiva, nada mais sendo que o escapamento de
algum velho recalque que habita nos corações daqueles seres mesquinhos que estão
muito longe de compreender toda a beleza, toda a elegância varonil, toda a
máscula força do esporte.
Por isso, feliz daquele que vê no esporte e principalmente no futebol, um meio
de aprimoramento da raça, de aproximação de um povo, e não um alvo para
descarregar recalques mesquinhos de pobres molambos físicos e intelectuais.
Mas, cabe aqui entrar no assunto deste rodapé, deixando de lado os "inimigos do
esporte". Dissemos, de início, que o futebol, embora de implantação recente no
Brasil, é já o esporte nacional. De fato, assimilando o associativo britânico, o
Brasil enriqueceu-o com o espírito de improvisação de sua gente, onde está
presente a malícia que foge das rígidas formas de marcação e métodos importados.
A contribuição do negro deu maior calor ao futebol, mais "sangue" mais
vitalidade e mais interesse, enfim, às disputas futebolísticas.
Estando, pois, como está, arraigado já nos hábitos do povo brasileiro, deve o
futebol provocar manifestações espontâneas de aplausos da massa heterogênea e
anônima que acorre aos gramados para incentivar seus craques. Esses aplausos se
intensificam, se multiplicam, se espalham, vivem depois fora dos gramados e são
motivos de criações poéticas e manifestações outras de autores anônimos. Entram
enfim, para o domínio vasto do folclore. E, como em nossa terra se está, agora,
cuidando com acendrado amor das pesquisas folclóricas, não de maneira
dispersiva, mas com um acurado senso, pensei reunir algo que contribuísse —
embora fracamente — para o estudo do futebol no populário nacional.
Eis, aqui, minha primeira despretenciosa contribuição no gênero à dinâmica
Comissão Estadual de Folclore, que tem em Dante de Laitano seu grande animador.
Baile na roça
Quando o certame estadual de futebol, em 1944, o Esporte Clube Internacional,
desta capital enfrentando o Grêmio Esportivo Bagé, da "Rainha da Fronteira", foi
inesperadamente derrotado por um escore convincente: 3x1.
Logo após o inesperado triunfo dos bageenses, circularam na bela cidade
fronteiriça, sob o título Baile na roça, as interessantes quadrinhas cantando
o feito brilhante dos locais:
Baile na roça
Orquestra: Don Henrique y sus muchachos
A torcida alvoroçada,
Aguarda o tal Ba-Nal.
Disputa entre os provincianos
E os campeões da capital.
No jornal pareceria
Uma luta desigual;
No campo "virou-se a taba",
Que vitória colossal!!...
A torcida da cidade,
Quando grita, quem agüenta!!
Viu mover-se onze fantoches,
Com fantasia de "penta".
O tal "Rolo Compressor"
Dizem.. "joga até demais",
É puro cartaz barato
Propaganda de jornais.
Afinal saiu do "cocho"
O "penta" capitalino,
Apagou-se a sua estrela
Sumiu-se o "pobre divino".
Os colorados diziam:
— Essa partida é "barbada".
Após foram convidados
Para o baile da indiada.
Às três e quarenta e cinco,
Deu-se início ao tal fandango.
E o professor don Henrique,
Mandou que tocasse um tango.
Tupan, grande "bailarino"
Caco Velho "cascoteado"
Convidou para essa dança
O mocinhoa de seu lado.
— Não danças, Abigail?
— Não quero, seu songa-monga
— Não queres... Verás agora
Como é que se baila a "conga".
Entraram também no baile,
Alfeu, Tesourinha e Nena,
De tanto "rodar na volta"
Ficaram que dava pena...
Adãozinho se esforçava,
Pra causar boa impressão;
Mas bailou... Bailou sozinho,
Um polca de salão.
Muito bem representada
A rapaizada do "penta"
Bailou até altas horas
Porém, "em câmera lenta".
Moçada da capital
(Não é por desprestigiar).
Na roça também se baila,
E que baile sabem dar...
Antes de fechar a porta,
Deste salão de bailados,
Ouviu-se um "abelha" aos brados
Repetir todo enfezado:
— "Rolo" forte em "pedra-moura"
Tanto dá — até que estoura".
Um baile no subúrbio
Mas, lá diz o velho brocardo popular, que "quem ri por último, ri melhor"... e
os colorados de Porto Alegre, um domingo após, derrotaram fragorasamente, nesta
capital, os jade-negrinos bageenses por 6x0 no tempo regulamentar e, na
prorrogação, por 3x0!...
Assim puderam os porto-alegrenses retribuir o Baile na roça, publicando na
primeira edição de um vespertino local (23/10/44), Um baile no subúrbio,
também de autor ignorado:
Com Cavedine e seu Regional
Muito silêncio, moçada!
— Abra a gaita, seu Valério.
Vai entrar o grande grêmio
"Bailante do Necrotério"
Os bailarinos gremistas
Ficaram de lombo torto,
Pois todos sem exceção
São "marginais" do desporto
A torcida colorada
Pergunta cheia de fé
— Finalmente seu Teixeira
Que é que se joga em Bagé?
Seu Osmar.. é mar de golos.
E o Novas... pé de chuchu,
Bem Chô... mico o tal de Chico,
Rui...m o Garrastazzu.
Barradas não barra nada,
Hernandez nunca viu bola!
Tupã é tapa-buraco,
E o Bastião... não amola!
Heitor, general do team
Disse baixinho ao Bexiga,
"Esse rolo colorado"
Vai nos dar dor de barriga"
No centro, o César Tonar,
Fazia-se songa-monga
E o quadro todo dançava
Na cadência duma conga...
No fim do baile... não minto...
Disse o Joaquim, mui severo:
— "Se não me falha a memória
Anda a "coisa"em nove a zero"
Água mole em pedra dura
Tanto dá até que fura:
Desde ontem, pedra-moura
É tampa de sepultura...
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