Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - julho  2004
Edição 68

catavento

Catavento
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Bão-ba-la-lão

Bola ao centro

Brinquedos de menino pobre

Passa-passa, cavaleiro

Adivinhas
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Almanaque
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Brinquedos de menino pobre

Mariza Lira

 

Ilustração de Marcos JardimBrinquedos de menino pobre... Tratando-se de crianças, parece incrível haver distinção, mas há — meninos ricos (granfinos), meninos pobres (molques).

Segundo o grande africanista, dr. Nelson de Senna, moleke é palavra quibunda — preto pequeno.

A antiga interpretação popular assim o julgava. Hoje, moleque é todo menino pobre que goza a liberdade da rua.

Pois, esses meninos pobres, que não podem adquirir automóveis, bicicletas, jeeps, patins, bolas e outros brinquedos caros têm uma vida lúdica riquíssima.

Os seus brinquedos não custam nada e a lista é grande: cara ou coroa, serra-serrote, batalhão, marionetes, amarelinha, pipa ou papagaio, bola de gude, pião, polícia, pinhé, zunga e muito mais.

Há dias passava por uma rua próxima à favela da praia do Pinto (Lagoa), futuro Parque Proletário do Leblon, quando vi um grupo de meninos pobres, esfarrapados, sujinhos, fingindo que brigavam. Observei-os. Foram logo explicando — Estamos brincando de polícia. Reparei então que escondido na esquina estava um caboclinho rijo e esperto, trazendo à cintura uma espécie de espada feita de tábua de caixote. À cabeça, um chapéu de papel de jornal.

Em dado momento, um do grupo gritou:

Olha o sururu
Cá desse lado
Vamos correndo
Chamar o soldado

Ao ser procunciada a última palavra, surgiu o soldado, de espada em punho, procurando apartar os briguentos a pau. Taponas, ponta-pés, cachações etc. Valia tudo.

Interessante a peleja. O soldado tanto dava como apanhava.

Nisso, um pretinho esguio, feio, a encarnação perfeita do "capeta", conseguiu desarmar o soldado.

Foi uma gritaria ensurdecedora. Dominava a voz esganiçada do pretinho reivindicando seu direito: "Tirei carta de valente, agora eu sou o soldado".

E era de ver a alegria daqueles meninos subnutridos que alegravam a infância desprotegida com reflexos da vida cotidiana.

Na seção do meu arquivo sobre "brinquedos de menino pobre", figura entre outros o tradicional cara ou coroa.

Jogo antiquíssimo, remonta à velha Roma. Os romanos ochamavam, segundo Giuseppe Pittré, capu aut navis, porque as moedas daquela época traziam gravadas num lado um busto e noutro um navio.

Na Espanha, diz Hernandes Sotto, este jogo era antigamente o castillao leou, justificando essa denominação o trazerem as moedas de um lado um castelo e do outro um cão. Em Portugal e conseqüentemente no Brasil, temos o tradicional cara ou coroa, jogado com moedas que traziam gravadas de um lado o retrato do rei ou do imperador e do outro a coroa.

 Ouvi várias vezes quando se jogava a moeda, perguntarem também "Cunha ou coroa?" Aí a expressão cunha referia-se à marca que estava gravada na moeda.

Outro brinquedo interessante, esse observado entre filhos de pescadores da Ilha do Governador (praia da Bica), foi o maneta.

Um dos meninos tirado à sorte, tem que trazer o braço esquerdo amarrado à cintura e à cabeça um chapéu qualquer contanto que tenha uma pena, um galho, qualquer coisa espetacular, que possa ser facilmente arrancada com um simples puxão.

De um lado fica uma fila de meninos e fronteiro a eles o maneta.

Em dado momento o maneta declama em voz ritmada:

Duvido quem me tira o penacho
Se alguém fizer, pelo meio racho

A essa palavra o maneta corre para o grupo e vice-versa. Ninguém pode parar nem olhar para trás, senão perde o jogo.

Quem conseguir arrancar o penacho do maneta durante o encontro, toma-lhe o lugar e se não o fizer o jogo continua.

A vitória é aclamadíssima. Um vozerio alegre anima a meninada para novos lances e conquistas.

 

(Lira, Mariza. "Folclore carioca: brinquedos de menino pobre". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 01 de maio de 1948)