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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Oficina
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Ver-o-Peso, onde pulsa o coração de Belém, por Nelson Pantoja

Vendedores de aviõezinhos, por Maria Rita da Silva Lubatti

Rastejadores, por Osvaldo Lamartine de Faria
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


Rastejadores

Osvaldo Lamartine de Faria

Rastejar, é quase certeza ter sido um dos primeiros verbos que os nossos antepassados colonizadores aprendeream a soletrar, até mesmo por carecimento de sobrevivência. Rastejar tem sido uma constante das populações primitivas que pouco a pouco vai se diluindo com a artificialização do homem.

O sertanejo seridoense, pela significação de uma vida mais achegada à terra é, mais das vezes, em grau de mestre ou de aprendiz, capaz de "tirar um rasto".

Mestre como o velho Possidônio Avelino da Costa, morador na Serra Padre (Acari, RN), que lá pelas idas eras de quarenta, rastejou por toda uma noite de lua pelo lombo da Serra do Bico até Gargalheiras — os cabras que haviam assaltado seu vizinho — o velho Claudino Gogó. Mestre como o negro Olinto Inácio (1892-1946), vaqueiro por muitos anos na ribeira do Camaragibe (Fazenda Lagoa Nova, São Paulo do Potengi, RN), que nos confidenciava: "a gente dessa terra, tanto faz eu olhá a cara como o rasto..." Ou ainda como o mestre Correia (Severiano Correia de Medeiros), que cortou umbigo na fazenda São Bernardo (Caicó, RN) e durante muitos anos de sua vida viveu de emprestar cascavel e jararaca com os fazendeiros da redondeza, cobrando Cr$ 5,00 por maracá (guizo) de cascavel e Cr$ 2,50 por cabeça de jararaca que tirava dos pastos — conferidas todas as semanas, atadas em um cordão a moda rosário... Morreu de uma "ferroada" de cascavel, quando desmanchada uma cerca de pedra na mesma fazenda em que veio ao mundo. Contam que na seca de 1942-1944, couro de cobra deu dinheiro o que levou mestre Correia a pagar o rasto de cobra-de-veado, variando o preço com a largura do mesmo...

Perspicazes observadores, nada lhes escapa ao olhar. Aqui é uma pequena pedra revirada da "cama" — ali um aimperceptível depressão no solo ou um graveto partido; adiante, os pêlos do animal que ficaram presos aos galhos das plantas. Quando o chão não lhes oferece indícios, apelam para os matos — rastejar no ar, observando os pontos de atrito dos ramos que, com a passagem da caça, mudam o contato.

A polícia, na perseguição dos criminosos, sempre que pode, apela para a experiência dos rastejadores. Sabedores disso os malfeitores tudo fazem para os desnortear: saltam de pedra em pedra pelos lajedos, escolhem chão mais duro onde pisar, andam sobre trechos de cercas e até chegam a utilizar alpercatas cujos saltos são pregados na frente. O rastejador não esmorece pelo desaparecimento repentino dos sinais. esbarra, imagina a intenção do outro, esmiuça o chão, os matos e as pedras e, se nada encontra — corta o rasto, isto é, descreve círculos crescentes pelos arredores até a retomada da pista.

Os estudiosos, em diferentes épocas e lugares, têm registrado, atônitos, as façanhas desse tipo popular. Luís da Câmara Cascudo relata, em uma de suas Acta Diurna, o caso do fazendeiro que guardava as patas do seu antigo cavalo de campo e, um dia, para cofundir seu velho vaqueiro e maior rastejador — mandou calcá-las no chão do roçado, e pediu ao compadre para identificar o animal que estava estragando a sua lavoura. O vaqueiro, depois de espiar cuidadosamente o "rasto", lamentou-se, junto ao patrão, da idade e caduquice que o faziam acreditar serem marcas feitas pela alma do cavalo fulano... Henry Koster (Viagem ao Nordeste do Brasil) surpreendeu-se diante de Feliciano a rastejar um tatu-bola pela "relva e folhas secas". Gustavo Barroso testemunhou nos sertões do Ceará e registrou em Terra de sol:

"Uma manhã, estava sentado à porta quando chegou um vaqueiro perguntando notícias de um animal sumido. Antes que ele dissesse que casta de bicho procurava, o velho indagou:

— Será uma besta torta do olho direito, castanha escura, de saia comprida?

O outro respondeu afirmativamente. Ergueu-se, deu as indicações do lugar onde ela pastava.

Então, perguntei-lhe se tinha visto a besta. Disse-me que não, porém andando a cavalo muito cedo, de madrugada, pela várzea, vira rastos de um animal de fora. Sabia que era uma égua, porque não pisara na urina, que era cega do olho direito, porque a pastagem da vereda só estava comida do lado esquerdo, que tinha o rabo comprido, porque deixara dois fios agarrados às tiriricas rasteiras, e esses fios eram castanho-escuros..."

Acreditamos que os escritos das diferentes terras retratam, nos quatro cantos do mundo, os feitos dos seus rastejadores — já que eles representam um dia da idade do homem. Da literatura de além mar, copiamos uma página de Zadig, de Voltaire, onde as conclusões em torno do rasto deixado pela cachorrinha de S. M., muito se assemelham às chegadas pelo velho vaqueiro dos sertões cearenses:

"...Vi então sobre a areia, pegadas de um animal que reconheci facilmente serem de um cachorrinho. Sulcos leves e compridos, impressos sobre pequenas eminências da areia, entre o rastro das patas, me levaram a concluir que se tratava de uma cadela, cujas mamas estavam caídas e que, portanto, ela devia ter dado à luz recentemente. Outros rastros, em sentido diferente, que pareciam sempre ter alisado a superfície da areia ao lado das patas dianteiras, me revelaram que tinha orelhas muito compridas. E como notei que a areia estava sempre menos cavada por uma pata do que pelas outras três, deduzi que a cadela da nossa augusta soberana estava — com o devido respeito — capengando um pouco."

Dentre os casos de rastejadores enumerados pelos estudiosos dos costumes regionais, o mais expressivo — embora mesclado de cores um tanto lendárias — parece ser o fixado por J. M. Cardoso de Oliveira (Dois metros e cinco):

"...o Pinga-Pinga se alevantou cedo, ainda c'o escuro, saiu na estrada assim que viu claridade, olhou os rastos como fazia todo o dia pra saber quem tinha passado, voltou pra casa e disse à mãe aterrado:

— Saberá vosmecê que a alma do Cassiano passou aqui esta noite calçada com os chinelos de seu coroné Mariano!

A velha espiou espantada; pensou que o rapaz estava maluco ou entonce enfeitçado de caipora, e respondeu por aqui assim:

— Deixa de enzonice, meu filho, vai te deitar! A mode que você não está regulando, ou bebeu demais! Cassiano há seis ano morreu em Mato Grosso, Deus Nosso Sinhô lhe dê o céu. A avó, a mãe, tudo botou luto. E o coroné Mariano também desde o ano passado foi descansar de tanta labutação que teve em vida, coitado! Como haverá de vir passar em nossa porta?

— Não estou variando não, minha mãe. Cassiano passou por aqui esta noite ou entonce foi o tinhoso com as artes dele pra mode atentar a gente! Espere aí, deixe-me ver outra vez.

Saiu, olhou bem o rasto e entrou pra dentro:

— Não vorto atrás, minha mãe, foi o Cassiano mesmo, que andava cambaio e o chinelo é de seu coroné Mariano. Me dá um gole de café que, com a ajuda de Deus, vou tirar este negócio a limpo.

Dito e feito, seu doutor. Tomou o café, pegou no bacamarte e saiu seguindo o rasto até a beira de uma lagoa rasa. O cabra fraejou tudo e foi apanhar o rasto do outro lado, em riba de uma cerca que a alma pulou; foi seguindo, foi seguindo, e quando menos esperava... Voute, deu um pulo assombrado! Que diante dele estava o Cassiano mesmo, abrindo os braços para o abraçar. O Pinga-Pinga encomendou-se a Deus Nosso Sinhô, ficou frio, fechou os olhos e pingou suor que molhou o chão onde ele estava. Cassiano gritou:

— T'arreconheço, menino. Que é isso gente?

Chegou junto dele e sacudiu-o forte.

— Abre os olhos que eu não sou nenhum bicho! Sou o Cassiano mesmo, vivo e bulindo. Não morri, não, como vocês pensavam. Fiquei esquecido naquele mundão de Mato Grosso e agora estou por aqui de novo, meu velho. Mas, já não sei andar; quando me apresentei ontem em casa de seu coroné Mariano, a viúva teve um susto que quase caiu como você agora.

— Não sou alma não, sinhá dona, arrespondi, sou gente de carne e osso e venho lhe pedir um sapato velho pra tirar o resto das estradas até às "Abóboras", que já perdi o costume de andar e não tenho mais pés pra queimar caminho como antes. Foi ela entonce que me deu estes chinelos velhos do coroné, que bom arranjo me fizeram."

Conta Sarmiento (Facundo), lá da chã que se perde de vista dos Pampas, as façanhas da impressionante figura de Calibar, o rastejador:

"O rastreador é um personagem grave, circunspecto, cujas asseverações fazem fé nos tribunais inferiores. A consciência que possui do seu saber lhe dá certa dignidade reservada e misteriosa. Todos o tratam com consideração: o pobre porque lhe pode molestar, caluniando-o ou denunciando-o; o proprietário, porque pode falhar o seu testemunho. Houve um roubo durante a noite; mal o descobrem, correm em busca da pegada do ladrão e, encontrada, cobrem-na para que o vento não a apague.

Chama-se em seguida o rastreador, que vê o rastro e o segue sem fitar o chão senão de longe em longe, como se seus olhos vissem em relevo essa marca que para os outros é imperceptível. Segue o curso das ruas, atravessa hortos, entra numa casa, e assinalando um homem que encontra diz friamente: "É este!" O delito está provado, e é raro o delinqüente que resiste a essa acusação. Para ele, mais que para o juiz, o depoimento do rastreador é a evidência mesma; negá-la seria ridículo, absurdo. Submete-se, pois, a essa testemunha, que considera como o dedo de Deus, que o assinala. Eu mesmo conheci Calibar, que exerceu numa província o seu ofício durante quarenta anos consecutivos. Tem agora cerca de oitenta; encurvado pela idade, conserva, sem embargo, um aspecto venerável e digno. Quando lhe falam da sua reputação, fabulosa, contesta: "Já não valho nada; aí estão os meninos". Os meninos são seus filhos, que aprenderam na escola de tão famoso mestre. Conta-se dele que, durante uma viagem a Buenos Aires, lhe roubaram uma vez seus arreios de gala. Sua mulher tapou o rastro. Dois meses depois, Calibar regressou, viu o rastro já apagado e imperceptível a outros olhos, e não falou mais no caso. Ano e meio mais tarde, Calibar caminhava, cabisbaixo, por uma rua dos subúrbios, penetra numa casa, e encontra seus arreios, enegrecidos e quase inutilizados pelo uso. Havia encontrado o ladrão depois de dois anos!

No ano de 1830 um réu, condenado à morte, escapara do cárcere. Calibar foi incumbido de procurá-lo.

O infeliz, prevendo que seria rastreado, tomara todas as precauções que a imagem do cadafalso lhe sugeria. Precauções inúteis! Serviram talvez para perdê-lo mais depressa; porque Calibar comprometido na sua reputação, o amor próprio ofendido, quis desempenhar com valor uma tarefa que perdia um homem, mas que provava a sua vista maravilhosa. O prófugo aproveitava todos os acidentes do terreno para não deixar sinais; marchava quadras inteiras pisando com as pontas dos pés; trepava em seguida nos muros baixos, cruzava um sítio, voltava atrás. Calibar o seguia sem perder de vista; se lhe sucedia momentaneamente extraviar-se, ao encontrar de novo a pegada exclamava: "Onde querias ir?!" Ao fim chegou a um fio d'água, nos subúrbios, cuja corrente o ladrão seguira para burlar o rastreador. Inútil. Calibar ia pelas margens, sem inquietação e sem vacilar. Súbito detêm-se, examina uma erva e diz:

— Saiu por aqui; não há rastro, mas essas gotas d'água no pasto o indicam!

Entra numa vinha; Calibar reconhece as cercas que a rodeiam e diz:

— Está aqui.

O grupo de soldados cansou-se de procurar e voltou para dar conta da inutilidade das pesquisas.

— Não saiu —, foi a breve resposta que, sem se mover e sem proceder a novo exame, deu o rastreador.

Não havia saído, com efeito, e no dia imediato, foi executado."

(Faria, Osvaldo Lamartine de. A caça dos sertões do Seridó. Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola, 1961. Documentário da Vida Rural, 16, p.41-44)