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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

festança

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Festança
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O 2 de julho, por Melo Morais Filho

O folclore da independência

Dança de Santa Cruz, por Alceu Maynard Araújo
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O 2 de julho
(Bahia)

Melo Morais Filho

Nada existe de mais lúgubre do que o frontispício da liberdade.

Ao fitá-la, a vista maravilha-se diante de resistências desesperadas, de corpos baleados que se erguem a meio e tombam no chão ensangüentado, de membros mutilados sob roda pesada das carretas, de corcéis que pulam sem dono por sobre montões de cadáveres, até que, lá na extrema, ao marche-marche dos batalhões, ao disparar da fuzilaria, uma bandeira rota flutua em sinistra muralha ou negra fortificação, arvorada pelo vencedor que, tendo na mão a espada, agita aos quatro ventos o estandarte vitorioso, parecendo, na animação feroz, levantar vivas à pátria e à liberdade.

Aqui e além, clarins partidos ao toque das investidas, tambores despedaçados, lanças e baionetas reluzindo como o olhar do anjo do destino, salvando das estâncias da morte o nome e a glória dos bravos.

Eis mais ou menos o aspecto geral da Bahia, quando os terríveis granadeiros do general Madeira já haviam entrechocado no recôncavo as suas armas com as dos exércitos de Labatut, a quem deve a campanha da independência daquela província as fanfarras triunfantes com que entra na história.

E em Itaparica, no Cabrito, em Pirajaí, feriam-se lutas titânicas, pelejas encarniçadas, em que os baianos conquistavam palmo a palmo o território pátrio ao poderoso luso que o disputava.

* * *

Fúnebre, porém, desceu a noite do 1º de julho sobre a cidade. Aproveitando a cinza densa das trevas, errantes vultos cresciam vagando nas ruas desertas e saíam cautelosos das casas ermas.

Aos archotes inflamados, as padiolas transportavam os soldados feridos, as carretas bagagens escoltadas, enquanto os batalhões marchavam humilhados ao cais do embarque.

O saque, a pilhagem nos templos, a profanação das sagradas imagens, nunca foram a senha das tropas vencidas.

As sentinelas perdidas atentavam o imprevisto, e a esquadra, que levaria a seu bordo os lusitanos, desenhava-se nas águas da baía, sinistra como esses monstros que nos oprimem no clima asfixiante dos pesadelos.

O momento chegara em que uma ou outra luz acesa nas barracas extinguira-se, o silêncio amordaçara os ecos, percebendo-se apenas das ribanceiras o ressono do mar, carregando tardo os vencidos com os seus despojos de destroços.

Às primeiras rutilações do crepúsculo, Madeira e suas tropas faziam-se de vela, perseguidos pela esquadra imperial até o Tejo.

No dia 2 de julho de 1823, a uma hora da tarde, o exército pacificador, tendo por chefe José Joaquim de Lima e Silva, fez a sua entrada na cidade, aos repiques de sinos, às aclamações do povo, ao som de hinos marciais.

Batalhões havia que marchavam quase nus; outros, vestidos de folhas verdes; trazendo muitos dos soldados pedaços de carne enfiados nas armas, aves e caça morta batendo-lhes aos joelhos, frutos e mais provisões, por isso que nada encontrariam na cidade faminta e devastada.

Quando, por baixo de um arco de triunfo desfilava o exército, e as freiras da Soledade desceram, trazendo grinaldas para a fronte dos heróis, Lima e Silva foi coroado, todos os generais foram coroados, só não o foi Labatut — porque se achava preso!

Mas a intriga e a perfídia tiveram justa expiação.

Da guerra da independência apenas dois nomes a Bahia recomendou à memória e figuram nos seus cantos populares:

— Labatut e Madeira!

* * *

Como comemoração dos seus feitos bélicos, a Bahia reproduzia anualmente esse epílogo brilhante — a entrada do exército libertador — no dia 2 de julho.

Para que as festas tivesses mais relevo, oito dias antes o bando anunciador prevenia à população, convicta de sua nova soberania, que o préstito simbólico aparelhava-se, que as arcarias triunfais e os palanques vistosos ergue-se-iam na praça de Palácio e no Terreiro com deslumbramento indizíveis, cumprindo aos habitantes da cidade a iluminação e adornos das fachadas de suas casas durante as três noites do pátrio regozijo.

Moços da mais alta nomeada, formando o bando, saíam montados em lindos cavalos, de crinas e cauda tramadas de fitas verdes e amarelas, soando, aos peitorais de veludo e cabeçadas, chocalhantes guizos.

Os cavaleiros vestiam de branco, traziam folhas de fumo e café enlaçadas aos chapéus de palha, de vintém; pendiam-lhes do ombro capelas de viçosas flores, e ostentavam a tiracolo larga fita achamalotada, das cores brasileiras.

Em duas longas filas marchavam dois a dois, alteando nos ares profunda e verdejante abóbada, constituída por arcos de folhas e flores, sustentados nas extremidades pelos sucessivos pares.

O porta-estandarte ia no centro. Aos vivas repetidos ao Dois de Julho, à Independência, ao imperador, a seus generais, ao povo baiano etc.; às aclamações que partiam dos sobrados com o perfume das flores que caíam, a lustrosa passeata distribuía proclamações e poesias, aviventadas pela grande alma da pátria:

Vai de novo surgir, ó baianos
Vosso dia de glória sem par
Nuvem d'ouro parou no horizonte
Já vem perto, não tarda a raiar...

Na véspera do Dois de Julho, o povo, à meia-noite, levava o carro para a Lapinha, ao clarão de archotes, em festivos clamores.

Pode-se assegurar que nesta noite toda a cidade ficava desperta; nas ruas por onde passava o cortejo, pendiam das janelas globos e lanternas acesas, e nos cantos das sacadas de pau ou de ferro, grandes mangas de vidro protegiam as chamas das velas, que ardiam desde o escurecer.

A crioulada e a mulataria, aos magotes, cantando quadrinhas patrióticas e em serenatas locais, desfrutavam a noite, prelibando os parzeres da festança.

Ao começar da véspera, o comércio português fechava as portas, em razão dos ataques e violências das turbas, não escapando dos desvarios populares as tavernas, onde a capadoçada ínfrene embriagava-se, zombando dos direitos do taverneiro amedrontado, que tudo franqueava, contanto que o deixassem vivo.

Nesses dias eram comuns os fecha-fecha, os mata-marotos, de que resultavam reprovadas correrias e freqüentes assassinatos.

Desde as seis horas, as fortalezas salvavam, as ruas embandeiradas coaxavam de folhas aromáticas, os batalhões patrióticos cruzavam-se com bandas de música; e numeroso povo, tendo como distintivos do dia laços de fita, e folhas das cores nacionais na abotoadura e nos vestidos, aglomerava-se nas praças, nas esquinas, em tumultos calorosos.

Um ano houve, segundo o testemunho de minha mãe, em que armaram-se em diversos pontos fortalezas, que davam salvas vitoriosas à passagem de uma fragata puxada por marinheiros, se incorporava ao popular corteho.

À uma hora da tarde, desfilava pelo Terreiro o colossal préstito, vindo da Lapinha.

Ninguém imagina a efusão patriótica dos baianos no maior dia de sua província; é incalculável o grandioso espetáculo oferecido pela raça autêntica dos pelejadores da liberdade no tablado imorredouro das consagrações pátrias.

Apenas as primeiras levas do povo transpunham o Terreiro, os sinos do Colégio, de São Francisco, de São Domingos e da Sé repicavam garridos, e centenas de girândolas disparavam, estourando prolongadas; o ar enfumaçado retinia de hinos, de vivas, de cantos populares, em que a consciência anônima celebrava a glória dos heróis e a passada luta.

O arcebispo e o cabido, o presidente da província e a nobreza, lá estavam no templo, armado de galas para a ação de graças.

E o préstito avançava...

As moças, as crianças, as famílias debruçavam-se das janelas, agitavam lenços, aclamando o Dois de Julho; e, as escravas, com cestas de flores, aguardavam um pouco retiradas, as ordens das senhoras.

E o tumulto crescia...

De repente, o carro triunfal assomava, puxado por cidadãos vestidos de branco e com chapéus e enfeites característicos.

Em épocas primitivas, este carro conduzia uma cabocla com os seus adornos selvagens, pisando um dragão, acercada de caboclinhos igualmente vestidos de penas. Era ele enorme e pesado, tinha as rodas douradas e compreendia uma alegoria: Paraguaçu calcando aos pés o Despotismo. Mais tarde essa cabocla foi substituída por uma figura de indígenas, sem a mesma pompa, nem o mesmo séquito.

Quando o carro aparecia, as janelas estrondavam de aplausos, as flores inundavam-lhe o trânsito, e os patriotas, pendidos para a frente, entesando as cordas com que o rodavam, cantavam as suas trovas de improviso, saturadas de ridículo e estrebilhadas de ódios recentes:

Labatut jurou a Pedro
Quando lhe beijou a mão
Botar fora da Bahia
Esta maldita nação!

Embora da Europa venham
Batalhões aos mil e mil
Nossos braços, nossos peitos
São muralhas do Brasil

E mais adiante:

O Paulo, o Ruivo e Madeira
Todos três numa janela
Esfolando um pé de burro
Supondo ser de vitela

Irra! Irra!...

Só o Paulo foi quem pôde
Tirar do burro a caveira
Para mandar de merenda
Ao seu general Madeira

Irra! Irra!...

Paulo, Ruivo e Madeira
Foram trazer caruru
O Paulo deu a farinha
Ruivo mexeu o angu

O Madeira queria
Se coroar!
Botou uma sorte
Saiu-lhe um azar!

E a crioulada batia palmas, repetindo em chula:

O Madeira queria
Se coroar!
Botou uma sorte
Saiu-lhe um azar!

À cabocla seguiam os batalhões com as feridas ainda não cicatrizadas recebidas nos combates da independência, o Batalhão Acadêmico dos estudantes de medicina com os lentes da faculdade; e em anos remotos, o comandante das armas, vestido de branco e com chapéu de palha, puxava uma brigada de patriotas, da Lapinha à praça do Palácio.

Como vivo simulacro da entrada do exército, o carro da bagagem primava pela originalidade. Era uma monstruosidade ambulante, coberta de folhas de café, trazendo mantimentos e frutas para as forças desprovidas.

Aos tirantes deste ajustava-se gente de toda a casta, cantando e tirando em estilo fácil e gracioso:

Vai o carro da bagagem
Carregado de ananás
A mulher que não tem homem
Vive sempre dando ais

— Viva o Dois de Julho! — Viva a independência! — Viva a Bahia! — gritavam, alucinadas de júbilo, as multidões, levantando os braços, agitando os chapéus de fitas, acompanhando, fascinadas, os símbolos preciosos de suas lides e de suas glórias.

De distância em distância, a procissão patriótica parava, e os poetas recitavam os seus versos, ainda aquecidos do fogo e das bombardas, ao alarido das vitórias.

Nos vôos de cem côvados de seu gênio de repentista, engrandecido na brilhante apoteose que he preparou o dr. Rozendo Moniz no excelente livro em homenagem a seu pai, eis Moniz Barreto que ressurge neste dia, do qual ele foi um cantor, depois de ter sido um combatente...

E o veterano, assimbrado de talento nos festins da pátria, tangia a sua lira, cujos cantos as multidões embeveciam-se:

Olhai, povo! resumida
Aqui vossa glória está
Povo, deveis vossa vida
Aos velhos de Pirajá
Foram eles que na guerra
Livraram a vossa terra
Do jugo ferrenho e vil
Foram eles que ajudados
Por Deus, deram denodados
Independência ao Brasil

Estes velhos que frustaram
Tremendos planos hostis
Quando os mancebos juraram
O que esta legenda diz
Estes velhos que em batalhas
Ganharam estas medalhas
Que dizem — Restauração —;
Estes velhos, como dantes
Hoje marcham triunfantes
À frente de um povo-irmão

A este solene cortejo, a essas pompas antigas, acrescentou-se posteriormente o carro do caboclo; e ao Batalhão Acadêmico, que cedia o lugar de honra aos Veteranos da Independência e Couraças Baianos, logo que estes se apresentaram, muitas outras falanges patrióticas, tais como os batalhões dos Defensores da Liberdade, dos Caixeiros Nacionais, Minerva, Dois de Julho etc. A estes associou-se, em data que não nos referiram, uma companhia de alemães, de paletó branco, fita encarnada a tiracolo, tornando-se saliente pelo riquíssimo estandarte, bordado a ouro fino, que desfraldava.

Toda a tropa da guarnição ultimava o séquito, com uniforme de grande gala, retirando-se a quartéis quando findava a parada.

As pessoas abastadas davam jantares; a fidalguia, em seus palácios, suntuosos bailes; e a sociedade da independência, organizada após a guerra, libertava míseros cativos — em nome da Liberdade.

Concluindo o seu triunfante itinerário, os carrps alegóricos ficavam na praça de Palácio, de onde seguiam, depois dos festejos, para a Piedade.

Às oito horas, a cidade era toda luzes, e o Terreiro regorgitava de gente.

À frente da igreja de São Domingos, o palanque principal elevava-se magnificente, no meio de listras de luzes que silcavam interrompidas a extensão das casas, e dos quadros e triângulos ardentes das torres, das portas e das janelas dos templos disseminados.

Quando a banda militar tocava o hino nacional, as cortinas rasgavam-se, os retratos do imperador, da imperatriz, de Labatut e dos bravos da independência descortinavam-se, e o presidente, generais, veteranos e grandes do império adiantavam-se e soltavam vivas ao imperador, à Bahia, ao Dois de Julho etc.

Findo este ato, outro mais importante ia ter lugar: a distribuição de cartas de liberdade, feita pelo sábio e venerando dom Romualdo Antônio de Seixas, no palanque do Dois de Julho.

Aqui dobremos o joelho diante do túmulo de Chico santos, o libertador de escravos, o presidente emérito da Sociedade Libertadora Dois de Julho, o abolicionista de inabaláveis convicções, como André Rebouças, Joaquim Nabuco, Luís Gama e José do Patrocínio.

Esta cerimônia terminava em lágrimas, que fundiam as algemas despedaçadas do cativeiro, para que não as vissem os poetas da liberdade.

Descendo o arcebispo, o presidente e sua comitiva, tocava a vez dos repentistas inspirados.

E quem eram eles? O povo sabia de cor os seus nomes, e a imprensa levava a todo o Brasil as produções de seu estro.

Do luminoso grupo que dominava naqueles tempos, formando o zodíaco da poesia baiana, moviam-se em torno de Moniz Barreto, Gualberto dos Passos, Laurindo Mendonça, Luís Álvares dos Santos, Sinfrônio, Manuel Pessoa, Fortunato Freitas, Bolívar, Rodrigues da Costa e outros improvisadores, que afinavam pelo patriotismo os seus cantos e as suas glosas instantâneas.

Um deles, chegando-se ao avarandado, batia palmas, compassando o auditório antes de começar.

Distingamo-lo. Corretamente vestido, da cor dos califas, de olhar penetrante e gesto distinto, ninguém há que o desconheça, todos o admiram. É o dr. Luís Álvares dos Santos.

O povo recebe-o com delírio, o silêncio restabelece-se, e ele, desatando a palavra vibrante, declama nos arroubos do inspirado:

...Sim, as nuvens lá são tão calmas
São dos guerreiros as almas
Que entre as lúcidas palmas
O Dois de Julho vêm ver
E vendo o dia pomposo
— O seu padrão glorioso —
Num devaneio de gozo
Choram de dor e prazer

Certo: os heróis que morreram
Na brava luta, prenderam
As almas, que enobreceram
Aos pés de Deus lá no céu
E nesta noite acordados
Dos vivos aos ledos bravos
Banham prantos magoados
Lá delonge o seu troféu

E mais poesias se recitavam. O povo dava motes, os poetas improvisavam entusiasmados, prolongando-se esses outeiros por três noites, até horas adiantadas.

Aos espetáculos de grande gala e aos bailes concorriam a aristocracia e alguns repentistas, enquanto a turba-multa estacionava nas duas praças e via as luminárias...

Mas isso era quando este país tinha o ideal da pátria e batia-se pela liberdade.

(Morais Filho, Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte,  Editora Itatiaia, 1979. Reconquista do Brasil, 55, p.82-89)