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Osvaldo Lamartine de Faria
Rastejar, é quase certeza ter sido um dos primeiros verbos que os nossos
antepassados colonizadores aprendeream a soletrar, até mesmo por carecimento de
sobrevivência. Rastejar tem sido uma constante das populações primitivas que
pouco a pouco vai se diluindo com a artificialização do homem.
O sertanejo seridoense, pela significação de uma vida mais achegada à terra
é, mais das vezes, em grau de mestre ou de aprendiz, capaz de "tirar um rasto".
Mestre como o velho Possidônio Avelino da Costa, morador na Serra Padre
(Acari, RN), que lá pelas idas eras de quarenta, rastejou por toda uma noite de
lua pelo lombo da Serra do Bico até Gargalheiras — os cabras que haviam
assaltado seu vizinho — o velho Claudino Gogó. Mestre como o negro Olinto Inácio
(1892-1946), vaqueiro por muitos anos na ribeira do Camaragibe (Fazenda Lagoa
Nova, São Paulo do Potengi, RN), que nos confidenciava: "a gente dessa
terra, tanto faz eu olhá a cara como o rasto..." Ou ainda como o mestre Correia
(Severiano Correia de Medeiros), que cortou umbigo na fazenda São Bernardo
(Caicó, RN) e durante muitos anos de sua vida viveu de emprestar cascavel e
jararaca com os fazendeiros da redondeza, cobrando Cr$ 5,00 por maracá (guizo)
de cascavel e Cr$ 2,50 por cabeça de jararaca que tirava dos pastos — conferidas
todas as semanas, atadas em um cordão a moda rosário... Morreu de uma "ferroada"
de cascavel, quando desmanchada uma cerca de pedra na mesma fazenda em que veio
ao mundo. Contam que na seca de 1942-1944, couro de cobra deu dinheiro o que
levou mestre Correia a pagar o rasto de cobra-de-veado, variando o preço com a
largura do mesmo...
Perspicazes observadores, nada lhes escapa ao olhar. Aqui é uma pequena pedra
revirada da "cama" — ali um aimperceptível depressão no solo ou um graveto
partido; adiante, os pêlos do animal que ficaram presos aos galhos das plantas.
Quando o chão não lhes oferece indícios, apelam para os matos — rastejar no
ar, observando os pontos de atrito dos ramos que, com a passagem da caça,
mudam o contato.
A polícia, na perseguição dos criminosos, sempre que pode, apela para a
experiência dos rastejadores. Sabedores disso os malfeitores tudo fazem para os
desnortear: saltam de pedra em pedra pelos lajedos, escolhem chão mais duro onde
pisar, andam sobre trechos de cercas e até chegam a utilizar alpercatas cujos
saltos são pregados na frente. O rastejador não esmorece pelo desaparecimento
repentino dos sinais. esbarra, imagina a intenção do outro, esmiuça o chão, os
matos e as pedras e, se nada encontra — corta o rasto, isto é, descreve
círculos crescentes pelos arredores até a retomada da pista.
Os estudiosos, em diferentes épocas e lugares, têm registrado, atônitos, as
façanhas desse tipo popular. Luís da Câmara Cascudo relata, em uma de suas
Acta Diurna, o caso do fazendeiro que guardava as patas do seu antigo cavalo
de campo e, um dia, para cofundir seu velho vaqueiro e maior rastejador — mandou
calcá-las no chão do roçado, e pediu ao compadre para identificar o animal que
estava estragando a sua lavoura. O vaqueiro, depois de espiar cuidadosamente o
"rasto", lamentou-se, junto ao patrão, da idade e caduquice que o faziam
acreditar serem marcas feitas pela alma do cavalo fulano... Henry Koster (Viagem
ao Nordeste do Brasil) surpreendeu-se diante de Feliciano a rastejar um
tatu-bola pela "relva e folhas secas". Gustavo Barroso testemunhou nos sertões
do Ceará e registrou em Terra de sol:
"Uma manhã, estava sentado à porta quando chegou um vaqueiro perguntando
notícias de um animal sumido. Antes que ele dissesse que casta de bicho
procurava, o velho indagou:
— Será uma besta torta do olho direito, castanha escura, de saia comprida?
O outro respondeu afirmativamente. Ergueu-se, deu as indicações do lugar onde
ela pastava.
Então, perguntei-lhe se tinha visto a besta. Disse-me que não, porém andando
a cavalo muito cedo, de madrugada, pela várzea, vira rastos de um animal de
fora. Sabia que era uma égua, porque não pisara na urina, que era cega do olho
direito, porque a pastagem da vereda só estava comida do lado esquerdo, que
tinha o rabo comprido, porque deixara dois fios agarrados às tiriricas
rasteiras, e esses fios eram castanho-escuros..."
Acreditamos que os escritos das diferentes terras retratam, nos quatro cantos
do mundo, os feitos dos seus rastejadores — já que eles representam um dia da
idade do homem. Da literatura de além mar, copiamos uma página de Zadig,
de Voltaire, onde as conclusões em torno do rasto deixado pela cachorrinha de S.
M., muito se assemelham às chegadas pelo velho vaqueiro dos sertões cearenses:
"...Vi então sobre a areia, pegadas de um animal que reconheci facilmente
serem de um cachorrinho. Sulcos leves e compridos, impressos sobre pequenas
eminências da areia, entre o rastro das patas, me levaram a concluir que se
tratava de uma cadela, cujas mamas estavam caídas e que, portanto, ela devia ter
dado à luz recentemente. Outros rastros, em sentido diferente, que pareciam
sempre ter alisado a superfície da areia ao lado das patas dianteiras, me
revelaram que tinha orelhas muito compridas. E como notei que a areia estava
sempre menos cavada por uma pata do que pelas outras três, deduzi que a cadela
da nossa augusta soberana estava — com o devido respeito — capengando um pouco."
Dentre os casos de rastejadores enumerados pelos estudiosos dos costumes
regionais, o mais expressivo — embora mesclado de cores um tanto lendárias —
parece ser o fixado por J. M. Cardoso de Oliveira (Dois metros e cinco):
"...o Pinga-Pinga se alevantou cedo, ainda c'o escuro, saiu na estrada assim
que viu claridade, olhou os rastos como fazia todo o dia pra saber quem tinha
passado, voltou pra casa e disse à mãe aterrado:
— Saberá vosmecê que a alma do Cassiano passou aqui esta noite calçada com os
chinelos de seu coroné Mariano!
A velha espiou espantada; pensou que o rapaz estava maluco ou entonce
enfeitçado de caipora, e respondeu por aqui assim:
— Deixa de enzonice, meu filho, vai te deitar! A mode que você não está
regulando, ou bebeu demais! Cassiano há seis ano morreu em Mato Grosso, Deus
Nosso Sinhô lhe dê o céu. A avó, a mãe, tudo botou luto. E o coroné Mariano
também desde o ano passado foi descansar de tanta labutação que teve em vida,
coitado! Como haverá de vir passar em nossa porta?
— Não estou variando não, minha mãe. Cassiano passou por aqui esta noite ou
entonce foi o tinhoso com as artes dele pra mode atentar a gente! Espere aí,
deixe-me ver outra vez.
Saiu, olhou bem o rasto e entrou pra dentro:
— Não vorto atrás, minha mãe, foi o Cassiano mesmo, que andava cambaio e o
chinelo é de seu coroné Mariano. Me dá um gole de café que, com a ajuda de Deus,
vou tirar este negócio a limpo.
Dito e feito, seu doutor. Tomou o café, pegou no bacamarte e saiu seguindo o
rasto até a beira de uma lagoa rasa. O cabra fraejou tudo e foi apanhar o rasto
do outro lado, em riba de uma cerca que a alma pulou; foi seguindo, foi
seguindo, e quando menos esperava... Voute, deu um pulo assombrado! Que diante
dele estava o Cassiano mesmo, abrindo os braços para o abraçar. O Pinga-Pinga
encomendou-se a Deus Nosso Sinhô, ficou frio, fechou os olhos e pingou suor que
molhou o chão onde ele estava. Cassiano gritou:
— T'arreconheço, menino. Que é isso gente?
Chegou junto dele e sacudiu-o forte.
— Abre os olhos que eu não sou nenhum bicho! Sou o Cassiano mesmo, vivo e
bulindo. Não morri, não, como vocês pensavam. Fiquei esquecido naquele mundão de
Mato Grosso e agora estou por aqui de novo, meu velho. Mas, já não sei andar;
quando me apresentei ontem em casa de seu coroné Mariano, a viúva teve um susto
que quase caiu como você agora.
— Não sou alma não, sinhá dona, arrespondi, sou gente de carne e osso e venho
lhe pedir um sapato velho pra tirar o resto das estradas até às "Abóboras", que
já perdi o costume de andar e não tenho mais pés pra queimar caminho como antes.
Foi ela entonce que me deu estes chinelos velhos do coroné, que bom arranjo me
fizeram."
Conta Sarmiento (Facundo), lá da chã que se perde de vista dos Pampas,
as façanhas da impressionante figura de Calibar, o rastejador:
"O rastreador é um personagem grave, circunspecto, cujas asseverações fazem
fé nos tribunais inferiores. A consciência que possui do seu saber lhe dá certa
dignidade reservada e misteriosa. Todos o tratam com consideração: o pobre
porque lhe pode molestar, caluniando-o ou denunciando-o; o proprietário, porque
pode falhar o seu testemunho. Houve um roubo durante a noite; mal o descobrem,
correm em busca da pegada do ladrão e, encontrada, cobrem-na para que o vento
não a apague.
Chama-se em seguida o rastreador, que vê o rastro e o segue sem fitar o chão
senão de longe em longe, como se seus olhos vissem em relevo essa marca que para
os outros é imperceptível. Segue o curso das ruas, atravessa hortos, entra numa
casa, e assinalando um homem que encontra diz friamente: "É este!" O delito está
provado, e é raro o delinqüente que resiste a essa acusação. Para ele, mais que
para o juiz, o depoimento do rastreador é a evidência mesma; negá-la seria
ridículo, absurdo. Submete-se, pois, a essa testemunha, que considera como o
dedo de Deus, que o assinala. Eu mesmo conheci Calibar, que exerceu numa
província o seu ofício durante quarenta anos consecutivos. Tem agora cerca de
oitenta; encurvado pela idade, conserva, sem embargo, um aspecto venerável e
digno. Quando lhe falam da sua reputação, fabulosa, contesta: "Já não valho
nada; aí estão os meninos". Os meninos são seus filhos, que aprenderam na escola
de tão famoso mestre. Conta-se dele que, durante uma viagem a Buenos Aires, lhe
roubaram uma vez seus arreios de gala. Sua mulher tapou o rastro. Dois meses
depois, Calibar regressou, viu o rastro já apagado e imperceptível a outros
olhos, e não falou mais no caso. Ano e meio mais tarde, Calibar caminhava,
cabisbaixo, por uma rua dos subúrbios, penetra numa casa, e encontra seus
arreios, enegrecidos e quase inutilizados pelo uso. Havia encontrado o ladrão
depois de dois anos!
No ano de 1830 um réu, condenado à morte, escapara do cárcere. Calibar foi
incumbido de procurá-lo.
O infeliz, prevendo que seria rastreado, tomara todas as precauções que a
imagem do cadafalso lhe sugeria. Precauções inúteis! Serviram talvez para
perdê-lo mais depressa; porque Calibar comprometido na sua reputação, o amor
próprio ofendido, quis desempenhar com valor uma tarefa que perdia um homem, mas
que provava a sua vista maravilhosa. O prófugo aproveitava todos os acidentes do
terreno para não deixar sinais; marchava quadras inteiras pisando com as pontas
dos pés; trepava em seguida nos muros baixos, cruzava um sítio, voltava atrás.
Calibar o seguia sem perder de vista; se lhe sucedia momentaneamente
extraviar-se, ao encontrar de novo a pegada exclamava: "Onde querias ir?!" Ao
fim chegou a um fio d'água, nos subúrbios, cuja corrente o ladrão seguira para
burlar o rastreador. Inútil. Calibar ia pelas margens, sem inquietação e sem
vacilar. Súbito detêm-se, examina uma erva e diz:
— Saiu por aqui; não há rastro, mas essas gotas d'água no pasto o indicam!
Entra numa vinha; Calibar reconhece as cercas que a rodeiam e diz:
— Está aqui.
O grupo de soldados cansou-se de procurar e voltou para dar conta da
inutilidade das pesquisas.
— Não saiu —, foi a breve resposta que, sem se mover e sem proceder a novo
exame, deu o rastreador.
Não havia saído, com efeito, e no dia imediato, foi executado."
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