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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Oficina
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Ver-o-Peso, onde pulsa o coração de Belém, por Nelson Pantoja

Vendedores de aviõezinhos, por Maria Rita da Silva Lubatti

Rastejadores, por Osvaldo Lamartine de Faria
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


Vendedores de aviõezinhos

Maria Rita da Silva Lubatti

Os homens que vendem aviõezinhos são na sua maioria cearenses. Todavia, há um japonês e uma família santista, vivendo quase exclusivamente da produção e venda de tal brinquedo.

Os aviõezinhos são confeccionados com lata, isopor, papel e pena de galinha. Os de lata foram introduzidos em São Paulo pelo cearense Antônio Félix Bezerra. Ele vive em Vila Guaianazes, SP, há mais de seis anos e diz que, nos primeiros tempos de sua chegada, tentou ganhar a vida trabalhando em fábrica, mas o salário que recebia não dava para sustentar a família. Pensou, então, em vender algumas bugigangas pelas ruas, para ganhar algum dinheiro extra. Lembrou-se de um compadre que possuía um molde de fazer aviõezinhos. Pensou no assunto, falou com a mulher, despediu-se da firma onde trabalhava e partiu à procura do compadre. Obteve o tal molde e iniciou atividade de artesão e vendedor ambulante. Hoje, além de fazer e vender aviõezinhos de lata, ensina aos conterrâneos que desejam ingressar no setor. Afirma haver, em São Paulo, somente ele e mais três homens que sabem confeccionar esse tipo de brinquedo.

Aviõezinhos de lata

Os aviõezinhos são feitos com lata que a esposa de Antônio Bezerra apanha nos terrenos baldios do bairro onde mora, além de um menino, que recebe cem cruzeiros por mês, para recolher latas vazias nas vizinhanças.

Antônio Félix considera que seus aviõezinhos não são tão bonitos como gostaria que fossem: "Não são bonitos, a senhora mesmo está vendo, não é? Mas eu aprendi fazer esses brinquedinhos sozinho. Bem, sozinho não, a verdade é que Adelaide, minha mulher, me ajuda muito. Ela até sabe fazer aviõezinhos, de tanto me ajudar. Então, o negócio é o seguinte: para fazer um avião desse tamanhozinho (nove centímetros de comprimento por oito de largura) é muito fácil. Precisa uma lata de óleo vazia, lavada e bem enxuta. Abro a lata com uma faca grossa e uso alicate e um martelo, para bater sobre a faca e para amassar as beiras da latas quando cortadas, e para entortar as pontas de arame que seguram as rodinhas de pneu e o rabinho de papelão.

É assim que faço os brinquedos. Outra coisa, dona, uma lata dá pra confeccionar até três negocinhos desse (aviões) e quando tenho tempo, faço uns cinqüenta por dia."

Resumindo, os aviõezinhos de Antônio e da Adelaide são confeccionados manualmente e em pequena quantidade. O material utilizado consiste em lata em desuso, arame fino, barbante e pedacinhos de pneu.

Aviõezinhos de isopor

Os aviõezinhos de isopor medem por volta de quarenta e oito centímetros de comprimento por quarenta de largura. Alguns trazem a bandeira do Brasil, estrelas e bolinhas coloridads. outros são brancos, sem desenho algum. Para fazê-los é necessário isopor e barbante.

O ambulante David Barreto costuma fazê-los à noite, quando retorna à casa, ou nos fins de semana, após haver percorrido parques e ruas, para vender o produto. A técnica usada é a seguinte: corta as parte do isopor com uma serra elétrica e em seguida faz a montagem. A bandeira do Brasil, as estrelas e as bolinhas são pintadas à mão.

Há uma rixa declarada entre os que trabalham com esse produto e os vendedores de aviõezinhos de lata. Os últimos falam que os de isopor e pena de galinha são feios e caros. Os primeiros alegam que os aviões de lata podem machucar as crianças. As brigas não visam defesa do produto, mas a conquista de mercado e, sobretudo, a anulação da concorrência.

É interessante que, mesmo havendo rixa, há respeito no que se refere ao ponto de venda de cada um. Antônio Bezerra vende os seus brinquedinhos no meio do Parque do Ipiranga. Os aviões de pena de galinha são expostos e vendidos à entrada do mesmo parque. No Parque do Ibirapuera, a área próxima a marquise é de um vendedor japonês; junto ao laguinho de aeromodelismo é o ponto do vendedor que trabalha com aviões de isopor.

Freguês

Os compradores de aviõezinhos são pessoas que freqüentam áreas de lazer, nos fins de semana e dias festivos. São provenientes das camada menos favorecidas.

Segundo alguns vendedores, as pessoas de baixa renda adquirem os brinquedinhos com admiração, entusiasmo e muita curiosidade. As de maior poder aquisitivo só compram os brinquedos quando os filhos insistem muito, mas, antes de adquiri-los, põem uma série de defeitos e se queixam do preço; procuram, de modo geral, persuadir as crianças a não comprar os brinquedos.

Na opinião dos vendedores, os pobres apreciam mais o trabalho simples do que os ricos. Dizem, com certa amargura, que a classe abastada é incapaz de valorizar um produto feito e comercializado por vendedores ambulantes, principalmente quando estes são nordestinos ou nortistas. No entender deles, os compradores os encaram como intrusos e embrulhões, enquanto, na verdade, eles só procuram ganhar o pão dos filhos, trabalhando honestamente.

Propaganda e venda

Os vendedores de aviõezinhos não costumam apregoar o produto; recorrem a meios promocionais muito expressivos, ricos de criatividade. Por exemplo, quem vende aviões de lata fica de pé no meio dos passeios públicos, com uma caixa a tiracolo, cheia de aviõezinhos. Gira, sem parar, por horas a fio, um bambu repleto de aviões coloridos. Antônio Bezerra explica que precisa manter o bambu cheio e girá-lo da direita para à esquerda com o braço bem esticado para cima, a fim de que emitam um zunido para atrair o interesse das crianças.

Há outro método de expor e vender aviões de lata, que deve ser mencionado. Trata-se de uma haste de madeira cheia de braços nosquais são colocados aviõezinhos coloridos e barulhentos, equidistantes uns dos outros.

A técnica para expor e vender aviõezinhos de isopor é diferente. Consiste em distender um barbante de aproximadamente dois metros, entre duas árvores ou entre dois postes de luz e, sobre ele, amarrar os aviõezinhos. O barbante cheio de aviões branquinhos sacudidos pelo vento oferece um bonito espetáculo e desperta nas crianças muita curiosidade e desejo de adquiri-los. Os aviõezinhos de pena de galinha são fixados a um chuchu (planta cucurbitáceas hortense), o qual é espetado à ponta de uma haste de madeira roliça, que os vendedores seguram na mão, à guisa de monstruário, à entrada dos parque e das áreas de lazer

(Lubatti, Maria Rita da Silva. Vendedor Ambulante, profissão folclórica: pesquisa nas ruas, parques e jardins de São Paulo. Escola de Folclore: Secretária de Estado da Cultura, 1982)