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Assim como a casa dos vivos saiu sem dúvida da casa dos mortos, a cozinha também
tem uma origem religiosa; isso pelo menos no seu requinte e na arte de preparar
iguarias.
Os deuse são grandes glutões. Os mitos que falam de suas vidas andam cheios de
comezainas pantagruelescas, de voracidades homéricas. Não há, pois, mais de
espantoso, quando entramos no pogi dos orixás ao vermos a abundância de
pratos, de cores ou de formas diversas, segundo os deuses, e contendo
comidas saborosas. Mas naturalmente, cada orixá tem os seus pratos preferidos.
Eles não são apenas glutões, mas finos gourmets. Sabem apreciar o que é bom
e, como os pobres mortais, não comem de tudo.
Houve quem planejasse um menu para os orixás de Cuba e que se aplica também
aos orixás do Brasil: "frijol de carita, mais finado, dulce de coco negro"
para Iemanjá; "arroz marilio com camarones" para Oxu.
Há uma razão muito especial para separarmos o sacrifício e a cozinha porque em
tais cerimônias essas duas partes da festança realizam-se em horas diferentes:
primeiro o sacrifício bem de manhãzinha, antes da festa pública; a cozinha, a
comilança ocupam a noite toda encerrando o candomblé.
Obrigações das filhas-de-santo
Cada filha-de-santo fica encarregada de levar um prato para o seu orixá. E
ela tem que escolher entre as preferências do caboclo um quitute saboroso e
não importa o seu custo financeiro ou exigência do preparo.
Os pratos preferidos de Oxalá, por exemplo, são os acarás, os acassás, os
pãezinhos brancos enrolados numa folha de bananeira, pois a sua cor é o branco.
É-lhe indispensável um alimento sem sal e sem pimenta porque ele é o deus da
bondade e da doçura.
Oxum, que não é apenas muito faceira, mas ainda muito gulosa e feminina, exige
o xinxim de galinha, ou melhor uma mistura de todos os miúdos da ave com
farinha de mandioca. Ogum prefere os guisados de carne de vaca. Iansã quer um caruru de arroz
ou angu de mandioca com acarajés.
Estes pratos e preferências dos deuses nos fazem crer que o sincretismo se
introduziu na cozinha, como na vida religiosa. O lugar que o milho ameríndio
ocupa ao lado da mandioca, prova-o claramente. Há uma mistura entre as
sobrevivências místicas da África e, em particular, o azeite de dendê e a
pimenta da costa e mais os elementos pedidos emprestados à cozinha dos brancos e
dos indígenas. Mas esse sincretismo não vai tão longe a ponto de que a cozinha
religiosa perca a sua dominante cor africana.
Nota-se isso pela ausência dos doces nesse conjunto alimentar tão saboroso e
típico. Há, entretanto, uma exceção feita pelos meninos gêmeos — Cosme e Damião
— que são presenteados com balas, doces e bolos.
Mas esse festão não é de candomblé, mas uma celebração familiar.
A cozinha dos deuses transformou-se na cozinha baiana.
E isto porque as cozinheiras empregada pelos brasileiros nas casas-grandes e
nos sobrados eram em geral filhas dos deuses. Assim, enriqueceram a cozinha
européia com os pratos mais apetitosos e deliciosos para todos os que sabem
apreciar a boa mesa.
A influência da cozinha dos deuses atingiu também à própria estrutura social do
candomblé. A cozinheira ocupa, no conjunto hierárquico das sacerdotisas, um
lugar de importância. É uma filha-de-santo especialmente escolhida para isso.
Os tabus da alimentação
Não apenas os orixás têm pratos preferidos como também alimentos proibidos e
nos quais não podem ou não querem tocar. Essas proibições são de várias espécies
referindo-se a uma divindade em particular ou a todas. Segundo o grau de
hierarquia, os tabus aumentam ou diminuem. Em regra geral há reciprocidade de
honras e encargos. Um babalaô que toca 32 búzios é cercado de menores
proibições do que, o que toca apenas 16 búzios. É um verdadeiro escravo de suas
obrigações.
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