Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Imaginário
....................................
Romãozinho, por Saul Martins

A mulher da malota, por Veríssimo de Melo

O cantador de modinhas, por Ademar Vidal
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Oficina
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Romãozinho

Saul Martins

Há quatrocentos e tantos anos vivia uma família de lavradores no imenso vale do Carinhanha, perto de Cocos, no estado da Bahia. Constituía-se o pequeno grupo de três pessoas: marido, mulher e um filho, rapazola de seus 12 a 14 anos.

O menino chamava-se Romão, ou Romãozinho. Era travesso e mentiroso; muitas vezes fora motivo de brigas em casa, pois contra a mãe imaginara enredos, bem forjados, para contá-los ao pai, homem trabalhador e honesto, mas grosseiro o mais que podia. Acresce ainda que acreditava sempre nas invencionices do filho, suposta vítima de maus tratos nunca havidos.

Certo dia, a mãe de Romãozinho determinou que ele fosse à roça levar almoço ao pai. O menino tomou o prato e partiu. Na primeira curva, porém, assentou-se num toco e devorou toda a comida, deixando para o pai apenas os ossos da galinha que sua mãe cozinhara naquele dia. Ao chegar ao destino entregou o prato ao pai, como se nada houvesse acontecido. Calmamente, o homem encosta o machado, asenta-de à sombra do arvoredo e descobre o prao a fim de matar a fome. Ao verificar o logro, pergunta ao filho o que representava aquilo. Romãozinho, vestindo-se de anjo, responde-lhe que não sabia, pois da mesma maneira que recebera o embrulho da mãe, lh'o entregara. Podia adiantar apenas que, naquele dia, havia sido preparado arroz com galinha.

O pai de Romãozinho regressou à casa, imediatamente, e lá não quis saber de explicações. Chicoteou a esposa o mais que pôde.

A pobre mulher, vendo-se castigada assim tão injusta e degradantemente em vista da traição da parte do menino, filho de suas entranhas, ajoelha-se ali mesmo e exclama com as mãos para os céus:

— Deixe estar, Romãozinho, que você não terá o céu, nem o inferno. Tenho fé em Deus, meu filho, que você há de ficar zanzando pelo mundo, a aborrecer as pessoas na terra!

Era a praga da mãe contra o filho maldito.

Naquele mesmo instante morria Romãozinho.

E passou a cumprir a sentença.

Até hoje ele existe, se bem que conhece o mundo inteiro, pois dá notícias de tudo e de todos.

Não gosta de cidades. Prefere a vida das fazendas, principalmente os arredores de Januária, Manga, Poções, Cocos e Imburanas.

Costuma chegar a um sítio e lá ficar muito tempo, cometendo estrepolias.

Respeita muito as donas de casa e as ajuda nos serviços domésticos, rachando lenha, carregando água, lavando vasilhas na fonte, ou varrendo a casa e os terreiros. Serve de mensageiro, levando cartas a pessoas distantes e, quando lhe pedem, arranja dinheiro emprestado, retirando-o de cofres e gavetas de algum ricaço alhures, voltando a colocá-lo no dia marcado pelo seu solicitante e benfeitor, no mesmo lugar e da mesma forma, isto é, às escondidas.

E ai de quem faltar com a palavra!

É invisível, mas sua presença é notada por seus assobios, ou quando trabalha, pelo movimento dos onjetos que utiliza.

Quando o aborrecem, comete desatinos, atirando pedras no telhado, quebrando pratos, enchendo as panelas de estrume de gado, às vezes nela satisfazendo suas necessidades fisiológicas.

Gosta de freqüentar olarias e modelar grosseiros trabalhos de cerâmica. Se não lhe amassam o barro, zanga-se e danifica os tijolos frescos sulcando-os com os dedos, ou esborrachando-os com os pés.

Sente fome e sede como qualquer vivente e reclama a sua alimentação na hora certa, primeiro que todos. Do lugar de costume, Romãozinho apanha a comida e se dirige a alguma sombra próxima. As pessoas vêem o prato suspenso, na altura das mãos de um rapazinho movimentar-se rumo ao lugar escolhido. Não gosta e nem admite que se preparem galinhas.

Nunca envelhece e continua pensando e agindo como dantes fora.

Dizem, até, que adoece e, quando leva uma estrepada, um ferimento qualquer, uma contusão, procura ele o remédio, às vezes chora e soluça.

(Martins, Saul. "Romãozinho". O Diário. Belo Horizonte, 19 de março de 1950)