Bom leitor te apresento
uma história de primeira
que passou-se antigamente
numa cidade estrangeira
com uma moça conhecida
por Maria Borralheira
Maria era filha única
de Joana e de Vicente
com 16 anos ela
era uma jovem decente
e era pelos seus pais
amada extremosamente
Vicente um dia saiu
para uma feira que havia
perto de sua residência
então nesse mesmo dia
ele comprou uma vaca
e ofertou a Maria
Maria ficou contente
beijou seu pai estimado
pegou a sua vaquinha
e foi botar no cercado
e começou tratar dela
com muito zelo cuidado
Assim Maria ficou
com sua vaquinha bela
tratando com muito gosto
e nunca maltratou ela
por isto a vaca também
apreciava a donzela
Porém a mãe de Maria
morreu quase de repente
Vicente o pai da donzela
ficou muito descontente
pela morte da esposa
chorou que ficou doente
Quando já fazia um ano
que a mãe da moça morreu
de casar-se novamente
logo Vicente entendeu
arrumou uma viúva
e celebrou-se o himeneu
Vicente não conhecia
da velha todos sinais
casou com ela pensando
que ia viver em paz
mas dessa vez encontrou-se
com a mãe de satanás
Chamava-se Damiana
com o olho esquerdo furado
e tinha mais uma filha
doente de quarto inchado
chamava-se Filomena
parecia um trem virado
Já Maria parecia
ser filha duma rainha
por isto a madrasta dela
muita raiva dela tinha
botou a filha na sala
e Maria na cozinha
Assim Maria ficou
servindo de cozinheira
e Damiana dizendo
tu és minha piniqueira
e doravante teu nome
é Maria Borralheira
Com isso a pobre Maria
ficou sem consolação
passava a noite chorando
na mais triste solidão
sua coberta era cinza
sua cama era o fogão
Uma vez Maria foi
no amanhecer do dia
amarrar sua vaquinha
numa campina que havia
chamada campos das flores
um jardim de poesia
Quando Maria voltou
quase entra na macaca
porque Damiana estava
pior do que jararaca
só por Maria ter ido
tratar primeiro da vaca
E foi dizendo a Maria
– Saíste de madrugada
e foste amarrar a vaca
não te importaste com nada
nem que ela fosse uma santa
não era tão bem tratada
Foste amarrar a vaca
pensavas que eu não sabia
mas eu vi quando saíste
antes de amanhecer o dia
tu só melhoras se eu der-te
cinco ou seis pisas por dia
Mas deixa está que o teu lombo
há de me pagar um dia
disse isto e retirou-se
que falar mais não podia
mas jurou que dava fim
à vaquinha de Maria
E um dia Damiana
botou sem ter acanhez
molambo em cima do bucho
e disse com rapidez
a Vicente que estava
em estado de gravidez
E disse: querido esposo
eu estou sem alegria
porque desejei pedir-te
uma coisa outro dia
foi um pedaço de carne
da vaquinha de Maria
Vicente respondeu: não
isto não me maravilha
matar aquela vaquinha
é o que não acho trilha
compro outra vaca e mato
mas não a da minha filha
Damiana respondeu
- desse jeito eu não combino
só quero da de Maria
se não eu perco o menino
e você por ser o pai
ficará como assassino
Vicente disse: mulher
mas eu não quero dar fim
à vaquinha de Maria
este negócio está ruim
disse a velha: pois o crime
não fica em cima de mim
Vicente disse: Maria
deste negócio não gosta
disse a velha: tu não queres
aceitar minha proposta
então o pecado fica
em cima de tua costa
Vicente viu-se apertado
e logo de manhãzinha
chamou Maria e lhe disse
– Vou matar tua vaquinha
embora faça isto
bem contra a vontade minha
Maria ouvindo esta voz
saiu em toda carreira
prá onde estava a vaquinha
sua leal companheira
vendo a vaca ela chorando
lhe falou desta maneira
– Maria vai me dizendo
porque está a chorar
Maria disse: é porque
o meu pai vai te matar
pois minha madrasta quer
da tua carne almoçar
Ela disse que está grávida
e desejou a comer
um taco de tua carne
prá criança não morrer
e eu estou muito triste
por não poder te valer
A vaca disse: Maria
contra isto nada diga
porque a tua madrasta
queima mais do que urtiga
e a criança que ela tem
é molambo na barriga
Mas não tem nada, Maria
deixa teu pai me matar
só peço que o meu fato
você mesmo vá tratar
e não deixe outra pessoa
dele se apoderar
E uma tripa que tem
perto do meu coração
você enfie uma vara
mas com toda precaução
pois você com essa vara
terá minha proteção
É a vara de condão
que vou prá você deixar
essa vara lhe protege
no que você desejar
tanto faz estar na terra
como na água ou no ar
Você leve uma panela
quando seguir para o rio
e lá cozinhe os miúdos
porque virão dum baixio
três homens pedindo esmola
morrendo de fome e frio
Você dê comer a eles
porque nenhum é ruim
faça como eu estou dizendo
confie em Deus e em mim
que a velha Damiana
come salgado no fim
Tudo que a vaca disse
Maria obedeceu
Vicente matou a vaca
e Maria esclareceu
– O fato de minha vaca
quem vai tratá-la sou eu
A madrasta de Maria
disse com frase grosseira
– Eu sou quem não pego nele
que dentro só tem porqueira
isto só assenta mesmo
prá Maria Borralheira
Maria pegou o fato
com fé em Deus verdadeiro
seguiu direto ao rio
de pensamento certeiro
levando uma panela
feijão, farinha e tempero
Assim que chegou no rio
abriu o fato e tirou
a tripa que a vaquinha
a ela recomendou
enfiou numa varinha
depois de seca guardou
Depois partiu os miúdos
preparou logo um guisado
quando o comer estava pronto
foi chegando um aleijado
lhe pedindo esmola
por Jesus sacramentado
Depois chegaram mais dois
até que completou três
Maria disse: eu vou
botar comer prá vocês
ali preparou três pratos
de comer com rapidez
Os penitentes comeram
até encher a barriga
teve um que comeu tanto
que sentiu ânsia e fadiga
e Maria perguntando
– O que quiser mais me diga
Responderam: não senhora
Deus é quem lhe pagará
os seus favores prestados
e neles se falará
na mansão subdourada
do trono de Jeová
Depois cada um saiu
bem contente e satisfeito
Maria também ficou
com regozijo no peito
depois viu que a panela
estava do mesmo jeito
Nisso Maria avistou
do rio do outro lado
dois meninos numa casa
um em pé outro sentado
tudo chorando com fome
no mais miserável estado
Maria vendo eles tristes
dirigiu-se para lá
chegando foi perguntando
– Meninos o que é que há?
e a mamãe de vocês
vão dizendo aonde está
O mais velho respondeu
muito fraco e descontente
– Mamãe saiu de manhã
cansada, magra e doente
foi para o rio pegar peixe
prá dar de comer a gente
Maria deu aos meninos
muita carne com feijão
e depois guardou o resto
da comida no fogão
e chegou atrás de casa
se escondeu no oitão
Nisso a mãe dos meninos
chegou apressadamente
e os meninos disseram
a ela rapidamente
– Aqui chegou uma moça
e deu de comer a gente
E deixou para a senhora
lá em cima do fogão
uma panela com carne
e um prato de feijão
a mulher disse: ó que moça
de bondoso coração
Deus queira que ela receba
do santo trono bendito
a santa benção de Deus
lhe venha do infinito
fazer com que ela case
com um príncipe rico e bonito
Maria ouviu tudo aquilo
e depois se retirou
para onde estava a madrasta
chegando em casa guardou
a varinha de condão
e na cozinha ficou
Porém nesse tempo houve
na Capital do País
uma festa gigantesca
assim a história diz
em honra ao príncipe Gervásio
filho de el rei D. Luiz
Eram três noites de festas
para o príncipe procurar
a princesa mais bonita
para com ela casar
e depois do casamento
conta do trono tomar
A madrasta de Maria
foi a essa festa bela
com o marido e a filha
consigo pensava ela
que o grande príncipe Gervásio
casasse com a filha dela
Maria ficou sozinha
lá por cima do fogão
depois ela foi buscar
a varinha do condão
chegou no meio do terreiro
falou por esta razão
– Minha vara de condão
trazei-me com ligeireza
um vestido cor dos matos
com toda sua beleza
com ornamento que eu fique
parecendo uma princesa
E mais uma carruagem
prá me levar sem demora
na corte de D. Luiz
em menos de meia hora
chegou tudo ela aprontou-se
num instante foi embora
Maria chegou na festa
parecendo um paraíso
o príncipe quando avistou-a
fez prá ela um ar de riso
pela beleza da jovem
quase fica sem juízo
O príncipe quis chegar perto
mas ela não consentiu
montou-se na carruagem
prá casa se dirigiu
foi igualmente a fumaça
que nos ares sumiu
A madrasta de Maria
voltou muito descontente
se lembrando da donzela
e de seu traje decente
no outro dia arrumou-se
foi à festa novamente
Quando tudo foi embora
Maria tornou pegar
na varinha e disse assim
– Quero outra vez me trajar
com um vestido com as cores
dos peixes que tem no mar
Quero um sapato de prata
e uma linda carruagem
tudo de prata também
chegou com toda embalagem
Maria vestiu-se bem
e seguiu sua viagem
Maria chegou na festa
parecendo um céu aberto
o príncipe quando avistou-a
foi se chegando prá perto
mas Maria retirou-se
ficou a festa um deserto
A madrasta de Maria
voltou como um inimigo
em casa fazendo crítica
disse: Maria eu te digo
vi na festa uma princesa
se parecendo contigo
Disse Maria: isso é moça
de alguma corte estrangeira
e se parecer comigo?
parece até brincadeira
eu sendo uma nojenta
além disto borralheira?
A madrasta de Maria
foi à festa a última vez
Maria se vendo só
pegou com bem rapidez
na varinha de condão
e outro pedido fez
Minha vara de condão
trazei prá mim um chapéu
e dois sapatos de ouro
e um sublimado véu
e um vestido que eu tenha
todas estrelas do céu
E mais uma carruagem
prá eu ir a vez terceira
à festa de D. Luiz
por ser a vez derradeira
quando Maria deu fé
chegou tudo na carreira
Maria quando aprontou-se
ficou igualmente um lírio
e quando chegou na festa
o príncipe teve um delírio
pois Maria parecia
um anjo do céu empírio
O príncipe Gervásio pode
tirar ali sem demora
um sapato de Maria
mas ela na mesma hora
montou-se na carruagem
retirou-se foi embora
Ele botou-se prá lá
chegando tudo contou
Damiana trouxe a filha
e o sapato experimentou
quase desgraça o sapato
porém o pé não entrou
O príncipe disse: a senhora
só tem uma moça então
Damiana disse ainda
tem outra lá no fogão
mas essa não vale nada
parece a noiva do cão
Mas nessa hora Maria
chegou com todo ornamento
e na sala calçou sorrindo
o sapato de momento
deu tão certo no pé dela
que só cangalha em jumento
O príncipe ficou suspenso
porém no mesmo momento
levou Maria prá corte
com grande acompanhamento
e no outro dia à tarde
celebrou-se o casamento
A madrasta de Maria
ficou com grande destroço
vendo Maria casar
com um príncipe rico e moço
saltou de cima da casa
caiu quebrou o pescoço
Fim