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Francisco Sales Areda
A velha chica
Que morava no fundão
Lá em cima do sertão
Na beirada da estrada
Passava o dia
No batente cochilando
Pegando pulga e matando
A comendo com qualbada
Essa velha
Parecia uma serpente
Banguela só tinha um dente
E a venta arribitada
Tinha um tumó
Na ponta da espinhela
Do tamanho de uma gamela
E uma perna esconchavada
E no lugar
Que estava cochilando
Pelo beiço era pingando
Uma baba amarela
No couro dela
Tinha tanta mucurana
E piolho de cigana
Que chega estava pelada
Era conhecida
por sá Chica rezadeira
passava a semana inteira
só rezando ajoelhada
Com uma trouxa
Cheia de cinza e molambo
Rezava dor de estambo
Dor de dente e junta inchada
Rezava nervo
E também ventre caído
Quarto duro e dor de ouvido
Queimadura e pá quebrada
De enxaqueca
De sol na cabeça e lua
Doença de meio de rua
Gastura e barriga inxada
Erizipela
Golpe boba e 7 couro
De picada de besouro
E serpente envenenada
E além disso
Era forte macumbeira
Não houve catimbozeira
Pra dela tomar chegada
E os preparos
Que essa velha possuía
Para fazer bruxaria
Vou contar sem deixar nada
Tinha um cambuco
Que ela arrumou na praia
Com 3 rabos de lacraia
E uma coruja pelada
Numa mochila
Tinha as pernas de 1 cancão
Três caroços de pinhão
E uma unha de viada
Noutro cambuco
Tinha o couro de um quandu
E também um cururu
Com a boca costurada
Uma cauã
E 7 cavalos do cão
Pendurado no cordão
Na cozinha fumaçada
Jurema preta
E terra de cemitério
Pra fazer todo mistério
Com raiz de encruzilhada
Meus leitores
Essa velha era um perigo
Tinha tanto inimigo
Que só uma excomungada
Era bastante
Ela ter raiva de um
Passava o dia em jenjum
Preparando a panelada
Quando queria
Fazia gente correr
Moça casar sem querer
Se apartar mulher casada
Fazia gente
Morrer de catimbó
Magro igualmente um cipó
Caído pela estrada
Na vizinhança
Tudo tinha medo dela
O povo dizia aquela
Pelo diabo foi mandada
A sua fama
Espalhou-se na nação
Todo povo do sertão
Tinha medo da danada
E quem passava
Pela sua moradia
No pingo do meio dia
Via a bruta ajoelhada
Ao redor dela
Tinha um gato derrengado
E um sapo pendurado
Junto à velha desgraçada
Meus senhores
E a velha assim vivia
Preparando bruxaria
e fazendo presepada
No sertão
Do Rio Grande do Norte
Essa velha era forte
Pra mexer a panelada
Mas certo dia
Essa velha adoeceu
Vou contar o que deu
Com a bruxa envenenada
Secou um pé
E entronchou o cabelouro
E nasceu um sete couro
A velha ficou piada
Veio a febre
Atacou-a de repente
Mas a bicha renitente
Tomando por caçoada
Na língua dela
Um tomó se apresentou
Nunca mais ela falou
Lá num canto derrubada
E começou
A maldita se acabando
Fedendo muito e secando
Toda troncha esculhambada
Chegou um bicho
Com as unhas de espeto
Uma gia e um gato preto
E cercaram a condenada
E uma cabra
Pretinha sem ter sinal
Junto à velha infernal
Mordendo dando chifrada
Mosquito e besouro
Aranha e caranguejeira
Toda raça mordedeira
Mordia a velha malvada
Com poucos dias
Dona Chica do fundão
Pediu vela e um caixão
E mortalha costurada
A vinte e quatro
De agosto ao meio-dia
Deu na velha uma agonia
E morreu a desgraçada
Quando morreu
Começou a chegar gente
Dizendo essa serpente
Morreu tarde e atrasada
A vizinhança
Se ajuntou para enterrá-la
Mas na hora de levá-la
A bicha ficou pesada
Botaram ela
Prá levá-la num caixão
O testo caiu no chão
A velha ficou deitada
Trouxeram um carro
Puxado a quatro bois
Quebrou-se a ponta de dois
Só puxando a condenada
Foram arrastá-la
Prá levar pro cemitério
Apareceu um mistério
Ao redor da excomungada
Um bode preto
Começou fazendo um jogo
Um gato dos olhos de fogo
Miando e dando dentada
Veio um enxame
De abelha de exu
E chegou um urubu
Com a cabeça encarnada
Foi tanto sapo
Que chegou ao redor dela
Com uma baba amarela
Que a velha ficou banhada
Chegou um negro
Da grossura de um graveto
E trazia um livro preto
Com as culpas da malvada
O negro disse
Afasta povo não se oponha
Que esta velha sem vergonha
Não pode ser enterrada
Abriu o livro
E as páginas foi passando
Em toda folha mostrando
A velha fotografada
O negro disse
Esse livro é todo dela
Vou levar esta cadela
Que a tempo está comprada
E quando o povo
Viu o negro assim dizendo
Todo mundo foi correndo
Deixaram lá a finada
E nesta hora
Deu um forte pé de vento
Naquele mesmo momento
Foi a velha carregada
Nesse dia
Para cá lá no fundão
A velha Chica buzão
Vive lá acocorada
E quem passar
No fundão não volta mais
Que a velha corre atrás
Até uma encruzilhada
Se o leitor
Não levar um folhetinho
Encontra a velha no caminho
E ela dá-lhe uma dentada
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