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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Almanaque
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O mamulengo no Nordeste brasileiro, por José Luís Ribeiro

As trapaças de Benedito

Pelo correio eletrônico

Calendário

Latrinália

Na parede do Boteco

Provérbios

No estradão

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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


As trapaças de Benedito

Mamulengo, comedinha de Manuel Amendoim

Personagens

Benedito
Quitéria
Chiquinha
Homem de fora
Zé das Moças
Balula
Maria José
Mãe de Zé das Moças
Cabo 100
Dona Sicundina
O caboclo
Seu Lapa
Limoeiro
João Redondo
Isália
Mãe de Benedito
Zé Rasgado
A moça
O diabo
Joana Traçaia
Seu Esparra
A filha de seu Lapa
Filomena
A cobra
Vida Boa
A filha de Limoeiro
O jacu

* * *

A orquestra ataca um coco. Surge Benedito, dançando e cantando. A figura é a de um preto moço e magro.

Benedito:
E boa noite pro dono da casa
E boa noite pra sua senhora } bis
O-lô, ô-lô, quem é que fala?
É Benedito, tá chegando agora } bis
(Dança e sai)

Surgem Quitéria, a mãe, e Chiquinha, a filha.

Quitéria: Pronto, minha fia, a gente tá na dança. Mas não vá dançá com todo mundo não.

Chiquinha: Eu só danço com gente fina.

Quitéria: Minha fia é de menor.

Homem de fora: Quantos anos ela tem?

Quitéria: Minha fia tá com sessenta e dois anos.

Homem de fora: E você?

Quitéria: Eu tou com dezoito.

Zé das Moças (aparecendo): Tá pra mim. Hoje eu danço com toda mulhé aqui do baile.

Música. Zé das Moças agarra Chiquinha a pulso e dança com ela.

Homem de fora: Solta a menina, seu Zé!

Quitéria: Chiquinha! Chiquinha! Chiquinha!

Chiquinha (gritando): Aiiiiii!

Zé das Moças interrompe a orquestra, gritando: "Epa! Epa!" — A orquestra pára.

Zé das Moças: Bota a sorte, menino. Bota a sorte naquele home encostado na bicicleta.

Música. Canto.

 Zé das Moças:
Tudo na vida se acabou
Tudo em nós terminou
Ai, ai, meu Deus
Nosso amô morreu!
Vai, procura outro infeliz
Que seja milhó do qui eu

Agarra novamente Chiquinha e dança com ela.

Chiquinha: Aiiiii! Aiiiiii!

Sobe Balula, marido de Quitéria e pai de Chiquinha.

Balula: Ô qui agonia! Eu não disse a tu que tu não viesse pra essa dança? Perua do rabo arrancado! Agora tá bom pra tu!

Continua a dança. Dançando, Zé das Moças dá um tombo em Balula.

Balula: Hoje já me dero um baque!

Quitéria: Oi, Bá, meu marido. Ô véio, ô Bala, vem cá, minha fia tá em perigo.

Chiquinha (dançando com Zé das Moças): Ô, meu Deus, não passa nem água no...

Balula: Que foi isso? Que é isso aí? Que é isso aí?

Chiquinha: Aiiiiiiiiiiiii!

Voz no meio do povo: Olha tua filha, Balula!

Balula: Hein?

Voz do povo: Olha tua filha!

Balula: E eu mandei essa danada vi pra essa dança?!

Quitéria: Chega acudi a fia da gente, Bala!

Balula: Hein? (Zé das Moças vai dançando com Chiquinha e o derruba)

Balula: Já me dero um baque!

Quitéria: Ô home mole! Eu hoje arrumo outro marido, te deixo, quizila assada!

Chiquinha: Aiiiii! (Zé das Moças derruba Balula de novo)

Balula: Já me dero um baque!

Quitéria: Vamo tomá a menina qui já grelou todos três óio, Bala!

Balula: Eu mandei ela vi pra essa dança?

Quitéria: Vamo tomá!

Balula: Vamo tomá purquê é o jeito.

Chiquinha: Aiiiiii!

Quitéria: Vamo tomá!

Chiquinha: Aiiiiii!

Balula investe a medo, mas não chega a tomar a menina, que dança com Zé das Moças. Recua. Zé das moças continua dançando.

Balula (para os tocadores): Cadê o tom, sô?

Voz no meio do povo: Tu corresse!

Balula: Quem correu?

Voz: Tu!

Balula: Eu sou um home, rapaz. — (para a orquestra) — Cadê o tom?

O homem de fora: Tá lá embaixo.

Balula: Aonde?

O homem de fora: Lá fora.

Todos (cantando):
Correu de medo
Correu
Correu de medo!

Zé das Moças (parando de dançar): É milhó a senhora dançá com um home branco, qui nem eu, de famia, do que dançá com um nego preto como Benedito. — (para a orquestra) — Bota a música!

A orquestra ataca uma marcha.

Zé das Moças (no ritmo da música, agarrando Chiquinha novamente e dançando com ela):
Comigo!
Comigo!
Comigo!

Balula: Venha, minha filha!

Zé das Moças (continua):
Agora!
Agora!
Agora!
Agora!
Agora!
Comigo!
Comigo!
Comigo!
Comigo!
Comigooooo!
Acabado o samba!

Homem de fora: Acabado o samba?

Zé das Moças: Essa moça não qué dançá comigo. Que é que a senhora entende?

Homem de fora: O que? Por que ela não qué dançá com você?

Voz no meio do povo: Porque o senhor é feio que é danado. Tem cara de pamonha...

Zé das Moças: Mais bonito do que eu é um aleijado. Agora,o seguinte é esse: ói, vá-se embora e venha outra, que o home não nasceu só. Deixe que venha outra, vá-se embora.

Um menino no meio do povo: Sabe por que ela não te qué?

Zé das Moças: Sim.

Menino: Porque tás sujo, rapaz.

Zé das Moças: Ah, eu vou trocá de roupa, qui meu irmão morreu e deixou um baú de roupa. (Sobe Maria José). Ah, minha fia, a senhora tá pra mim, heim? heim?

Voz no meio do povo: Como é o nome da senhora?

O mamulengueiro sopra para a moça que o ajuda: — Diga Maria José.

Maria José: É Maria José.

Zé das Moças: Ah! Então eu sou José de Maria. Tá pra mim. Vou então trocá de roupa.

O homem de fora: Vá logo, Zé das Moças.

Zé das Moças desaparece e volta imediatamente.

Zé das Moças: Pronto, minha fia, cheguei. — (Para a orquestra) — Puxa a marcha!

Voz no meio do povo: Zé das Moças, cadê a roupa?

Zé das Moças: Eu ia trocá de roupa, mas minha irmã foi passando, visse? e levou a chave do baú.

Música. Dança.

Zé das Moças (dançando com Maria José):
Agora!
Agora!
Agora!
Agora!
Comigo!
Comigo!
Mas eu me chamo seu Zé das Moças } bis
Agora mesmo tou queimando as alpargatas } bis
Seu Benedito mas porém é gente boa
Lá na beira da lagoa
Ele roubou quatro patos
(Termina o canto e as figuras descem)

O homem de fora: Ô Benedito!

Benedito (de dentro): Oi!

O homem de fora: Vem cá, meu véio.

Benedito (sobe). Música
Ô boa noite pro dono da casa
Ô boa noite pra sua senhora } bis
Ô-lô, ô-lô, quemé que fala?
É Benedito, tá chegando agora } bis

O homem de fora: Ô Benedito!

Benedito: Heim?

O homem de fora: Sabe que Zé das Moças disse aqui?

Benedito: Sim.

O homem de fora: Disse que você roubou quatro patos na lagoa e que você não vinha hoje cá não.

Zé das Moças (aparecendo): Eu disse isso?

Público (em coro): Disse!

Benedito: Ele disse pra fazê puxa onde?

O homem de fora: Tá fazendo puxa no hoté de Zé da Tapa.

Benedito: No hoté de minha mãe?

O homem de fora: Foi.

Zé das Moças: Eu disse isso?

Público (em coro): Disse!

Benedito (declamando):
Benedito véio da fiança
Cabelo no peito que dá trança
Mundrunga de pau seco jereba
É pau que enverga mas não se quebra
Moro na grota grande
Querido das moças
Dador de lapada
Endireitador de cacunda

Zé das Moças (dando a puage [resposta]):
Minha mala é o saco
Cadeado é o cordão
Cabeceira eu falo do braço
Comigo é na inhanha
Matando porco
Tirando a banha

Benedito: Nesse caso eu não quero matá um peste aqui, vou-me embora. — (Zé das Moças dá uma cutucada nele) — Ai, que esse perdiz vai querê hoje!

Zé das Moças: Canta o coco!

Benedito: Eu vou cantá que eu não sou assombrado com home. Porque minha mãe sempre dizia a mim:
Venha cá, meu nego preto
Todo tostado do sol
Que eu por preto não te enjeito
Quanto mais pretinho milhó
Meu xodó

Zé das Moças: Seu Benedito, eu não sou contra o sinhô. — (Benedito dá-lhe uma cacetada) — Seu Benedito!...

Benedito: Você é safado mesmo, seu Zé das Moças!

Zé das Moças: Seu Benedito!...

Benedito: Agora você qué botá fogo em mim! Eu vou-me embora que não quero matá um aqui.

Música. Zé das Moças pega uma moça, começa a dançar. Benedito se intromete.

Zé das Moças: Nossa Senhora, que esse nego vai querê mesmo!

Benedito dá uma cacetada na moça.

Moça: Ai! Ai! Ai!

Quitéria (entrando): Quem foi que deu na minha fia aqui?

Zé das Moças: Foi Benedito.

Quitéria: Dê em mim, mas não dê na minha fia, cachorro do diabo!

Benedito: Fui eu que dei.

Quitéria: Por que?

Benedito: Ela tá cantando coco mais seu Zé das Moças aqui de mim.

Quitéria: Cantou! Agora se fosse eu é que cantava direito, cachorro do diabo!

Benedito: Que é que você tá entendendo?

Quitéria: Vou chamá meu marido.

Benedito: Chame seu marido, chame quem você quisé, mas aqui se porte direito, viu?

O homem de fora: Ela que é pau duro, não é, Benedito?

Quitéria: Nego mais best... — (Benedito dá-lhe uma paulada) — Ai! Óia, Benedito! — (Benedito dá-lhe mais) — Óia minha bochecha, Benedito!

Balula (aparecendo): Dero na minha mulhé, foi?

O homem de fora: Foi!

Zé das Moças: Agora você dá em mim, seu cabra.

Benedito: Você é home?

Balula: Toda vez que eu faço brincadeira você vem na frente.

Zé das Moças: Você não tem que se metê na minha brincadeira que você é um pouco inxirido.

Benedito: Você disse que nego não dá certo pra dançá com uma moça... Agora apanhou a moça e apanha você.

Zé das Moças: Eu apanho?

O homem de fora: Couro nele, Benedito!

Zé das Moças: Esse nego pensa que eu sou bagaço que apanha pra tudo. (Brigam)

Mãe de Zé das Moças (surgindo): Que é isso aqui? Já é baruio? É baruio, Manuel? [Manuel é o nome do mestre de cerimônias]

O homem de fora: É baruio, é.

Mãe de Zé das Moças: Por que?

O homem de fora: Porque Zé das Moças é safado.

Mãe de Zé das Moças: Meu fio tem andado em tudo fuá, nunca fez encrenca.

Cabo 100 (surgindo): Vamo acabá com isso!

Moça: Socorro, povo! Ai! Ai! Ai! (A pancadaria continua)

Cabo 100: Que é isso aqui?

Balula (apanhando): Ai eu! Ai eu!

O homem de fora: Segura ele, Zé das Moças!

Balula: Minha gente, socorro. Ói o homem puxando a faca!

Mãe de Zé das Moças: Ai minha bochecha!

O homem de fora: Segura ele, Zé das Moças!

Balula: Ói o inspetô, ói o inspetô!

Quitéria: Óia o inspetô, seu safado!

Cabo 100: Óia o capitão, nego safado! Óia o capitão, nego safado! Óia o capitão, nego safado!

Benedito: Quem foi que disse que eu era safado aqui?

O homem de fora: Segura ele! (Corre todo o mundo.Benedito mata Zé das Moças)

Música. Aparece Tira-Figo, para arrancar o fígado de Zé das Moças. Benedito dá-lhe pancadas e ele foge. Logo depois chega Vida-Boa, com um caixão de defunto. Colocam Zé das Moças dentrodo caixão e todos acompanham o enterro. Interlúdio — A orquestra toca e canta:

Feijão queimou
Quero vê fejão queimá
Menina, levanta a saia
Quero vê poeira voá

Acabada a música, volta o Cabo 100.

Cabo 100: Cadê o Benedito?

O homem de fora: Ele saiu.

Cabo 100: Me diga uma coisa: dissero que Benedito botou brincadeira sem tirá licença?

O homem de fora: Tirou.

Cabo 100: Você viu ele tirá licença?

O homem de fora: Eu vi.

Cabo 100: A polícia manda na casa de todo mundo!

O homem de fora: Cabo 100!

Cabo 100: Heim?

O homem de fora: Deixa de brabeza que é milhó.

Cabo 100: Brabeza, não. Botá brincadeira sem tirá licença! Isso é de home ou de cabra safado?

O homem de fora: Ele tem licença dele.

Cabo 100: Tem licença o que! Já viu nego tê licença! (Sai)

Voz do mamulengueiro (para o homem de fora): Ô Manuel, vá onde tá seu Salu e peça duas espoleta e um cartucho de polva.

Dona Sicundina (entrando): Ô, sô, já houve baruio aqui?

O homem de fora: Já.

Dona Sicundina: Dero em Benedito?

Voz no meio do povo: Não! Como é seu nome?

Dona Sicundina: Dona Sicundina, meu fio, eu. (Sai)

Interlúdio — Surge um caboclo que dança e canta:

O caboclo:
Quando eu vim de lá de cima
Que passei no Catolé } bis
Me chamam de caboco
Tocadô de São José } bis
(Sai)

Orquestra, com vozes de dentro:

Eu tenho pena de morrê, deixá Odete }
Eu tenho pena de Odete me deixá }
Eu tenho pena de morrê, deixá o mundo }
Quando eu morrê o mundo pode se acabá } bis

Seu Lapa (aparecendo): Eu vi dizê que Zé Rasgado vem hoje aqui?

O homem de fora: Ele tá pra chegá.

Voz no meio do povo: Como é seu nome?

Seu Lapa: Eu me chamo seu Lapa, purquê moro na Lapa, tenho engenho na Lapa, tenho terra, tenho casa. — (Entra Benedito) — Ói, seu Benedito, eu venho aqui falá com o sinhô ligeiro, logo, depressa. — (Entra a flha do seu Lapa) — Agora o sinhô tem uma função de querê beijá a fia dos outro. Isso é de home ou é de cabra safado? Eu trago minha fia pra essa dança purquê é bom. A gente tem direito de tê duas fias e mexê na dança, purquê com as meninas a gente tendo a fia da gente não mexendo num baile, numa ciranda, numa coisa, nunca se casa, não é, minha fia? E eu andando com minha fia prum baile, pra tudo, não é?... Agora eu vim fazê pra mode se tu é home hoje, pra você beijá essa menina.

Público (em coro): Beija, Benedito!

Seu Lapa: Pra você beijá, cabra safado!

Público (em coro): Beija! Beija!

Seu Lapa: Cadê o home?

Público (em coro): Beija!

Seu Lapa: Cadê o home? Beija que eu quero lhe furá até no caroço do ôio!

Benedito (ao público): Eu beijo?

Público (em coro): Beija! — (Benedito dá um beijo longo e espalhafatoso da filha de seu Lapa)

Seu Lapa: Beijou!... — (Noutro tom) — Minha fia, a senhora se ajunte com home branco, mas não se ajunte com home...

Voz no meio do povo: Mete o quiri [cacete] nele, Benedito! — (Benedito dá-lhe uma pancada)

Seu Lapa: Ai! Quase pegou meu pé. — (Descem)

Música. Surge Limoeiro, cantando:
Choro, choro, choro, choro, choro, choro lá
Chamo Limoeiro, dou na pedra pra quebrá

Limoeiro (ao homem do lado de fora): Cadê o Benedito, não tá, não, Manuel?

O homem de fora: O que?

Limoeiro: Benedito não tá não?

O homem de fora: Tá.

Limoeiro: Pois bem, você diga a ele que Limoeiro teve aqui e tem um negócio com ele. Diz que ele é home, então deu umas pancadas num véio. Deu mode uma moça, não é? Isso não é de home, ele vai preso hoje de toda forma. E então vem um tal de Zé Rasgado aí, viu? Cuidado nele. — (Entra a filha de Limoeiro) — Minha fia, você não venha pra essa dança não, é um conselho qui eu vou lhe dá, José Rasgado vem aí e é muito desordeiro, viu? A senhora vai-se embora, vá pra sua casa, que hoje não é dia de dança, não. (Saem)

Interlúdio — Música

Duas figuras pisando milho e cantando:
Ô-lê, pisa pilão
Fica solto, só entra no chão
Ô-lê, torna a pisá
Ninguém pisa mio que nem seu Lulu
Todo dia pisa não dá pro angu
Ô-lelê, pisa pilão
Ô-lelê, torna a pisá
Ninguém pisa mio que nem sá Maroca
Todo dia pisa não dá uma loca

João Redondo (sobe): Apareça uma moça pra dançá mais eu! — (Entra Isália e começa a dançar com ele. Quando estão dançando, surge Benedito e toma a moça) — Era minha!

Benedito: Não, era minha!

João Redondo: Era minha o quê!

O homem de fora: Que é isso aí, Benedito?

João Redondo: Deixe que eu resolvo cá. Deixe ele metê o pau em mim. — (Benedito sai)

Voz no público: Como é seu nome?

João Redondo: João Redondo. Toquepara seu Redondo dançá com uma menina aqui.

Música. Dança. Aparece o jacu e belisca a moça.

Isália: Ai! Ai! Ai! — (Desaparece)

João Redondo: O passo [pássaro] da mãe de Benedito beliscou a menina. Ai! Ai! — (O pássaro belisca João Redondo)

A mãe de Benedito: Ô Manuel, seu passo beliscou alguém por aí?

O homem de fora: Beliscou seu Redondo.

A mãe de Benedito: Beliscou seu Redondo, foi?

O homem de fora: Foi.

A mãe de Benedito: Ah! Ah! Ah! Eu acho é bom! Ohn! Ohn! Ohn!

O homem de fora: Beliscou seu Redondo e uma moça aí!

A mãe de Benedito: Beliscou seu Redondo! Oba! — (Desaparece)

Música. Surgem vários pares dançando. Aparece Zé Rasgado, de foice, tirando as moças a pulso. Passa a foice pela frente e abraça a moça por detrás, de forma que ele — a foice sustentada pelas duas mãos — imprensa a moça entre a foice e o seu corpo.

Zé Rasgado (dançando com uma moça, no ritmo da música):
Comigo!
Comigo!
Comigo!

Dança e sai. Chega Benedito e toca a dançar com uma das moças. Volta Zé Rasgado, investe contra o par, imprensando a moça entre ele e Benedito.

A moça: Aiiiiii!!!

Quitéria: Tá pegando minha fia por detrás, cachorro do diabo!

Zé Rasgado: Pirua do rabo arrancado!

Balula: A menina já grelou todos três ôios! — (Lutam Benedito e Zé Rasgado. Benedito termina correndo)

Zé Rasgado (canta e dança):
Correu de medo
Correu
Correu de medo

Surge Benedito com uma enorme pistola na mão.

Zé Rasgado: Ô cabra safado! Você correu mesmo e você é safado! — (Mostrando o traseiro) — Atire aqui! Atire! Atire aqui!

Benedito: Seu Zé, eu atiro mesmo.

Zé Rasgado: Atire, cabra safado! Você atira num home com esse cofóide! Safado! Correu e correu... — (Leva uma paulada) — Ói! você não é home não, é bagaço que apanha pra tudo. Você é acostumado a dá em todo mundo, mas você não dá em mim não, cabra safado. Fio da peste! Atira aqui! — (Mostra o traseiro novamente)

Benedito: Já, já, atiro no sinhô.

Zé Rasgado: Atire!

Voz no público: Cuidado pra não negá fogo! — (Benedito sai)

Zé Rasgado: Cadê o nego? Correu de novo. — (Canta)
Correu de medo
Corresse
Com medo de apanhá

Voz de mulher:
Lá vem a barra do dia
Será o dia, será

Benedito volta e luta com Zé Rasgado, encostando-lhe o cano da pistola no olho. Zé escapole e Benedito dá-lhe um tiro, errando. Briga de pau e foice.

Vozes do público: Dá aquela cabeçada nele, Benedito! Mata ele, Zé! Segura ele! — (Benedito abate Zé Rasgado, dando-lhe violentas pancadas nos testículos)

Zé Rasgado: Aí, não! Pelo amor de Deus! Aí, não! — (Morre. Todos fogem, inclusive Benedito. Surge o diabo)

O diabo: Agora tu vais pras profunda!

A alma de Zé Rasgado: Aí qui eu não vou não!

O diabo: Vai e é agora mesmo! (Lutam)

Vozes do público: Diz "cruz", Zé Rasgado! Cruz! Cruz!

O diabo leva a alma de Zé Rasgado. Música.

Joana Traçaia (aparece): Eu me chamo dona Joana Traçaia!

Benedito (aparecendo): Opa, minha sogra, você veio hoje?

Joana Traçaia: Eu vim, Benedito, eu vim. Agora o seguinte: eu trago a minha fia e quero dançá também.

Benedito: Tá danado é isso! — (Começa a alisar Joana Traçaia) — Isso quando era moça...!

Joana Traçaia: Deixe de brincadeira dura, Benedito. Deixa de brincadeira! Ai, meu bucho!

O homem de fora: Ô Benedito!

Benedito: Ei!

O homem de fora: Pega no braço dela!

Benedito: É minha sogra, rapaz. — (Canta)
Sá Maria não ama imbingada
Divagá, meu sinhô, sou casada } bis

Seu Esparra (surgindo): Eu me chamo seu Esparra.

Joana Traçaia: Seu Esparra, tem o seguinte: eu vou dançá mais Benedito, mas cuidado com meu bucho. Ói, quando eu vim pra Benedito você não vem não. Quando eu voltá pra você Benedito não vem, viu Benedito? Qui eu gosto do samba mas não gosto de patifaria.

Benedito: Ô, minha sogra! Isso era bonita! — (Canta)
Sá Maria não ama imbingada
Divagá, meu sinhô, sou casada } bis

Dança.

Joana Traçaia (separando-se): Quando eu vi, seu Benedito, você tá me dando uma imbingada commuita sustança. Eu tou com dezoito mês de gravidez.

Benedito (canta):
Sá Maria não ama imbingada
Divagá, meu sinhô, sou casada

Dança.

Joana Traçaia (afastando-se novamente): Ai!

Benedito: Sustenta o ordão da saia, véia danada!

Joana Traçaia: Aiiii!

Benedito: Ô cachorro da molesta!

O homem de fora: Que foi, Benedito?

Benedito: Ô véia dana da molesta!

O homem de fora: Que foi, Benedito? Que foi que a véia fez?

Benedito: Mijou minha cara!

O homem de fora: Oxente!

Dançam e saem. Aparecem Seu Lapa e a filha.

Seu Lapa: Eu vou pra També. Venha, minha fia, vãobora. Vãobora que já é tarde.

A filha: Vãobora, papai, que é tarde.

O homem de fora: Vai levá quem?

Seu Lapa: Eu vou minha fia curá calô de figo que ela tá doente. Vãobora.

A filha (vendo uma cobra enorme): Papaiii!

Seu Lapa: Que é isso? Que é isso?

A filha: Olhe a cobra, papai.

Seu Lapa: Até outro dia, povo.

A filha (enlaçada pela cobra): Papaiiii!

Seu Lapa: Sustenta!

A filha: Papaiiiiiiii!...

Seu Lapa: Pegou minha menina?

O homem de fora: A cobra engoliu a filha.

Seu Lapa: Pegou minha fia?

O homem de fora: Chame ela.

Seu Lapa: Ô minha fia!...

A filha: Papai!

Seu Lapa: Segura!

A filha: Papai!!!

Seu Lapa: Segura! — (Entra Filomena)

Voz no meio do público: Como é que você se chama?

Filomena: Eu me chamo Filomena.

Voz: Óia a cobra, Filomena.

Filomena: Oi?

Voz: Óia a cobra atrás de tu.

Filomena: Cadê minha menina?

O homem de fora: A cobra carregou.

Filomena: Cadê a menina, seu Lapa?

Seu Lapa: A menina veio mais eu, cheguei aqui, meti o pau, a cobra carregou.

Filomena: Mentira! Você deixou a cobra comê ela.

Seu Lapa: Foi?

Filomena: Foi. E agora você vai na frente.

Seu Lapa: Eu vou nada!

Filomena: Você vai na frente!

Seu Lapa: Vou nada!

Filomena: Você vai na frente, cachorro véio. — (A cobra pega Filomena)

Seu Lapa: Ôi, meu Deus, pegou ela! Ai! Ai! Ai! Pegou minha muié? Minha véia! Uma muié tão boa! Segura!

Filomena: Meu véio, chega, que eu tou agarrada com a cobra!

Seu Lapa: Segura! Eu vou chamá o Benedito que é mió! Benedito!

Benedito: Tou aqui!

Seu Lapa: Acuda que a cobra engoliu minha fia e engoliu minha muié.

Benedito: E você não fez nada, home?

Seu Lapa: E eu pude!

Benedito: Vamo pegá a cobra!

Seu Lapa: Vá, seu Benedito.

Benedito: Vá você na frente!

Seu Lapa: Vou nada!

Benedito: Você vai!

Seu Lapa: Vou nada!

Benedito: Vai no cacete, mas vai! — (Mete-lhe o pau)

Seu Lapa: Ai! Ai! Ai!

Benedito: Anda, infeliz! — (Empurra seu Lapa para junto da cobra, seu Lapa solta um peido e é agarrado pela cobra que desaparece com ele)

Música. Cantam e dançam:
Dono da casa
Quem quisé brincá ciranda
Vai a outra dança
Que ja tem moderna
Que eu perguntei
O nome da cirandeira
Era a vizinha
Lá do pe da serra

Benedito:
E boa noite pro dono da casa
E boa noite pra sua senhora
Ô-lô, ô-lô, quem é que fala?
É Benedito, tá saindo agora

Boa noite, meu povo todo, que Nossa Senhora da Conceição proteja a gente tudo e até outra vez, se Deus quisé.

E boa noite pro dono da casa
E boa noite pra sua senhora
Ô-lô, ô-lô, quem é que fala?
É Benedito, tá saindo agora

 

(Borba Filho, Hermilo. Fisionomia e espírito do mamulengo; o teatro popular do Nordeste. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966. Brasiliana, 332, p.151-170)