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Brinquedos de menino pobre
Mariza Lira
Brinquedos de menino pobre... Tratando-se de crianças, parece incrível haver
distinção, mas há — meninos ricos (granfinos), meninos pobres (molques).
Segundo o grande africanista, dr. Nelson de Senna, moleke é palavra
quibunda — preto pequeno.
A antiga interpretação popular assim o julgava. Hoje, moleque é todo menino
pobre que goza a liberdade da rua.
Pois, esses meninos pobres, que não podem adquirir automóveis, bicicletas,
jeeps, patins, bolas e outros brinquedos caros têm uma vida lúdica riquíssima.
Os seus brinquedos não custam nada e a lista é grande: cara ou coroa,
serra-serrote, batalhão, marionetes, amarelinha, pipa ou papagaio, bola de gude,
pião, polícia, pinhé, zunga e muito mais.
Há dias passava por uma rua próxima à favela da praia do Pinto (Lagoa),
futuro Parque Proletário do Leblon, quando vi um grupo de meninos pobres,
esfarrapados, sujinhos, fingindo que brigavam. Observei-os. Foram logo
explicando — Estamos brincando de polícia. Reparei então que escondido na
esquina estava um caboclinho rijo e esperto, trazendo à cintura uma espécie de
espada feita de tábua de caixote. À cabeça, um chapéu de papel de jornal.
Em dado momento, um do grupo gritou:
Olha o sururu
Cá desse lado
Vamos correndo
Chamar o soldado
Ao ser procunciada a última palavra, surgiu o soldado, de espada em punho,
procurando apartar os briguentos a pau. Taponas, ponta-pés, cachações etc. Valia
tudo.
Interessante a peleja. O soldado tanto dava como apanhava.
Nisso, um pretinho esguio, feio, a encarnação perfeita do "capeta", conseguiu
desarmar o soldado.
Foi uma gritaria ensurdecedora. Dominava a voz esganiçada do pretinho
reivindicando seu direito: "Tirei carta de valente, agora eu sou o soldado".
E era de ver a alegria daqueles meninos subnutridos que alegravam a infância
desprotegida com reflexos da vida cotidiana.
Na seção do meu arquivo sobre "brinquedos de menino pobre", figura entre
outros o tradicional cara ou coroa.
Jogo antiquíssimo, remonta à velha Roma. Os romanos ochamavam, segundo
Giuseppe Pittré, capu aut navis, porque as moedas daquela época traziam
gravadas num lado um busto e noutro um navio.
Na Espanha, diz Hernandes Sotto, este jogo era antigamente o castillao
leou, justificando essa denominação o trazerem as moedas de um lado um
castelo e do outro um cão. Em Portugal e conseqüentemente no Brasil, temos o
tradicional cara ou coroa, jogado com moedas que traziam gravadas de um lado o
retrato do rei ou do imperador e do outro a coroa.
Ouvi várias vezes quando se jogava a moeda, perguntarem também "Cunha
ou coroa?" Aí a expressão cunha referia-se à marca que estava gravada na moeda.
Outro brinquedo interessante, esse observado entre filhos de pescadores da
Ilha do Governador (praia da Bica), foi o maneta.
Um dos meninos tirado à sorte, tem que trazer o braço esquerdo amarrado à
cintura e à cabeça um chapéu qualquer contanto que tenha uma pena, um galho,
qualquer coisa espetacular, que possa ser facilmente arrancada com um simples
puxão.
De um lado fica uma fila de meninos e fronteiro a eles o maneta.
Em dado momento o maneta declama em voz ritmada:
Duvido quem me tira o penacho
Se alguém fizer, pelo meio racho
A essa palavra o maneta corre para o grupo e vice-versa. Ninguém pode parar
nem olhar para trás, senão perde o jogo.
Quem conseguir arrancar o penacho do maneta durante o encontro, toma-lhe o
lugar e se não o fizer o jogo continua.
A vitória é aclamadíssima. Um vozerio alegre anima a meninada para novos
lances e conquistas.
(Lira, Mariza. "Folclore carioca: brinquedos de menino pobre". Jornal do
Brasil. Rio de Janeiro, 01 de maio de 1948)
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