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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Cancioneiro
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São donos cantadores da palavra

A embolada da velha chica, um cordel de Francisco Sales Areda

Trova popular, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


A embolada da velha chica

Francisco Sales Areda

A velha chica
Que morava no fundão
Lá em cima do sertão
Na beirada da estrada

Passava o dia
No batente cochilando
Pegando pulga e matando
A comendo com qualbada

Essa velha
Parecia uma serpente
Banguela só tinha um dente
E a venta arribitada

Tinha um tumó
Na ponta da espinhela
Do tamanho de uma gamela
E uma perna esconchavada

E no lugar
Que estava cochilando
Pelo beiço era pingando
Uma baba amarela

No couro dela
Tinha tanta mucurana
E piolho de cigana
Que chega estava pelada

Era conhecida
por sá Chica rezadeira
passava a semana inteira
só rezando ajoelhada

Com uma trouxa
Cheia de cinza e molambo
Rezava dor de estambo
Dor de dente e junta inchada

Rezava nervo
E também ventre caído
Quarto duro e dor de ouvido
Queimadura e pá quebrada

De enxaqueca
De sol na cabeça e lua
Doença de meio de rua
Gastura e barriga inxada

Erizipela
Golpe boba e 7 couro
De picada de besouro
E serpente envenenada

E além disso
Era forte macumbeira
Não houve catimbozeira
Pra dela tomar chegada

E os preparos
Que essa velha possuía
Para fazer bruxaria
Vou contar sem deixar nada

Tinha um cambuco
Que ela arrumou na praia
Com 3 rabos de lacraia
E uma coruja pelada

Numa mochila
Tinha as pernas de 1 cancão
Três caroços de pinhão
E uma unha de viada

Noutro cambuco
Tinha o couro de um quandu
E também um cururu
Com a boca costurada

Uma cauã
E 7 cavalos do cão
Pendurado no cordão
Na cozinha fumaçada

Jurema preta
E terra de cemitério
Pra fazer todo mistério
Com raiz de encruzilhada

Meus leitores
Essa velha era um perigo
Tinha tanto inimigo
Que só uma excomungada

Era bastante
Ela ter raiva de um
Passava o dia em jenjum
Preparando a panelada

Quando queria
Fazia gente correr
Moça casar sem querer
Se apartar mulher casada

Fazia gente
Morrer de catimbó
Magro igualmente um cipó
Caído pela estrada

Na vizinhança
Tudo tinha medo dela
O povo dizia aquela
Pelo diabo foi mandada

A sua fama
Espalhou-se na nação
Todo povo do sertão
Tinha medo da danada

E quem passava
Pela sua moradia
No pingo do meio dia
Via a bruta ajoelhada

Ao redor dela
Tinha um gato derrengado
E um sapo pendurado
Junto à velha desgraçada

Meus senhores
E a velha assim vivia
Preparando bruxaria
e fazendo presepada

No sertão
Do Rio Grande do Norte
Essa velha era forte
Pra mexer a panelada

Mas certo dia
Essa velha adoeceu
Vou contar o que deu
Com a bruxa envenenada

Secou um pé
E entronchou o cabelouro
E nasceu um sete couro
A velha ficou piada

Veio a febre
Atacou-a de repente
Mas a bicha renitente
Tomando por caçoada

Na língua dela
Um tomó se apresentou
Nunca mais ela falou
Lá num canto derrubada

E começou
A maldita se acabando
Fedendo muito e secando
Toda  troncha esculhambada

Chegou um bicho
Com as unhas de espeto
Uma gia e um gato preto
E cercaram a condenada

E uma cabra
Pretinha sem ter sinal
Junto à velha infernal
Mordendo dando chifrada

Mosquito e besouro
Aranha e caranguejeira
Toda raça mordedeira
Mordia a velha malvada

Com poucos dias
Dona Chica do fundão
Pediu vela e um caixão
E mortalha costurada

A vinte e quatro
De agosto ao meio-dia
Deu na velha uma agonia
E morreu a desgraçada

Quando morreu
Começou a chegar gente
Dizendo essa serpente
Morreu tarde e atrasada

A vizinhança
Se ajuntou para enterrá-la
Mas na hora de levá-la
A bicha ficou pesada

Botaram ela
Prá levá-la num caixão
O testo caiu no chão
A velha ficou deitada

Trouxeram um carro
Puxado a quatro bois
Quebrou-se a ponta de dois
Só puxando a condenada

Foram arrastá-la
Prá levar pro cemitério
Apareceu um mistério
Ao redor da excomungada

Um bode preto
Começou fazendo um jogo
Um gato dos olhos de fogo
Miando e dando dentada

Veio um enxame
De abelha de exu
E chegou um urubu
Com a cabeça encarnada

Foi tanto sapo
Que chegou ao redor dela
Com uma baba amarela
Que a velha ficou banhada

Chegou um negro
Da grossura de um graveto
E trazia um livro preto
Com as culpas da malvada

O negro disse
Afasta povo não se oponha
Que esta velha sem vergonha
Não pode ser enterrada

Abriu o livro
E as páginas foi passando
Em toda folha mostrando
A velha fotografada

O negro disse
Esse livro é todo dela
Vou levar esta cadela
Que a tempo está comprada

E quando o povo
Viu o negro assim dizendo
Todo mundo foi correndo
Deixaram lá a finada

E nesta hora
Deu um forte pé de vento
Naquele mesmo momento
Foi a velha carregada

Nesse dia
Para cá lá no fundão
A velha Chica buzão
Vive lá acocorada

E quem passar
No fundão não volta mais
Que a velha corre atrás
Até uma encruzilhada

Se o leitor
Não levar um folhetinho
Encontra a velha no caminho
E ela dá-lhe uma dentada