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Guilherme Santos Neves
Lá pelo mês de março de 1943, durante alguns dias que passei em Linhares, às
margens do meu rio Doce, tive ocasião de registrar, de um velho canoeiro —
Ubaldo Costa Porto — entre muitos versos e cantigas, esta quadrinha popular:
Minha morena bonita
Beicinho de palandanga,
Um beijo da tua boa
Me assustenta uma semana.
Ao escrever eu aquele misterioso "palandanga", indaguei do Ubaldo o que
significava, e ele esclareceu: Palandanga é o mesmo que purçulana ou tigela.
Mais tarde, através da revista Vida Capixaba (edição de janeiro de 1950) meu
prezado amigo Cristiano Fraga, focalizando o "Cancioneiro capixaba de trovas
populares" (onde eu encaixara a trovinha sob nº 674) esclarecia: "Palandanga é
decerto alteração popular de "palangana", que quer dizer "tigela". E
acrescentava: "Era comum nas tigelas antigas uma listra vermelha sobre a borda
(beiço). Além disso, "palangana" é melhor rima para "semana".
Realmente, o palandanga não passou, na boca do velho Ubaldo, de mera estropiação
de palangana — termo que os dicionários consignam.
Mas, veja só o leitor como se foi alternando o significado da antiga palavra:
O texto mais antigo que recolhi até agora (e deve ser o vocábulo, de uso bem
anterior) está nas "Verdades" de Gregório de Matos Guerra (Obras completas.São
Paulo,
Ed. Cultura, 1943, t.2, p.141):
"Primeiro foi frango o galo
Palangana é prato fundo,
É redondo todo o mundo,
As luvas não fazem calo"...
Na época em que viveu o terrível Boca do Inferno — século XVII — palangana era
(como ele o diz) o mesmo que "prato fundo".
Mas, no primeiro dicionário da língua — o de Morais e Silva — (edição de 1813)
palangana é: "Vaso de barro de muita circunferência e pouco pé", que "serve de
dar água para lavar as mãos".
Da mesma forma no Tesouro da língua portuguesa, de frei Domingos Vieira
(Porto, 1873): "Vasilha de barro de muita circunferência e pouco apoio: usa-se
dela para dar água para lavar as mãos".
Essa, aliás, é a significação que ao termo (também castelhano) lhe dá o
Dicionário da Academia Real da Espanha (ed. 1947): "Palangana" o mesmo que "Jofaina
- Vasija en forma de taza, de gran diâmetro y poca profundidad, que sirve
principalmente para lavarse lá cara y las manos".
Todavia, no mesmo século XIX, não este o sentido que o povo português atribuía
ao vocábulo, a prova, temo-la em Camilo autor; como se sabe que registrava
fielmente o falar da gente simples, principalmente da Beira. Tomemos um dos seus
livros, A filha do arcediago (Lisboa, 1918, 6ª ed.). À página 115
depara-se-nos este passo: "O senhor Antônio limitando-se a comer obra de um
arrátel e meio de cozido, uma travessa de arroz com rodelas de lingüiça, uma
côncava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo
caldo..."
Pelangana (o mesmo que palangana) era, pois, ao tempo de Camilo, o mesmo que
terrina côncava em que se servia o ensopado. Como se vê, já então não se lavavam
as mãos nas palanganas, embora nelas, comilões como o senhor Antônio, pudessem
meter os dedos gulosos.
Socorrendo-me do Dicionário contemporâneo, de Aulete-Santos Valente (sempre
seguro nas informações) verifico e confirmo: "Palangana — vaso ou bacia de barro
ou de metal, larga e de pouco fundo, onde vem os assados à mesa". Abona-se o
verbete com este exemplo de Herculano: "O desconforme assado fumava no meio da
mesa numa palangana de estanho". (Do mesmo Herculano, temos em nossos canhenhos
este exemplo, metafórico tirado ao "Pároco da aldeia" (Lendas e narrativas,
Lisboa, 1920, v.2, p.150): "... quem ganhava com essas histórias eram as línguas
dos maldizentes, que se refocilavam na palangana da murmuração...").
Consigna o mesmo Dicionário mais os seguintes significados: "Tigela grande,
malga: Tomou uma palangana de caldo (Minho) - Cântara, infusa. Tigelada".
Registra, igualmente, a forma camiliana "Pellangana", com o sentido de "Tigela
ou terrina grande para caldo".
No Dicionário — conhecido por de Laudelino Freire — repetem-se alguns verbetes
de Aulete-Valente (infusa, cântara, tigelada), mas, em vez de "vaso ou bacia de
barro", lá está esta coisa diferente: "Tabuleiro em que vão os assados à
mesa"...
Essa palangana-bandeja deve ser da mesma procedência da palangana que se lê no
Dicionário de gíria brasileira, de Manuel Viotti (São Paulo, 1956): "Alimento
mal feito ou xaropada inócua, chapoeirada"...
No Brasil (ao que sabemos) não é nenhuma dessas duas acepções que se emprega o
termo. Além do verso de Matos Guerra e da trovinha do rio Doce, anotei estes
dois exemplos esclarecedores, colhidos no livro Til, de José de Alencar (São
Paulo, Ed.
Melhoramentos, 1957, p.120-122) através dos quais bem se percebe o
significado do vocábulo (tigela): "Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu
o pito" — "Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que
deitou sobre a mesa..."
Logo, no Brasil, palangana significa tigela e não tabuleiro, bandeja ou alimento
malfeito. Palangana — é "purçulana" ou tigela, como afirmava o velho canoeiro do
rio Doce.
Aliás, prende-se melhor a nossa palangana ao sentido que se vê nesta velha
parlenda infantil portuguesa, que anotei na Revista Lusitana (v.22, Lisboa,
1919, p.128), no estudo de J. Diogo Ribeiro, "Turkel folklórico":
"Ana Rabichana,
Rabeca de cana:
Se queres mais
Dá cá a palangana"
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