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Julho 2009 - Ano XI - nº 126


Sumário

Festança
Coco
Valdemar Valente

Cancioneiro
Maria Borralheira ou a varinha mágica
João José da Silva

Imaginário
O cururu e o urubu
Alceu Maynard Araújo

Colher de Pau
Comidas tradicionais do Piauí
Noé Mendes de Oliveira

Oficina
Jabutis
Alceu Maynard Araújo

Palhoça
Trajes femininos em São Paulo antigamente
Jorge Americano

Panacéia
Das ervas à pemba, os truques de mulher

 

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O cururu e o urubu

Alceu Maynard Araújo

Era uma vez um sapo muito esperto e um urubu que sabia tocar viola muito bem.

Naquele tempo faziam muitas festanças. Houve uma festa no céu e foram convidados todos os bichos cá da terra.

O urubu, violeiro afamado, não faltaria, e... as danças dependiam de sua marcação.

O urubu que é um bicho muito porco e vive com os pés sempre sujos, foi lavá-los na lagoa e aproveitar para tomar um gole de água quando avista um sapo-untanha dorme-dormindo.

– Como é, compadre cururu. – disse o urubu – Você não vai à festa do céu?

Em nheengatu, meu filho, língua dos nossos bugres, cururu é o nome do sapo. O urubu só aprendeu a língua dos índios, a nossa ainda não.

O sapo, sendo interpelado, abriu bem os olhos e disse:

– Irei logo, estava tirando uma soneca para poder me divertir a noite toda. Tomei um banho, quase me afoguei, por isso estou aqui me enxugando ao sol, descansando para a função, quero bater o pé até o sol raiar.

Enquanto o urubu se dessendentava, o sapo, lampeiro e sorrateiramente entra na viola do seu compadre. O crocitador apanha a sua viola e alcandora-se em demanda da festa. Voou, voou, voou...

Em chegando ao céu é recebido com ruidosa manifestação pela bicharada que lá por cima, já se achava. Os bichos estavam-no esperando para dar início à função, ao cateretê.

Antes, porém, convidaram-no para tomar um "lava-goela", um quentão, deixando sua viola num canto do salão. O sapo safou-se da viola sem ser visto por ninguém enquanto todos estavam distraídos com a recepção ao violeiro. Saiu pula-pulando chegando primeiro do que todos na "ramada" (barraquinha dos comes e bebes).

Efusivo recebeu o compadre urubu:

– Ué compadre cururu, já por aqui?

Aqui pra lhe servir, meu compadre urubu. Tome esta, que já faz tempo que estamos esperando pelas quadrilhas bem marcadas, que só você, meu compadre sabe marcar... Em cateretê, nem se pensou, faltando viola... eu nem deixei que o sanfoneiro começasse as quadrilhas sem você. Contei pra bicharada que o meu compadre estava bebendo água na lagoa e que viria logo.

O urubu virou a tigelinha de quentão e estalou a língua.

A função prolongou-se até ao despontar da manhã. O cururu fingiu-se de cansado, de pernas bambas, passou ginga-gingando na frente do compadre, foi contando que iria dormir mais cedo. Bocejando desapareceu.

Finda a função, o urubu, esfaimado como sempre, volta para dar uma vistoria na ramada e na cozinha.

O urubu andando com aquele passo de quem está cumprimentando, despediu-se da bicharada, apanhou a viola, enfiou-a no saco e regressa à terra. Falou com seus botões – ele estava vestido com uma linda jaqueta: – mas que viola pesada! Toquei a noite toda e não estava assim. Será que estou muito cansado?

Voou mais um pouco, procurou averiguar. Dá uma sacudidela e eis que vê lá dentro o cururu refestelado.

– É você que está ai, seu malandro? Pois de agora em diante não me logrará mais, vou lhe pregar uma peça.

Vira a boca da viola para baixo, procura desvencilhar-se do intruso.

O sapo, com os olhos arregalados de medo, vendo que ia se esborrachar no chão, gritou:

– Me jogue em cima de uma pedra, não me atire na água que eu me afogo.

O urubu ficou branco de raiva, olha e vê pouco distante ainda uma lagoa, e pensa lá com seus botões: "Este trapaceiro sem-vergonha me paga, vou dar-lhe uma lição de mestre".

Voa até à lagoa e zás, derruba seu compadre cururu.

Crocitando e com os olhos chispando de raiva diz:

– Pois você agora me paga, seu cara feia, agora o afogo!

E assim atirou o cururu à lagoa.

Pensou que tinha se vingado do cururu.

E o espertalhão do cururu, lá do fundo da lagoa saiu rindo e dizendo: – Enganei o bobo na casca de um ovo.

Não presta ser vingativo, o urubu não conseguiu o que desejava.

E foi assim que o cururu, foi à festa do céu embarcado na viola do urubu.

(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1964, v.1)

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