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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

festança

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Festança
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O 2 de julho, por Melo Morais Filho

O folclore da independência

Dança de Santa Cruz, por Alceu Maynard Araújo
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O folclore da independência

Na história regional, nenhum acontecimento tem maior significação para a cidade do Salvador e seu Recôncavo do que a Independência. A guerra libertadora de 1822-1823 popularmente conhecida por guerra de Labatu e guerra do Madeira, tornou-se um grande momento histórico de toda a área. Sobretudo do Recôncavo, que viveu, então, seus mais movimentados, mais difíceis, mais heróicos, mais gloriosos instantes. Chegaram para os baianos da baía de Todos os Santos, naquela etapa emancipadora, os "dias gloriosos", que marcaram, de modo indelével, até o momento atual, a própria fisionomia da sociedade soteropolitana e zona circunvizinha. Os episódios dos ataques flamengos nos tempos coloniais, a epidemia do cólera em 1855, a alforria dos escravos em 1888, bem podem ser apontados como as fases mais fortemente significativas na história da primeira capital do Brasil e do seu Recôncavo, onde também tiveram repercussão os fatos ligados à revolução de Sabino Vieira, no ano de 1837, e o bombardeio da Bahia, em 1912. Levantando-se em armas contra a dominação lusitana, os representantes da aristocracia agrária do Recôncavo conseguiram empolgar as populações locais, processando-se verdadeira mobilização de recursos humanos e materiais, ao lado de uma reformulação de valores e revisão de pontos de vista. A independência deu aos baianos, mais talvez do que a brasileiros de outras províncias, em virtude do próprio processo de luta que aqui se desenvolveu, um forte e agressivo antilusitanismo, que se dilatou no tempo até o período regencial, pelo menos. O mata-maroto, de que tanto falam as crônicas coevas, foi a forma mais violenta do nacionalismo exaltado, fielmente expresso no folclore poético, através dos versos registrados por Xavier Marques:

Pois sim, pois não
Havemos de comer
Marotos com pão
Dar-lhes uma surra
De bem cansanção
Fazer as marotas
Morrer de paixão [1]

No populário baiano relativo ao tempo da independência, como de regra no do resto do país, o pesquisador encontra, a todo momento, o que é um traço bem nítido do folclore político, a composição rimada ou a anedota de feição depreciativa contra o adversário. Em nosso estado, a poesia folclórica, agressiva contra o maroto, o pé-de-chumbo, expressões pejorativas mais divulgadas na região, não se limitou às ameaças de pancada acima citadas, mas também procurou acusar o português, principalmente a tropa metropolitana, de atos criminosos, de desonestidades praticadas. É ainda no romance de Xavier Marques que vamos deparar uma quadra para ilustrar a assertiva, coligida pelo romancista baiano, possivelmente na ilha de Itaparica, na baía de Todos os Santos:

Na cidade não se usa
Santo com seu resplendor
Esta tropa lusitana
Olho viu e mão andou [2]

Na Bahia não se usa
Mais roupa no quaradô
Por causa da tropa lusitana
Olho viu e mão andou [3]

A trova é arma de combate usada por igual pelos dois lados em porfia. Também os perseguidos portugueses, que apelidavam de cabras aos brasileiros, não deixavam de arremessar contra nós suas farpas contundentes. Parafraseando a letra do hino da independência, cuja música provavelmente cantavam nos seus momentos de reação e mofa, os lusos ripostavam:

Cabra gente brasileira
Do gentio da Guiné
Que deixou as cinco chagas
Pelos ramos de café [4]

Em Sergipe, Manuel dos Passos de Oliveira Teles encontrou uma versão:

Desgraçados brasileiros
Descendentes da Guiné
Trocaram as cinco chagas
Pelo fumo e o café [5]

A menção feita à bandeira do novo império, na qual os ramos de café e fumo substituíram os cinco castelos do pavilhão português, e a invocada origem africana do povo brasileiro atestam a reação lusíada terçando armas poéticas com os vastes anônimos da antiga colônia, procurando ferir com o mesmo sarcasmo com que fora atingida. A guerra de recíprocos doestos é, portanto, um aspecto flagrante do folclore histórico da independência, a que se segue a exaltação de heróis, onde Labatut, lord Cochrane, João das Botas, Souza Lima são os nomes vitoriosos e Madeira de Melo comparece como a personagem malsinada. Melo de Morais Filho divulgou quadras nestes dois sentidos:

Labatut jurou a Pedro
Quando lhe beijou a mão
Botar fora da Bahia
Esta maldita nação

O Madeira queria
se corar!
Boutou uma sorte
Saiu-lhe o azar [6]

Nos festejos tradicionais do Dois de Julho, que na capital baiana recordam todos os anos, os feitos d'armas daqueles que expulsaram os soldados portugueses comandados por Madeira de Melo, ouviu o tradicionalista Melo de Morais Filho trovas improvisadas ou decoradas "saturadas de ridículo e estribilhadas de ódios recentes", onde apareciam, ao lado do comandante vencido, duas outras figuras da "marotada", o tenente-coronel Vitorino José de Almeida Serrão, por antonomásia o Ruivo, e o coronel Francisco de Paula e Oliveira.

O Paulo, Ruivo e Madeira
Todos três numa janela
Esfolando um pé de burro
Supondo ser de vitela

Só o Paulo foi quem pôde
Tirar do burro a caveira
Para mandar de merenda
Ao seu general Madeira

Paulo, Ruivo e Madeira
Foram fazer caruru
O Paulo deu a farinha
Ruivo mexeu o angu [7]

Um outro português, o capitão-mor Manuel Bento, mui provavelmente o mesmo Manuel Bento de Souza, de Nazaré, sócio de Felisberto Caldeira Brant na empresa do primeiro barco a vapor, que não aderiu à independência, escondeu-se na gaveta de uma cômoda e foi, por isso, levado ao ridículo:

Seu capitão-mor
Rato de gaveta
Mas deu-lhe a formiga
Saiu pela greta [8]

Na linha brasileira, Moreira de Azevedo encontrou, repercutindo noutra província, a ação de lord Cochrane, chefe da esquadra de independência, contra Inácio Luís Madeira de Melo, brigadeiro-governador das armas na Bahia:

O Madeira assentou
Que a Bahia era sua
Chegou o Cochrane
Fez-lhe os quartos na rua [9]

Fiel ao mesmo tema, variando o herói da causa brasileira, ouvimos cantar:

O Madeira pensava
Que a Bahia era sua
Chegou João das Botas
Pôs-lhe os quartos na rua

Pedro Calmon observou, com propriedade, comentando a primeira das duas quadras, que a mesma lembrava a maldição lisboeta na fase da invasão francesa de Junot. "Ginó mail-o o Maneta — diz que Portugal é seu..." [10] Como acontece com os contos populares, conforme disseram os irmãos Grimm, a trova do povo também tem asas e voa, adquirindo como no caso, nova plumagem. Já nos festejos patrióticos de Itaparica, a grande ilha do Recôncavo que se cobriu de glórias na porfia histórica da emancipação brasileira, é o nome do bravo Antônio de Souza Lima, a quem se deveu a defesa da cidade ilha, que a poesia popular evoca, segundo Ubaldo Osório:

Quem não bebe neste dia
Quem não toma bebedeira
Não é parente do Lima
É parente do Madeira [11]

Não restou, apenas, no cancioneiro popular, o movimento da independância. Ficou, igualmente, na estória, no lendário. E de um modo singular o folclorista João da Silva Campos comentou uma das histórias, concluindo: "Zé povo tem cada uma!..." Trata-se do aparecimento de Santo Antônio combatendo, destemidamente, a favor dos brasileiros, em fevereiro de 1822. "Quando as tropas brasileiras do brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães", escreveu o citado autor, "escaramuçaram nas ruas desta cidade com os batahões portugueses do brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, em fevereiro de 1822, conta-se que os soldados lusitanos divisaram à frente da histe colonial um frade da ordem dos menores franciscanos, esgrimindo luzente duridana, com a mestria de refinado espadachim. Era um raio a farrupéia à sua mão. A soldadesca d'el rei deu para trás com precipitação, ante os repetidos golpes do estranho guerreiro de burel que, aos demais parecia blindado contra as balas que lhe choviam em cima. Ficaram surpreendidos os brasileiros com a inexplicável retirada do inimigo, pois lhes era este muito superior em número, armamento e munições.

Foi providencial semelhante recuo, graças ao qual, somente puderam os soldados baianos safar-se para o Recôncavo, onde foram constituir o núcleo do exército libertador. Mais tarde, explicaram os reinóis a causa de haverem cedido terreno àqueles. Então os nacionais, que não tinham visto frade algum à testa dos seus pelotões, atribuíram a Santo Antônio a façanha de, esposando a causa da independência do Brasil, haver-se oposto de armas em punho aos seus compatriotas". [12]

Também Nossa Senhora esteve ao lado dos brasileiros nas jornadas de 1822 e 1823. Não apareceu, contudo, combatendo como o destemido Santo Antônio e sim avisando os patriotas do Rio Vermelho da aproximação de soldados lusos. Os moradores da antiga povoação atlântica haviam saído do seu arrabalde por causa dos portugueses, indo procurar refúgio na Pituba e adjacências. Supondo que os "marotos" haviam partido, alguns pescadores mais ousados retornaram ao Rio Vermelho, descansando à sombra da igrejinha local, onde entraram em animada conversa, sem perceber o perigo que os ameaçava. Foi quando surgiu uma senhora desconhecida para avisá-los da iminente chegada dos inimigos, o que de feito aconteceu pouco depois da retirada apressada dos nossos. Só por milagre não foram pegados. O salvador alarme foi dado por Nossa Senhora Santana, em louvor de quem fazem os moradores do Rio Vermelho, desde então, todos os anos, devota e animada festa. [13]

Não seria também histórico o conhecido e assaz propalado episódio do corneta Lopes, de decisiva importância na batalha de Pirajá, a 8 de novembro de 1822, o mais sério combate da independência, na Bahia e no Brasil? Parece-nos que foi o historiador Inácio Acioli de Cerqueira e Silva, nas Memórias históricas e políticas da Bahia, o primeiro a dar curso à explicação da vitória brasileira em conseqüência de um toque de corneta propositadamente errado. O brigadeiro Madeira de Melo, na manhã de 8 de novembro, tomara a iniciativa de atacar o exército do general Labatut, cujas linhas avançadas do Coqueiro e Bate Folha, na estrada de Pirajá, romperam fogo contra os portugueses. Em pouco tempo, generalizou-se o combate, que se prolongou por mais de cinco horas, procurando os atacantes cortar a retaguarda dos brasileiros. Para não se deixar envolver, o major José de Barros Falcão, responsável pelo comando de uma posição chave, mandou tocar retirada, temendo ficar inteiramente sitiado. O corneta Luís Lopes, por sinal português que formava ao lado brasileiro, invertendo o sinal ordenado, tocou avançar cavalaria e sucessivamente à degola. Os toques surpreendentes provocaram o pavor e confusão nas linhas inimigas. Pensaram na chegada de novo reforço de cavalaria, com o qual não contavam, nem jamais viram. A debandada não se fez esperar e a derrota nacional, em poucos minutos, transformou-se na vitória mais retumbante da campanha. Acrescentou Acioli, que pessoalmente conhecia o celebrado corneta, um mendigo, por volta de 1836, que os portugueses, senhores das melhores posições, eram numericamente superiores [14]. O barão do Rio Branco, nas Efemérides brasileiras, registrando e comentando a batalha de Pirajá, embora conhecedor do texto de Acioli, não fez a menor referência à participação do corneta Lopes [15]. Brás do Amaral, erudito anotador das Memórias históricas e políticas nada acrescentou ao trecho, limitando-se a repetir o que dissera Acioli quando escreveu uma obra especialmente dedicada ao movimento na independência da Bahia, ao ensejo da passagem do centenário do Dois de Julho [16]. Pedro Calmon, dissertando sobre as lutas da independência, preferiu silenciar na sua História do Brasil a respeito da intervenção salvadora do corneteiro lusitano [17].

Sem encontrar guarida nos livros de história, o feito de Luís Lopes ganhou aceitação nos discursos cívicos da velha província. Tinha um sabor de lenda e como tal devia ser considerado. Acontece, porém, que publicação ainda pouco estudada, reforça a notícia de Inácio Acioli, que fora, apenas, um contemporâneo do acontecimento, com o testemunho de um ilustre participante da refrega de Pirajá. Visitando a 9 de outubro de 1859, o campo histórico de São Bartolomeu de Pirajá, o imperador Pedro II teve como companheiro de viagem e "cicerone" o barão de Cajaíba, Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, comandante da legião de caçadores da Bahia, uma das unidades que tomara parte no combate de 8 de novembro. Cajaíba contou a Pedro II, que anotou no seu diário, dever-se a vitória dos brasileiros a "um corneta trânsfuga português que descompunha, por meio de toques, o exército lusitano, e neste dia, tocando a retirada, fez com que avançassem os lusitanos para debandarem para o lado do campo de Cabrito e da cidade, logo que ouviram os vivas dados a meu pai, pelo major de Pernambuco Santiago; os tiros de uma pequena peça assestada ao lado direito da igreja, para quem segue para o Cabrito e o toque de degola da cavalaria que deu o tal corneta, quando apenas havia trezentos brasileiros, sobre que se dirigiam quatro colunas lusitanas, tendo por todos quatro mil homens, uma parte da cidade, outra ao lado do Cabrito, outra de Itapoã e outra em direção à praia próxima que chegou ao desembarque, quando as outras já se debandavam. O monarca, linhas abaixo, esclareceu: "Todas estas informações são do Cajaíba, e só posso afirmar que as ouvi" [18]. Histórico ou estórico, o episódio comentado? Talvez seja conveniente repetir com o nosso segundo imperador — somente podemos afirmar que ouvimos dizer.

O evento histórico da independência criou na Bahia um ciclo de comemorações patrióticas, rico de elementos populares. Algumas datas assinalam as principais festividades comemorativas de fatos referentes à época das lutas emancipacionistas. O Dois de Julho, na capital baiana, recordando a entrada do exército pacificador na velha cidade, ganhou foros de acontecimento, adquirindo sentido especial no linguajar baiano. Fazer um Dois de Julho designa alguma coisa festivamente espetacular, uma importante festa, porque constitui, realmente, na Bahia, o Dois de Julho uma grande festa do governo e do povo. A maior de todas. Um dia diferente quando toda gente sai de casa, donde o designativo de "cara de dois de julho" a alguém que não aparece sempre em público, apresentando-se apenas de quando em quando. Em vários bairros da capital, após a festividade maior do Dois de Julho no Campo Grande, realizavam-se outrora, os "Dois de Julho" locais. O Dois de Julho do Garcia, de Brotas, do Castro Neves conquistaram popularidade. Entravam pelo mês de agosto, originando a quadra esclarecedora:

Festejar com gáudio, embora
Dois de Julho em mês de agosto
É mesmo que ver a aurora
Depois do sol ter-se posto [19]

Evidenciando a importância do Dois de Julho na vida do povo baiano, podemos ainda apontar expressões e locuções de uso corrente, ligadas à história da festividade cívica mais popular do estado. "Toque o carro pra Lapinha" é uma delas. Quando se quer dizer que algo precisa ser feito de qualquer forma, que não se pode parar, lá vem a conhecida locução, ligada ao ciclo do Dois de Julho. Desde 1860, quando foi inaugurado o barracão da praça da Lapinha, ali ficam guardados os denominados "carros emblemáticos", que são dois: o da cabocla e o do cabolclo. Trazidos para o Terreiro de Jesus, algum tempo para o largo de Santo Antônio Além do Carmo, atualmente para o Campo Grande, na manhã de 2 de julho, os caboclos voltam ao seu pavilhão geralmente na noite do dia 5, com um acompanhamento deveras popular. Houve tempo em que, o retorno dos carros não se fazia tranqüilamente. Saídos do centro da cidade, começava a pancadaria, o corre-corre. Os responsáveis, porém, pela guarda dos carros, ciosos de sua responsabilidade, não paravam, não recuavam. Levavam os carros emblemáticos, fosse como fosse até o lugar que lhes estava destinado. Mandavam, pois, tocar o carro pra Lapinha. "Chorar no pé do caboclo" também parece ser originário da história dos festejos soteropolitanos. Na década de 1870, aventou-se a idéia de um monumento ao caboclo, a ser levantado num ponto histórico da capital baiana. O desejo foi tomando corpo no decorrer dos anos e as divergências quanto ao local não tardaram a surgir. Uns defendiam a ereção do monumento defronte do forte do Barbalho, porque ali se hasteara, pela primeira vez, a 2 de julho de 1823, a bandeira brasileira. Preferiam, outros, o antigo Campo da Pólvora, o Campo dos Mártires, onde foram sacrificados os revolucionários pernambucanos de 1817, inclusive o padre Roma. Lançou-se aí, em 1881, a pedra fundamental do projeto monumento, cuja obra não teve continuação [20]. Queriam terceiros o Campo de São Pedro, depois dito Campo Grande, alegando haver começado no forte de São pedro, em fevereiro de 1822, com a malograda reação do brigadeiro Manuel Pedro Freitas Guimarães à investidura de Madeira Melo no comando das armas, a campanha da independência. Venceu esta última corrente, tendo sido solenemente inaugurado omonumento a 2 de julho de 1895. estava encerrada a questão. É o que se costuma aconselhar na Bahia, quando chegamos à "casa do sem jeito".

No Recôncavo baiano se apresentam os caboclos nas festas comemorativas do ciclo da independência. Em Itaparica, o dia cívico é o 7 de janeiro, que recorda a heróica resistência local diante de um forte ataque português. Santo Amaro festeja o 14 de julho, rememorando a atitude assumida pelo Senado da Câmara santo-amarense reconhecendo a autoridade do príncipe dom Pedro, enquanto o povo de Cachoeira consagra o 25 de julho, dia em que o mesmo dom Pedro foi reconhecido pelo povo cachoeirano, provocando tal decisão o rompimento de fogo de uma canhoneira portuguesa ali ancorada, resultando a morte do soldado Soledade, tambor de sua tropa. Justamente envaidecidos dos seus serviços à pátria, itaparicanos, santo-amarenses e cachoeiranos vêem nos acontecimentos de 1822 os instantes estelares de sua formação histórica, guardando, com amor os títulos oficias que receberam depois da guerra, que tão bem demonstram o antigo e constante sentimento bairrista do Recôncavo, com Cachoeira orgulhosa do seu título de "heróica", Santo Amaro vangloriando-se de ser "invicta", "leal", "benemérita" e Itaparica exibindo o galardão de "intrépida".

No Recôncavo o tempo da independência não foi jamais esquecido. Há sempre um quê ligando os dias presentes, de algum modo melancólicos, aos tais "dias de glórias" da época de Labatut. O romancista Clóvis Amorim viu bem o fenômeno ao colocar na boca de Bastião, personagem do romance O alambique, vivido no município de Santo Amaro, as palavras seguintes: "Nem queira sabê. Foi um canhão da ilha do Francês que disparou. Os sordado da independência se esquecero e largaro a parte da arma carregada" [21]. Inveterado contador de mentiras, o tipo de Clóvis Amorim refletia, na imaginação criadora um estado de espírito do homem do Recôncavo a lembrar sempre fatos verossímeis ou inverossímeis do tempo da "guerra do Madeira".

 

Notas

1. Marques, Xavier. O sargento Pedro. 2ª ed. Bahia, Liv. Catilina, 1921, p.236
2. Marques, Xavier. Op. cit., p.236
3. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 1908, t.70, parte 3, p.450
4. Calmon, Pedro. História do Brasil na poesia do povo. Rio de Janeiro, Ed. A Noite, sd (transcrição de versos registrados por Pereira da Costa)
5. Teles, Manuel dos Passos de Oliveira. Sergipenses. Aracaju, Tip. do Estado de Sergipe, 1903, p.64
6. Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro, Briguiet, 1946, p.127-128
7. Morais Filho, Alexandre José de Melo. Op. cit.  p.127 (Suponho ter havido uma troca de Paula por Paulo, porque o coronel Francisco de Paula era um dos homens de confiança de Madeira de Melo)
8. Vieira, Damasceno. Memórias históricas brasileiras. Bahia, Of. dos Dois Mundos, 1903, v.2, p.29
9. Calmon, Pedro. Op. cit. p.121
10. Calmon, Pedro. Op. cit. p.120. Os versos lembrados por Calmon, são assim registrados por Hernani Cidade na História de Portugal, de dom João VI aos nossos dias (Porto, Lello, 1936, p.19):
O Jinó mais o Maneta
Diz que Portugal é seu
É um diabo para ele
E mais para quem lho deu
11. Osório, Ubaldo. A ilha de Itaparica. Bahia, 1942, p.42
12. Campos, João da Silva. "Tradições baianas". Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Bahia, 1930, nº 56, p.369
13. Souza, Aurélio Ângelo de. Nas bandas do Rio Vermelho. Bahia, Pub. da Associação Atlética do Rio Vermelho, 1961, p.32
14. Silva, Inácio Acioli de Cerqueira e. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia, Imp. Oficial do Estado, 1931, v.3, p.399
15. Rio Branco. Efemérides brasileiras. Ministério das Relações Exteriores, p.526
16. Amaral, Brás do. História da independência na Bahia. 2ª ed. Bahia, Prefeitura Municipal de Salvador, 1957, p.275
17. Calmon, Pedro. História do Brasil. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1929, v.5, p.1509
18. Dom Pedro II. Diário da viagem ao Norte do Brasil. Bahia, Publicações da Universidade da Bahia, 1959, p.72-72
19. Comunicada pelo dr. Fernando Feitosa Luz.
20. Matos, João Batista de. Os monumentos nacionais; estado da Bahia. Rio de Janeiro, Imprensa do Exército, 1956, p.173
21. Amorim, Clóvis. O alambique. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1934, p.110

(Silva, José Calasans Brandão da; Braga, Júlio Santana; Tourinho, Maria Antonieta. Folclore geo-histórico da Bahia e seu recôncavo. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Departamento de Assuntos Culturais, 1972. Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 7, p.30-41)