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Eustáquio Duarte
O gaiola, pejado de gente e de carga, vai deixando Juazeiro nesta manhã
sertaneja de muita luz, para cobrir mil e quatrocentos quilômetros de curso até
Pirapora de Minas. Ao longe, na margem esquerda, o sol ainda baixo veste de
festiva claridade as flechas góticas da catedral de Petrolina, e o rio parece
tinto de ouro, de um ouro acobreado como o das nossas moedinhas novas de
centavos.
O São Francisco se espreguiça no leito amplo e decomposto e para além das
suas ribanceiras a vista alcança a extensão tabular dos campos nordestinos, com
todo o seu complexo geo-botânico. Áreas de prados trabalhadas pelas mãos rudes
dos matutos, campos de criação e de plantação, onde pasta o gado e cresce o
milharal apontando espigas. Depois, fora do alcance das águas, de sua
infiltração no solo úmido do vale, a terra é uma ilusão. Caatingas e carrascais,
largos descampados de areia seca abarcam superfície física dos sertões. Por
todos os quadrantes se estende o terreno primitivo, inarroteável. E nenhum
relevo humano cobre essa faixa extensa de desolação.
Foi este o caminho líquido das bandeiras que de Minas Gerais e Bahia
largaram, Brasil a dentro, pontilhado de núcleos de vida o chão virgem e áspero
do interior. Durante três séculos o São Francisco foi roteiro, serviu de via de
acesso e comunicação, desempenhando o seu papel histórico na formação da
nacionalidade. Durante três séculos cresceram populações às suas margens, e dos
primitivos currais fizeram-se florescentes cidades ribeirinhas, algumas delas
hoje veneráveis, pela antigüidade e riqueza em tradições.
Sento-Sé, Remanso, Pilão Arcado, Chique-Chique, Barra. O gaiola vai pousando
em todas elas, nos seus dias de subida pelo grande curso, ora navegando à margem
direita, ora à esquerda, ora ao centro, ora em diagonais para evitar os baixios,
as coroas, os ilhéus, as corredeiras; enquanto a vasta corrente líquida divaga
aqui e ali, no remanso das grandes curvas, alargando-se em baías. Bom Jardim,
Urubu, Bom Jesus da Lapa, Carinhanha, Morrinhos, Januária, São Francisco, São
Romão. Dezenas de vilas, povoações e portos subsidiários do grande rio e ligados
ao seu destino, contam-se no longo trajeto até Pirapora.
Um enxame de embarcações: navios, alvarengas, pontões, barcaças de vela, de
remo, de vara, jangadas, canoas e pirogas povoam a superfície d'água cinzenta,
num tráfico incessante. Todo um grande comércio aqui se faz, na dependência do
vale e de suas fontes de produção. O rio é o soberano único. Ainda primitivo,
não se deixou absorver pelas cidades que lhe crescem às margens, não permitiu
que lhe artificializassem, que o moldassem à condição servil de ornamento
urbano. Rebelde ao esforço humano de dominação e deformação, o São Francisco não
conheceu ainda as grandes armações de cais de concreto que brutalizam as águas,
nem as pontes que a humilham e subjugam. As rampas de pedra ou as estacadas que
bordam o seu curso nos centros povoados são lances insignificantes, discretos, e
não constrangem a livre correnteza que se alarga ou estreita à vontade, ao sabor
das enchentes e das vazantes.
Por isso, os sertanejos sagazes apelidaram o São Francisco de rio vagabundo.
Não teria ele encontrado, ainda, o seu definitivo leito. E a cada enchente,
ei-lo a saltar fora dos limites de suas barrancas, espraiando-se após corrosões,
destruindo ilhas aqui, levantando ilhas acolá, cavando caminhos novos, sulcando
canais profundos por onde, antes, o campo era verde e núcleos de vida marginais
floresciam.
Esta é Aquidabã, uma das mil barcas que fazem a pequena cabotagem do
São Francisco. Mastro nu, massame arriado e frouxo, o velame recolhido às
retrancas, tangida ao impulso das varas vai ela vencer a corrente prenhe e
tarda. Sob a cobertura de palha seca trinta toneladas de carga orientam o seu
destino. Essa outra é a Mãe d'Água. Está cheia de romeiros humildes,
devotos fiéis do Senhor Bom Jesus, no santuário da Lapa. Vejam as suas figuras
de proa, esculpidas em madeira. Elas evocam toda uma teogonia.
Nos tempos remotos em que o São Francisco era ainda o Pará dos tupis, a mãe
d'água do fundo das águas costumava atrair as frágeis pirogas de nativos
incautos. Todos os povos primitivos tiveram ou têm a sua lendária mãe d'água: a
sereia dos brancos, a iara dos índios, a Iemanjá dos negros. O rio guarda
sobrevivência desses mitos; e aquelas afugentadoras cabeças de proa de variados
aspectos antropo e zoomorfos, lembram os tempos distantes em que, sem tais
premonições, seria impossível vadear-se o rio a salvo da mãe d'água. Cada
pescador, cada barcaceiro do São Francisco conhece a sua história.
Os homens do rio são cristãos devotos fervorosos do Bom Jesus e penitentes
crônicos do santuário da Lapa. Suas embarcações, nas viagens de subida e
descida, se abeiram muitas vezes das vilas marginais para que sejam cumpridos
unicamente, mandamentos de fé. Elas não passam indiferentes ante as capelinhas
centenárias que do alto das colinas dominam o rio, atestando a força cristã da
pacífica população do vale. A cada etapa ei-los contritos, ou quase em êxtase,
diante das singelas casinhas de Deus. Mas forças reconditas, até então
irremovíveis, trazem esses homens subjugados à potência de outros cultos. Este
sincretismo é necessário ao misticismo dos caboclos do vale. E eles vivem
felizes, despreocupados, compondo um curioso cenário humano, guarda fiel das
nossas tradições mais originais e mais típicas.
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