|
Melo Morais Filho
Nada existe de mais lúgubre do que o frontispício da liberdade.
Ao fitá-la, a vista maravilha-se diante de resistências desesperadas, de
corpos baleados que se erguem a meio e tombam no chão ensangüentado, de membros
mutilados sob roda pesada das carretas, de corcéis que pulam sem dono por sobre
montões de cadáveres, até que, lá na extrema, ao marche-marche dos batalhões, ao
disparar da fuzilaria, uma bandeira rota flutua em sinistra muralha ou negra
fortificação, arvorada pelo vencedor que, tendo na mão a espada, agita aos
quatro ventos o estandarte vitorioso, parecendo, na animação feroz, levantar
vivas à pátria e à liberdade.
Aqui e além, clarins partidos ao toque das investidas, tambores despedaçados,
lanças e baionetas reluzindo como o olhar do anjo do destino, salvando das
estâncias da morte o nome e a glória dos bravos.
Eis mais ou menos o aspecto geral da Bahia, quando os terríveis granadeiros
do general Madeira já haviam entrechocado no recôncavo as suas armas com as dos
exércitos de Labatut, a quem deve a campanha da independência daquela província
as fanfarras triunfantes com que entra na história.
E em Itaparica, no Cabrito, em Pirajaí, feriam-se lutas titânicas, pelejas
encarniçadas, em que os baianos conquistavam palmo a palmo o território pátrio
ao poderoso luso que o disputava.
* * *
Fúnebre, porém, desceu a noite do 1º de julho sobre a cidade. Aproveitando a
cinza densa das trevas, errantes vultos cresciam vagando nas ruas desertas e
saíam cautelosos das casas ermas.
Aos archotes inflamados, as padiolas transportavam os soldados feridos, as
carretas bagagens escoltadas, enquanto os batalhões marchavam humilhados ao cais
do embarque.
O saque, a pilhagem nos templos, a profanação das sagradas imagens, nunca
foram a senha das tropas vencidas.
As sentinelas perdidas atentavam o imprevisto, e a esquadra, que levaria a
seu bordo os lusitanos, desenhava-se nas águas da baía, sinistra como esses
monstros que nos oprimem no clima asfixiante dos pesadelos.
O momento chegara em que uma ou outra luz acesa nas barracas extinguira-se, o
silêncio amordaçara os ecos, percebendo-se apenas das ribanceiras o ressono do
mar, carregando tardo os vencidos com os seus despojos de destroços.
Às primeiras rutilações do crepúsculo, Madeira e suas tropas faziam-se de
vela, perseguidos pela esquadra imperial até o Tejo.
No dia 2 de julho de 1823, a uma hora da tarde, o exército pacificador, tendo
por chefe José Joaquim de Lima e Silva, fez a sua entrada na cidade, aos
repiques de sinos, às aclamações do povo, ao som de hinos marciais.
Batalhões havia que marchavam quase nus; outros, vestidos de folhas verdes;
trazendo muitos dos soldados pedaços de carne enfiados nas armas, aves e caça
morta batendo-lhes aos joelhos, frutos e mais provisões, por isso que nada
encontrariam na cidade faminta e devastada.
Quando, por baixo de um arco de triunfo desfilava o exército, e as freiras da
Soledade desceram, trazendo grinaldas para a fronte dos heróis, Lima e Silva foi
coroado, todos os generais foram coroados, só não o foi Labatut — porque se
achava preso!
Mas a intriga e a perfídia tiveram justa expiação.
Da guerra da independência apenas dois nomes a Bahia recomendou à memória e
figuram nos seus cantos populares:
— Labatut e Madeira!
* * *
Como comemoração dos seus feitos bélicos, a Bahia reproduzia anualmente esse
epílogo brilhante — a entrada do exército libertador — no dia 2 de julho.
Para que as festas tivesses mais relevo, oito dias antes o bando
anunciador prevenia à população, convicta de sua nova soberania, que o
préstito simbólico aparelhava-se, que as arcarias triunfais e os palanques
vistosos ergue-se-iam na praça de Palácio e no Terreiro com deslumbramento
indizíveis, cumprindo aos habitantes da cidade a iluminação e adornos das
fachadas de suas casas durante as três noites do pátrio regozijo.
Moços da mais alta nomeada, formando o bando, saíam montados em lindos
cavalos, de crinas e cauda tramadas de fitas verdes e amarelas, soando, aos
peitorais de veludo e cabeçadas, chocalhantes guizos.
Os cavaleiros vestiam de branco, traziam folhas de fumo e café enlaçadas aos
chapéus de palha, de vintém; pendiam-lhes do ombro capelas de viçosas flores, e
ostentavam a tiracolo larga fita achamalotada, das cores brasileiras.
Em duas longas filas marchavam dois a dois, alteando nos ares profunda e
verdejante abóbada, constituída por arcos de folhas e flores, sustentados nas
extremidades pelos sucessivos pares.
O porta-estandarte ia no centro. Aos vivas repetidos ao Dois de Julho, à
Independência, ao imperador, a seus generais, ao povo baiano etc.; às aclamações
que partiam dos sobrados com o perfume das flores que caíam, a lustrosa passeata
distribuía proclamações e poesias, aviventadas pela grande alma da pátria:
Vai de novo surgir, ó baianos
Vosso dia de glória sem par
Nuvem d'ouro parou no horizonte
Já vem perto, não tarda a raiar...
Na véspera do Dois de Julho, o povo, à meia-noite, levava o carro para a
Lapinha, ao clarão de archotes, em festivos clamores.
Pode-se assegurar que nesta noite toda a cidade ficava desperta; nas ruas por
onde passava o cortejo, pendiam das janelas globos e lanternas acesas, e nos
cantos das sacadas de pau ou de ferro, grandes mangas de vidro protegiam as
chamas das velas, que ardiam desde o escurecer.
A crioulada e a mulataria, aos magotes, cantando quadrinhas patrióticas e em
serenatas locais, desfrutavam a noite, prelibando os parzeres da festança.
Ao começar da véspera, o comércio português fechava as portas, em razão dos
ataques e violências das turbas, não escapando dos desvarios populares as
tavernas, onde a capadoçada ínfrene embriagava-se, zombando dos direitos do
taverneiro amedrontado, que tudo franqueava, contanto que o deixassem vivo.
Nesses dias eram comuns os fecha-fecha, os mata-marotos, de que resultavam
reprovadas correrias e freqüentes assassinatos.
Desde as seis horas, as fortalezas salvavam, as ruas embandeiradas coaxavam
de folhas aromáticas, os batalhões patrióticos cruzavam-se com bandas de música;
e numeroso povo, tendo como distintivos do dia laços de fita, e folhas das cores
nacionais na abotoadura e nos vestidos, aglomerava-se nas praças, nas esquinas,
em tumultos calorosos.
Um ano houve, segundo o testemunho de minha mãe, em que armaram-se em
diversos pontos fortalezas, que davam salvas vitoriosas à passagem de uma
fragata puxada por marinheiros, se incorporava ao popular corteho.
À uma hora da tarde, desfilava pelo Terreiro o colossal préstito, vindo da
Lapinha.
Ninguém imagina a efusão patriótica dos baianos no maior dia de sua
província; é incalculável o grandioso espetáculo oferecido pela raça autêntica
dos pelejadores da liberdade no tablado imorredouro das consagrações pátrias.
Apenas as primeiras levas do povo transpunham o Terreiro, os sinos do
Colégio, de São Francisco, de São Domingos e da Sé repicavam garridos, e
centenas de girândolas disparavam, estourando prolongadas; o ar enfumaçado
retinia de hinos, de vivas, de cantos populares, em que a consciência anônima
celebrava a glória dos heróis e a passada luta.
O arcebispo e o cabido, o presidente da província e a nobreza, lá estavam no
templo, armado de galas para a ação de graças.
E o préstito avançava...
As moças, as crianças, as famílias debruçavam-se das janelas, agitavam
lenços, aclamando o Dois de Julho; e, as escravas, com cestas de flores,
aguardavam um pouco retiradas, as ordens das senhoras.
E o tumulto crescia...
De repente, o carro triunfal assomava, puxado por cidadãos vestidos de branco
e com chapéus e enfeites característicos.
Em épocas primitivas, este carro conduzia uma cabocla com os seus adornos
selvagens, pisando um dragão, acercada de caboclinhos igualmente vestidos de
penas. Era ele enorme e pesado, tinha as rodas douradas e compreendia uma
alegoria: Paraguaçu calcando aos pés o Despotismo. Mais tarde essa cabocla foi
substituída por uma figura de indígenas, sem a mesma pompa, nem o mesmo séquito.
Quando o carro aparecia, as janelas estrondavam de aplausos, as flores
inundavam-lhe o trânsito, e os patriotas, pendidos para a frente, entesando as
cordas com que o rodavam, cantavam as suas trovas de improviso, saturadas de
ridículo e estrebilhadas de ódios recentes:
Labatut jurou a Pedro
Quando lhe beijou a mão
Botar fora da Bahia
Esta maldita nação!
Embora da Europa venham
Batalhões aos mil e mil
Nossos braços, nossos peitos
São muralhas do Brasil
E mais adiante:
O Paulo, o Ruivo e Madeira
Todos três numa janela
Esfolando um pé de burro
Supondo ser de vitela
Irra! Irra!...
Só o Paulo foi quem pôde
Tirar do burro a caveira
Para mandar de merenda
Ao seu general Madeira
Irra! Irra!...
Paulo, Ruivo e Madeira
Foram trazer caruru
O Paulo deu a farinha
Ruivo mexeu o angu
O Madeira queria
Se coroar!
Botou uma sorte
Saiu-lhe um azar!
E a crioulada batia palmas, repetindo em chula:
O Madeira queria
Se coroar!
Botou uma sorte
Saiu-lhe um azar!
À cabocla seguiam os batalhões com as feridas ainda não cicatrizadas
recebidas nos combates da independência, o Batalhão Acadêmico dos estudantes de
medicina com os lentes da faculdade; e em anos remotos, o comandante das armas,
vestido de branco e com chapéu de palha, puxava uma brigada de patriotas, da
Lapinha à praça do Palácio.
Como vivo simulacro da entrada do exército, o carro da bagagem primava pela
originalidade. Era uma monstruosidade ambulante, coberta de folhas de café,
trazendo mantimentos e frutas para as forças desprovidas.
Aos tirantes deste ajustava-se gente de toda a casta, cantando e tirando em
estilo fácil e gracioso:
Vai o carro da bagagem
Carregado de ananás
A mulher que não tem homem
Vive sempre dando ais
— Viva o Dois de Julho! — Viva a independência! — Viva a Bahia! — gritavam,
alucinadas de júbilo, as multidões, levantando os braços, agitando os chapéus de
fitas, acompanhando, fascinadas, os símbolos preciosos de suas lides e de suas
glórias.
De distância em distância, a procissão patriótica parava, e os poetas
recitavam os seus versos, ainda aquecidos do fogo e das bombardas, ao alarido
das vitórias.
Nos vôos de cem côvados de seu gênio de repentista, engrandecido na brilhante
apoteose que he preparou o dr. Rozendo Moniz no excelente livro em homenagem a
seu pai, eis Moniz Barreto que ressurge neste dia, do qual ele foi um cantor,
depois de ter sido um combatente...
E o veterano, assimbrado de talento nos festins da pátria, tangia a sua lira,
cujos cantos as multidões embeveciam-se:
Olhai, povo! resumida
Aqui vossa glória está
Povo, deveis vossa vida
Aos velhos de Pirajá
Foram eles que na guerra
Livraram a vossa terra
Do jugo ferrenho e vil
Foram eles que ajudados
Por Deus, deram denodados
Independência ao Brasil
Estes velhos que frustaram
Tremendos planos hostis
Quando os mancebos juraram
O que esta legenda diz
Estes velhos que em batalhas
Ganharam estas medalhas
Que dizem — Restauração —;
Estes velhos, como dantes
Hoje marcham triunfantes
À frente de um povo-irmão
A este solene cortejo, a essas pompas antigas, acrescentou-se posteriormente
o carro do caboclo; e ao Batalhão Acadêmico, que cedia o lugar de honra aos
Veteranos da Independência e Couraças Baianos, logo que estes se apresentaram,
muitas outras falanges patrióticas, tais como os batalhões dos Defensores da
Liberdade, dos Caixeiros Nacionais, Minerva, Dois de Julho etc. A estes
associou-se, em data que não nos referiram, uma companhia de alemães, de paletó
branco, fita encarnada a tiracolo, tornando-se saliente pelo riquíssimo
estandarte, bordado a ouro fino, que desfraldava.
Toda a tropa da guarnição ultimava o séquito, com uniforme de grande gala,
retirando-se a quartéis quando findava a parada.
As pessoas abastadas davam jantares; a fidalguia, em seus palácios, suntuosos
bailes; e a sociedade da independência, organizada após a guerra, libertava
míseros cativos — em nome da Liberdade.
Concluindo o seu triunfante itinerário, os carrps alegóricos ficavam na praça
de Palácio, de onde seguiam, depois dos festejos, para a Piedade.
Às oito horas, a cidade era toda luzes, e o Terreiro regorgitava de gente.
À frente da igreja de São Domingos, o palanque principal elevava-se
magnificente, no meio de listras de luzes que silcavam interrompidas a extensão
das casas, e dos quadros e triângulos ardentes das torres, das portas e das
janelas dos templos disseminados.
Quando a banda militar tocava o hino nacional, as cortinas rasgavam-se, os
retratos do imperador, da imperatriz, de Labatut e dos bravos da independência
descortinavam-se, e o presidente, generais, veteranos e grandes do império
adiantavam-se e soltavam vivas ao imperador, à Bahia, ao Dois de Julho etc.
Findo este ato, outro mais importante ia ter lugar: a distribuição de cartas
de liberdade, feita pelo sábio e venerando dom Romualdo Antônio de Seixas, no
palanque do Dois de Julho.
Aqui dobremos o joelho diante do túmulo de Chico santos, o libertador de
escravos, o presidente emérito da Sociedade Libertadora Dois de Julho, o
abolicionista de inabaláveis convicções, como André Rebouças, Joaquim Nabuco,
Luís Gama e José do Patrocínio.
Esta cerimônia terminava em lágrimas, que fundiam as algemas despedaçadas do
cativeiro, para que não as vissem os poetas da liberdade.
Descendo o arcebispo, o presidente e sua comitiva, tocava a vez dos
repentistas inspirados.
E quem eram eles? O povo sabia de cor os seus nomes, e a imprensa levava a
todo o Brasil as produções de seu estro.
Do luminoso grupo que dominava naqueles tempos, formando o zodíaco da poesia
baiana, moviam-se em torno de Moniz Barreto, Gualberto dos Passos, Laurindo
Mendonça, Luís Álvares dos Santos, Sinfrônio, Manuel Pessoa, Fortunato Freitas,
Bolívar, Rodrigues da Costa e outros improvisadores, que afinavam pelo
patriotismo os seus cantos e as suas glosas instantâneas.
Um deles, chegando-se ao avarandado, batia palmas, compassando o auditório
antes de começar.
Distingamo-lo. Corretamente vestido, da cor dos califas, de olhar penetrante
e gesto distinto, ninguém há que o desconheça, todos o admiram. É o dr. Luís
Álvares dos Santos.
O povo recebe-o com delírio, o silêncio restabelece-se, e ele, desatando a
palavra vibrante, declama nos arroubos do inspirado:
...Sim, as nuvens lá são tão calmas
São dos guerreiros as almas
Que entre as lúcidas palmas
O Dois de Julho vêm ver
E vendo o dia pomposo
— O seu padrão glorioso —
Num devaneio de gozo
Choram de dor e prazer
Certo: os heróis que morreram
Na brava luta, prenderam
As almas, que enobreceram
Aos pés de Deus lá no céu
E nesta noite acordados
Dos vivos aos ledos bravos
Banham prantos magoados
Lá delonge o seu troféu
E mais poesias se recitavam. O povo dava motes, os poetas improvisavam
entusiasmados, prolongando-se esses outeiros por três noites, até horas
adiantadas.
Aos espetáculos de grande gala e aos bailes concorriam a aristocracia e
alguns repentistas, enquanto a turba-multa estacionava nas duas praças e via as
luminárias...
Mas isso era quando este país tinha o ideal da pátria e batia-se pela
liberdade.
|