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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Colher de Pau
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Os deuses também têm seus pratos preferidos

Palangana é prato fundo..., por Guilherme Santos Neves

Tacacá: todo mundo de cuia na mão, por Coeli Sila
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Palangana é prato fundo...

Guilherme Santos Neves

Lá pelo mês de março de 1943, durante alguns dias que passei em Linhares, às margens do meu rio Doce, tive ocasião de registrar, de um velho canoeiro — Ubaldo Costa Porto — entre muitos versos e cantigas, esta quadrinha popular:

Minha morena bonita
Beicinho de palandanga,
Um beijo da tua boa
Me assustenta uma semana.

Ao escrever eu aquele misterioso "palandanga", indaguei do Ubaldo o que significava, e ele esclareceu: Palandanga é o mesmo que purçulana ou tigela.

Mais tarde, através da revista Vida Capixaba (edição de janeiro de 1950) meu prezado amigo Cristiano Fraga, focalizando o "Cancioneiro capixaba de trovas populares" (onde eu encaixara a trovinha sob nº 674) esclarecia: "Palandanga é decerto alteração popular de "palangana", que quer dizer "tigela". E acrescentava: "Era comum nas tigelas antigas uma listra vermelha sobre a borda (beiço). Além disso, "palangana" é melhor rima para "semana".

Realmente, o palandanga não passou, na boca do velho Ubaldo, de mera estropiação de palangana — termo que os dicionários consignam.

Mas, veja só o leitor como se foi alternando o significado da antiga palavra:

O texto mais antigo que recolhi até agora (e deve ser o vocábulo, de uso bem anterior) está nas "Verdades" de Gregório de Matos Guerra (Obras completas.São Paulo, Ed. Cultura, 1943, t.2, p.141):

"Primeiro foi frango o galo
Palangana é prato fundo,
É redondo todo o mundo,
As luvas não fazem calo"...

Na época em que viveu o terrível Boca do Inferno — século XVII — palangana era (como ele o diz) o mesmo que "prato fundo".

Mas, no primeiro dicionário da língua — o de Morais e Silva — (edição de 1813) palangana é: "Vaso de barro de muita circunferência e pouco pé", que "serve de dar água para lavar as mãos".

Da mesma forma no Tesouro da língua portuguesa, de frei Domingos Vieira (Porto, 1873): "Vasilha de barro de muita circunferência e pouco apoio: usa-se dela para dar água para lavar as mãos".

Essa, aliás, é a significação que ao termo (também castelhano) lhe dá o Dicionário da Academia Real da Espanha (ed. 1947): "Palangana" o mesmo que "Jofaina - Vasija en forma de taza, de gran diâmetro y poca profundidad, que sirve principalmente para lavarse lá cara y las manos".

Todavia, no mesmo século XIX, não este o sentido que o povo português atribuía ao vocábulo, a prova, temo-la em Camilo autor; como se sabe que registrava fielmente o falar da gente simples, principalmente da Beira. Tomemos um dos seus livros, A filha do arcediago (Lisboa, 1918, 6ª ed.). À página 115 depara-se-nos este passo: "O senhor Antônio limitando-se a comer obra de um arrátel e meio de cozido, uma travessa de arroz com rodelas de lingüiça, uma côncava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo..."

Pelangana (o mesmo que palangana) era, pois, ao tempo de Camilo, o mesmo que terrina côncava em que se servia o ensopado. Como se vê, já então não se lavavam as mãos nas palanganas, embora nelas, comilões como o senhor Antônio, pudessem meter os dedos gulosos.

Socorrendo-me do Dicionário contemporâneo, de Aulete-Santos Valente (sempre seguro nas informações) verifico e confirmo: "Palangana — vaso ou bacia de barro ou de metal, larga e de pouco fundo, onde vem os assados à mesa". Abona-se o verbete com este exemplo de Herculano: "O desconforme assado fumava no meio da mesa numa palangana de estanho". (Do mesmo Herculano, temos em nossos canhenhos este exemplo, metafórico tirado ao "Pároco da aldeia" (Lendas e narrativas, Lisboa, 1920, v.2, p.150): "... quem ganhava com essas histórias eram as línguas dos maldizentes, que se refocilavam na palangana da murmuração...").

Consigna o mesmo Dicionário mais os seguintes significados: "Tigela grande, malga: Tomou uma palangana de caldo (Minho) - Cântara, infusa. Tigelada". Registra, igualmente, a forma camiliana "Pellangana", com o sentido de "Tigela ou terrina grande para caldo".

No Dicionário — conhecido por de Laudelino Freire — repetem-se alguns verbetes de Aulete-Valente (infusa, cântara, tigelada), mas, em vez de "vaso ou bacia de barro", lá está esta coisa diferente: "Tabuleiro em que vão os assados à mesa"...

Essa palangana-bandeja deve ser da mesma procedência da palangana que se lê no Dicionário de gíria brasileira, de Manuel Viotti (São Paulo, 1956): "Alimento mal feito ou xaropada inócua, chapoeirada"...

No Brasil (ao que sabemos) não é nenhuma dessas duas acepções que se emprega o termo. Além do verso de Matos Guerra e da trovinha do rio Doce, anotei estes dois exemplos esclarecedores, colhidos no livro Til, de José de Alencar (São Paulo, Ed. Melhoramentos, 1957, p.120-122) através dos quais bem se percebe o significado do vocábulo (tigela): "Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito" — "Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que deitou sobre a mesa..."

Logo, no Brasil, palangana significa tigela e não tabuleiro, bandeja ou alimento malfeito. Palangana — é "purçulana" ou tigela, como afirmava o velho canoeiro do rio Doce.

Aliás, prende-se melhor a nossa palangana ao sentido que se vê nesta velha parlenda infantil portuguesa, que anotei na Revista Lusitana (v.22, Lisboa, 1919, p.128), no estudo de J. Diogo Ribeiro, "Turkel folklórico":

"Ana Rabichana,
Rabeca de cana:
Se queres mais
Dá cá a palangana"

(Neves. Guilherme Santos. "Palangana é prato fundo...". A Gazeta. Vitória, 19 de abril de 1959)