|
Maria Rita da Silva Lubatti
Os homens que vendem aviõezinhos são na sua maioria cearenses. Todavia, há um
japonês e uma família santista, vivendo quase exclusivamente da produção e venda
de tal brinquedo.
Os aviõezinhos são confeccionados com lata, isopor, papel e pena de galinha. Os
de lata foram introduzidos em São Paulo pelo cearense Antônio Félix Bezerra. Ele
vive em Vila Guaianazes, SP, há mais de seis anos e diz que, nos primeiros
tempos de sua chegada, tentou ganhar a vida trabalhando em fábrica, mas o
salário que recebia não dava para sustentar a família. Pensou, então, em vender
algumas bugigangas pelas ruas, para ganhar algum dinheiro extra. Lembrou-se de
um compadre que possuía um molde de fazer aviõezinhos. Pensou no assunto, falou
com a mulher, despediu-se da firma onde trabalhava e partiu à procura do
compadre. Obteve o tal molde e iniciou atividade de artesão e vendedor
ambulante. Hoje, além de fazer e vender aviõezinhos de lata, ensina aos
conterrâneos que desejam ingressar no setor. Afirma haver, em São Paulo, somente
ele e mais três homens que sabem confeccionar esse tipo de brinquedo.
Aviõezinhos de lata
Os aviõezinhos são feitos com lata que a esposa de Antônio Bezerra apanha nos
terrenos baldios do bairro onde mora, além de um menino, que recebe cem
cruzeiros por mês, para recolher latas vazias nas vizinhanças.
Antônio Félix considera que seus aviõezinhos não são tão bonitos como gostaria
que fossem: "Não são bonitos, a senhora mesmo está vendo, não é? Mas eu aprendi
fazer esses brinquedinhos sozinho. Bem, sozinho não, a verdade é que Adelaide,
minha mulher, me ajuda muito. Ela até sabe fazer aviõezinhos, de tanto me
ajudar. Então, o negócio é o seguinte: para fazer um avião desse tamanhozinho
(nove centímetros de comprimento por oito de largura) é muito fácil. Precisa uma
lata de óleo vazia, lavada e bem enxuta. Abro a lata com uma faca grossa e uso
alicate e um martelo, para bater sobre a faca e para amassar as beiras da latas
quando cortadas, e para entortar as pontas de arame que seguram as rodinhas de
pneu e o rabinho de papelão.
É assim que faço os brinquedos. Outra coisa, dona, uma lata dá pra confeccionar
até três negocinhos desse (aviões) e quando tenho tempo, faço uns cinqüenta por
dia."
Resumindo, os aviõezinhos de Antônio e da Adelaide são confeccionados
manualmente e em pequena quantidade. O material utilizado consiste em lata em
desuso, arame fino, barbante e pedacinhos de pneu.
Aviõezinhos de isopor
Os aviõezinhos de isopor medem por volta de quarenta e oito centímetros de
comprimento por quarenta de largura. Alguns trazem a bandeira do Brasil,
estrelas e bolinhas coloridads. outros são brancos, sem desenho algum. Para
fazê-los é necessário isopor e barbante.
O ambulante David Barreto costuma fazê-los à noite, quando retorna à casa, ou
nos fins de semana, após haver percorrido parques e ruas, para vender o produto.
A técnica usada é a seguinte: corta as parte do isopor com uma serra elétrica e
em seguida faz a montagem. A bandeira do Brasil, as estrelas e as bolinhas são
pintadas à mão.
Há uma rixa declarada entre os que trabalham com esse produto e os vendedores de
aviõezinhos de lata. Os últimos falam que os de isopor e pena de galinha são
feios e caros. Os primeiros alegam que os aviões de lata podem machucar as
crianças. As brigas não visam defesa do produto, mas a conquista de mercado e,
sobretudo, a anulação da concorrência.
É interessante que, mesmo havendo rixa, há respeito no que se refere ao ponto de
venda de cada um. Antônio Bezerra vende os seus brinquedinhos no meio do Parque
do Ipiranga. Os aviões de pena de galinha são expostos e vendidos à entrada do
mesmo parque. No Parque do Ibirapuera, a área próxima a marquise é de um
vendedor japonês; junto ao laguinho de aeromodelismo é o ponto do vendedor que
trabalha com aviões de isopor.
Freguês
Os compradores de aviõezinhos são pessoas que freqüentam áreas de lazer, nos fins
de semana e dias festivos. São provenientes das camada menos favorecidas.
Segundo alguns vendedores, as pessoas de baixa renda adquirem os brinquedinhos
com admiração, entusiasmo e muita curiosidade. As de maior poder aquisitivo só
compram os brinquedos quando os filhos insistem muito, mas, antes de
adquiri-los, põem uma série de defeitos e se queixam do preço; procuram, de modo
geral, persuadir as crianças a não comprar os brinquedos.
Na opinião dos vendedores, os pobres apreciam mais o trabalho simples do que os
ricos. Dizem, com certa amargura, que a classe abastada é incapaz de valorizar
um produto feito e comercializado por vendedores ambulantes, principalmente
quando estes são nordestinos ou nortistas. No entender deles, os compradores os
encaram como intrusos e embrulhões, enquanto, na verdade, eles só procuram
ganhar o pão dos filhos, trabalhando honestamente.
Propaganda e venda
Os vendedores de aviõezinhos não costumam apregoar o produto; recorrem a meios
promocionais muito expressivos, ricos de criatividade. Por exemplo, quem vende
aviões de lata fica de pé no meio dos passeios públicos, com uma caixa a
tiracolo, cheia de aviõezinhos. Gira, sem parar, por horas a fio, um bambu
repleto de aviões coloridos. Antônio Bezerra explica que precisa manter o bambu
cheio e girá-lo da direita para à esquerda com o braço bem esticado para cima, a
fim de que emitam um zunido para atrair o interesse das crianças.
Há outro método de expor e vender aviões de lata, que deve ser mencionado.
Trata-se de uma haste de madeira cheia de braços nosquais são colocados
aviõezinhos coloridos e barulhentos, equidistantes uns dos outros.
A técnica para expor e vender aviõezinhos de isopor é diferente. Consiste em
distender um barbante de aproximadamente dois metros, entre duas árvores ou
entre dois postes de luz e, sobre ele, amarrar os aviõezinhos. O barbante cheio
de aviões branquinhos sacudidos pelo vento oferece um bonito espetáculo e
desperta nas crianças muita curiosidade e desejo de adquiri-los. Os aviõezinhos
de pena de galinha são fixados a um chuchu (planta cucurbitáceas hortense), o
qual é espetado à ponta de uma haste de madeira roliça, que os vendedores
seguram na mão, à guisa de monstruário, à entrada dos parque e das áreas de
lazer
|