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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Palhoça
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Antigos costumes sociais, por Ademar Vidal

O São Francisco — cenas e costumes do grande vale, por Eustáquio Duarte

O futebol no folclore, por Adão Carrazoni
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O São Francisco — cenas e costumes do grande vale

Eustáquio Duarte

O gaiola, pejado de gente e de carga, vai deixando Juazeiro nesta manhã sertaneja de muita luz, para cobrir mil e quatrocentos quilômetros de curso até Pirapora de Minas. Ao longe, na margem esquerda, o sol ainda baixo veste de festiva claridade as flechas góticas da catedral de Petrolina, e o rio parece tinto de ouro, de um ouro acobreado como o das nossas moedinhas novas de centavos.

O São Francisco se espreguiça no leito amplo e decomposto e para além das suas ribanceiras a vista alcança a extensão tabular dos campos nordestinos, com todo o seu complexo geo-botânico. Áreas de prados trabalhadas pelas mãos rudes dos matutos, campos de criação e de plantação, onde pasta o gado e cresce o milharal apontando espigas. Depois, fora do alcance das águas, de sua infiltração no solo úmido do vale, a terra é uma ilusão. Caatingas e carrascais, largos descampados de areia seca abarcam superfície física dos sertões. Por todos os quadrantes se estende o terreno primitivo, inarroteável. E nenhum relevo humano cobre essa faixa extensa de desolação.

Foi este o caminho líquido das bandeiras que de Minas Gerais e Bahia largaram, Brasil a dentro, pontilhado de núcleos de vida o chão virgem e áspero do interior. Durante três séculos o São Francisco foi roteiro, serviu de via de acesso e comunicação, desempenhando o seu papel histórico na formação da nacionalidade. Durante três séculos cresceram populações às suas margens, e dos primitivos currais fizeram-se florescentes cidades ribeirinhas, algumas delas hoje veneráveis, pela antigüidade e riqueza em tradições.

Sento-Sé, Remanso, Pilão Arcado, Chique-Chique, Barra. O gaiola vai pousando em todas elas, nos seus dias de subida pelo grande curso, ora navegando à margem direita, ora à esquerda, ora ao centro, ora em diagonais para evitar os baixios, as coroas, os ilhéus, as corredeiras; enquanto a vasta corrente líquida divaga aqui e ali, no remanso das grandes curvas, alargando-se em baías. Bom Jardim, Urubu, Bom Jesus da Lapa, Carinhanha, Morrinhos, Januária, São Francisco, São Romão. Dezenas de vilas, povoações e portos subsidiários do grande rio e ligados ao seu destino, contam-se no longo trajeto até Pirapora.

Um enxame de embarcações: navios, alvarengas, pontões, barcaças de vela, de remo, de vara, jangadas, canoas e pirogas povoam a superfície d'água cinzenta, num tráfico incessante. Todo um grande comércio aqui se faz, na dependência do vale e de suas fontes de produção. O rio é o soberano único. Ainda primitivo, não se deixou absorver pelas cidades que lhe crescem às margens, não permitiu que lhe artificializassem, que o moldassem à condição servil de ornamento urbano. Rebelde ao esforço humano de dominação e deformação, o São Francisco não conheceu ainda as grandes armações de cais de concreto que brutalizam as águas, nem as pontes que a humilham e subjugam. As rampas de pedra ou as estacadas que bordam o seu curso nos centros povoados são lances insignificantes, discretos, e não constrangem a livre correnteza que se alarga ou estreita à vontade, ao sabor das enchentes e das vazantes.

Por isso, os sertanejos sagazes apelidaram o São Francisco de rio vagabundo. Não teria ele encontrado, ainda, o seu definitivo leito. E a cada enchente, ei-lo a saltar fora dos limites de suas barrancas, espraiando-se após corrosões, destruindo ilhas aqui, levantando ilhas acolá, cavando caminhos novos, sulcando canais profundos por onde, antes, o campo era verde e núcleos de vida marginais floresciam.

Esta é Aquidabã, uma das mil barcas que fazem a pequena cabotagem do São Francisco. Mastro nu, massame arriado e frouxo, o velame recolhido às retrancas, tangida ao impulso das varas vai ela vencer a corrente prenhe e tarda. Sob a cobertura de palha seca trinta toneladas de carga orientam o seu destino. Essa outra é a Mãe d'Água. Está cheia de romeiros humildes, devotos fiéis do Senhor Bom Jesus, no santuário da Lapa. Vejam as suas figuras de proa, esculpidas em madeira. Elas evocam toda uma teogonia.

Nos tempos remotos em que o São Francisco era ainda o Pará dos tupis, a mãe d'água do fundo das águas costumava atrair as frágeis pirogas de nativos incautos. Todos os povos primitivos tiveram ou têm a sua lendária mãe d'água: a sereia dos brancos, a iara dos índios, a Iemanjá dos negros. O rio guarda sobrevivência desses mitos; e aquelas afugentadoras cabeças de proa de variados aspectos antropo e zoomorfos, lembram os tempos distantes em que, sem tais premonições, seria impossível vadear-se o rio a salvo da mãe d'água. Cada pescador, cada barcaceiro do São Francisco conhece a sua história.

Os homens do rio são cristãos devotos fervorosos do Bom Jesus e penitentes crônicos do santuário da Lapa. Suas embarcações, nas viagens de subida e descida, se abeiram muitas vezes das vilas marginais para que sejam cumpridos unicamente, mandamentos de fé. Elas não passam indiferentes ante as capelinhas centenárias que do alto das colinas dominam o rio, atestando a força cristã da pacífica população do vale. A cada etapa ei-los contritos, ou quase em êxtase, diante das singelas casinhas de Deus. Mas forças reconditas, até então irremovíveis, trazem esses homens subjugados à potência de outros cultos. Este sincretismo é necessário ao misticismo dos caboclos do vale. E eles vivem felizes, despreocupados, compondo um curioso cenário humano, guarda fiel das nossas tradições mais originais e mais típicas.

(Duarte, Eustáquio. "O São Francisco; cenas e costumes do grande vale". Diário de Minas. Belo Horizonte, 02 de novembro de 1952)