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Julho 2009 - Ano XI - nº 126


Sumário

Festança
Coco
Valdemar Valente

Cancioneiro
Maria Borralheira ou a varinha mágica
João José da Silva

Imaginário
O cururu e o urubu
Alceu Maynard Araújo

Colher de Pau
Comidas tradicionais do Piauí
Noé Mendes de Oliveira

Oficina
Jabutis
Alceu Maynard Araújo

Palhoça
Trajes femininos em São Paulo antigamente
Jorge Americano

Panacéia
Das ervas à pemba, os truques de mulher

 

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Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Trajes femininos em São Paulo antigamente

Jorge Americano

Os figurinos vinham da França e traziam mudanças radicais em cada seis meses.

As mangas, estofadas nos ombros, de repente passavam a ser justas nos ombros e estofadas nos punhos. As blusas davam relevo aos seios, de repente achataram-se e puseram panejamento no estômago.

Havia, entretanto, duas constantes no começo do século. Uma era o espartilho devant droit. Era uma armação de fitinhas de aço ou de barbatana, sustentando o tecido elástico de seda, dividido nas costas e na frente e ajustados por um conjunto de furos em que passavam cordões apertados. Qualquer coisa como atilhos de sapatos.

Na parte superior o espartilho vinha até os seios fazendo o papel dos atuais soutinens-gorges. Na parte inferior descia até a virilha.

Toda essa peça tinha por fim forçar a posição da mulher, dar realce aos seios e comprimir o ventre, de modo que o perfil podia ser traçado por uma linha vertical, do seguinte modo: da cintura para cima, o corpo era projetado para a frente da linha e da cintura para baixo era comprimido para trás. Acentuava-se o efeito conforme a variação da moda, por laços, babados, tuyautés nos seios, e pufes ou apanhados atrás, abaixo da cintura. Mais ou menos em 1904 desapareceram os devant droit. Foi por ocasião de uma das viagens que minha madrinha fez à Europa.

Outra constante do vestuário feminino no começo do século eram as saias de arrastar. Toda a senhora usava, em toda e qualquer ocasião. Em visita, ou na rua para fazer compras.

Como a cauda não devesse arrastar, a senhora apanhava a saia por trás com a mão, mais ou menos à altura da coxa, e mantinha-a sempre segura, num gesto elegante, que evitava que a cauda fizesse a varredura das ruas.

Além de ter que segurar a saia, toda senhora devia trazer consigo, ou sombrinha ou guarda-chuva, uma pequena bolsa para dinheiro, e o lenço, sempre na mão por não caber na bolsinha. Pendurado por uma corrente de ouro, ao pescoço, o lorgnon, espécie de óculos com cabo pelo qual era levantado à altura dos olhos para ver as pessoas e as vitrines das lojas e deixava-se tombar negligentemente.

E mais uma corrente de ouro ao pescoço, prendendo o leque de madrepérola e plumas brancas ou de madrepérola e renda branca, ou de tartaruga e renda, ou de seda ou pergaminho pintado, sustentado em varetas de marfim, adequados, conforme a hipótese, a solenidade, baile, visita ou passeio, e também à idade e à condição de viúva, casada ou solteira.

Os leques de varetas de osso ou barbatanas, e papel estampado, assim como as ventarolas japonesas com o vulcão Fujiyama, eram para gente pobre. Pretos, para viúvas, cor-de-rosa para mocinhas.

As sombrinhas eram outra instituição. Umas, de baptiste bordada em branco, com mais furos do que sombra. Outras, de seda branca ou preta, tendo, pintadas a guache dissolvida em "fiel" para não esparramar a tinta, ramos de margaridas ou eglantinas. Às vezes, ao invés de pintura, eram bordadas em seda. Eram um pouco extravagantes as sombrinhas tecidas em ráfia.

Havia também as feitas em rendas de Bruxelas ou renda irlandesa.

As de varetas de bambu e cobertura de papel estampado, com o vulcão Fujiyama, da loja Japonesa, eram para mocinhas pobres.

Em casa, as senhoras vestiam saia rodada escura, com corte ao lado da "maneira", que era o lugar traseiro ou lateral, por onde a saia abotoava, no ajuste da cintura.

Esse corte dava acesso à mão para outra saia interna, também escura, em que havia um bolso, contendo lenço, caderninho e lápis, e os molhos de chaves da despensa, das gavetas de jóias e de dinheiro, dos guarda-louças, das gavetas de talheres e roupa branca e dos armários de vestir.

Havia por baixo uma ou duas saias brancas, com babados, rendas e bordados.

Eram percebidas por ocasião de algum movimento brusco.

Ainda abaixo usavam calças de lingerie. Desciam até as canelas e terminavam por "tiras bordadas", rendas, ou babados engomados em tuyauté.

Penso que isto é segredo de morte. Mas os dessous íntimos eram assinalados no rol da lavadeira e reconhecidos por ocasião da entrega da roupa e conferência do rol.

Da cintura para cima, a primeira cobertura era a camisa (também segredo de morte) partindo da clavícula e descendo aos joelhos. Por cima da camisa o espartilho, que tinha função dupla de soutien-gorge e compressão da cintura.

Acima um "corpinho".

Afinal a matinné. Era um casaquinho folgado, de fazenda leve, ajustado por cinto da mesma fazenda, costurado atrás e enlaçado na frente.

A senhora vai sair. Tem trinta e cinco anos. A gola é sustentada por barbatanas altas. Compõe-se com todos os apetrechos descritos atrás (bolsa, guarda-chuva, leque, luvas, lorgnon, boá etc.) escolhe um toucado (pequeno chapéu escuro, ajustado à cabeça, com uma florzinha) e põe sobre os ombros, uma capinha discreta, de casimira ou tricô. Apanha a cauda da saia, recomenda alguma coisa à criada e vai. Está segura de que não ouvirá gracejos na rua.

A cauda desapareceu. Vieram as saias troteuses. Redondas e folgadas, distavam três centímetros do solo. No movimento normal via-se o pé inteiro. Num movimento brusco, via-se a botinha de cano alto. Num estabanamento injustificável, via-se, acima, a meia de seda preta. O penteado usual das meninas era uma ou duas tranças com laços de fitas, ou cabelo cacheado, espalhado às costas, quando não, ajustado com uma fita. Iam à escola com chapéu de palha, de fita azul. Em visita ou passeio usavam charlotte, chapéu do feitio de um cuscuzeiro). As mocinhas usavam também chapéus em palha da Itália com espigas de trigo. Arranjavam os cabelos em catogan. Uma trança grossa, redobrada e tresdobrada, tão curta quanto possível, apertada por um laço de fita. Alguma coisa como a cauda do cavalo da estátua de Joanna d'Arc na Place des Piramides, em Paris. Quando já moças, levantavam o cabelo, e eram admitidas a usar aigrette no chapéu, mitaines e saia entravée, que começou a aparecer em 1910 ou 1912. E usavam botinhas. Nos bailes, as meias eram de seda branca, e os sapatos em cetim da cor dos vestidos.

 

(Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo 1895-1915. São Paulo, Edição Saraiva, 1957)

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