Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Julho 2008 - Ano X - nº 114


Sumário

Festança
A renascença do folclore

Cancioneiro
O velho da praia

Imaginário
A mulher do piolho
Hildegardes Viana

Colher de Pau
Comidas e bebidas de santo

Oficina
As rendas e redes do Ceará
Sérgio D. T. Macedo

Palhoça
Cobra mamadeira
Francisco Pereira da Silva

Panacéia
Agricultura popular
Alice Inês Silva Merheb

 

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Agricultura popular

Alice Inês Silva Merheb

Os povos agrícolas cercaram sempre suas atividades de gestos e rituais; festas cíclicas coincidindo com o plantio e a colheita visando assegurar as boas graças dos espíritos benfazejos. Muitos desses rituais e festas pagãs foram posteriormente assimilados e evidentemente modificados pelo cristianismo. Ritos de entrada da primavera coincidindo com a Páscoa, festas juninas (na Europa) com a entrada do verão etc.

Muitos gestos e interdições, não assimilados, persistem ainda. Manifestam-se principalmente no "faz mal" que cercam várias etapas da nossa vida, notadamente nos chamados "ritos de passagem". Essa é a designação proposta por Van Gennep para "todas essas cerimônias que marcam a transição de um estágio a outro, ou de uma etapa a outra" (nascimento, puberdade, casamento, morte, atividades rurais como o plantio e a colheita etc.)

Em nossa região na panha do milho, na catação de café, no corte da cana persiste o costume de levar o último ramo, enfeitando o carro de boi ou o caminhão, para que a colheita do outro ano seja propícia.

Esse gesto milenar é repetido em várias partes do mundo e visa assegurar, de um ano para outro, "o poder fecundante e protetor da Terra-Mãe" (Van Gennep. O Folclore, p.133).

Até o dia 31 de dezembro toda a roça já deve estar pronta. "Todos querem passar o São Tomé no limpo ". Para que não se passe o Natal com a roça no mato costumam organizar mutirão. Ninguém se nega a participar do adjutório e o beneficiado retribui na medida de suas posses: um armoço, um café. Mas há os que se descuidam ou não querem a ajuda e são alvos de brincadeiras.

Está desaparecendo o João do Mato. Consistia em vestir um homem todo de folhas, que saía de madrugadinha com todos os vizinhos cantarolando:

Juão du Matu ficô sem muié
Até para o ano se Deus quisé.

Em outros lugares cantava-se assim:

Juão du Matu chegô
Nem café ele tomô

Persiste ainda o costume de "pôr judas na roça de quem num tá com ela capinada" e há quem diga fazendo chacota com o dono:

"Uai, Juão du Matu comprô sua roça?"

A respeito deste disfarce com folhas, Edison Carneiro (Dinâmica do folclore) cita o bicho foiará presente em bumbas nordestinos, o que ele aproxima de Ossain (Ossãe) a divindade das folhas do ritual nagô. Lembra também "o gênio da vegetação das árvores frutíferas" usado em antigos ritos de fecundidade, citado por Van Gennep.

Muitas crendices cercam a faina da roça. Antes lembremos a distinção:

"Roça é de milho e feijão. Horta é de verdura. Chacra é de cana, café e abacaxi. O lugá pode sê igual, um siguidu do otro. As prantas e o numi é qui é deferente."

O plantio e a colheita

Abacaxi leva para dar o mesmo tanto de ano que o tanto de enxada que se der para plantar.

Cará dá a batata do tamanho da cova onde foi plantado.

Amendoim, antes de plantar, joga-se a casca na encruzilhada para dar muito.

Leva-se o milho na casca de tatu para o tatu não atacar o milharal.

Não se deve contar os grãos de milhos antes de jogar na cova que não nasce.

Apontar para a flor da abóbora com o dedo, ele murcha e cai. O mesmo acontece com frutinhas, botões de flores, etc.

Observamos aqui o tabu que cerca a contagem, a força mágica dos números crescentes e decrescentes. (Uma das mais conhecidas aqui é a benzeção contra a bicheira que diz: Bicheira mardita, assim como serviçu de dumingo um dia santo num leva ninguém ediante, ediante cê num há di ir. Cê há di caí de 9 a 9, de 8 a 8, de 7 a 7 etc.) Interdições como estas: apontar estrelas com o dedo faz nascer verruga, "faz mal contar os peixes quando está pescando. Não pesca mais nenhum, etc."

Quiabo a gente planta agachado, porque ele só dá quando o pé está da altura de quem plantou.

Arruda a gente deve plantar em lugar que ela ouve gordura fritar.

Não pode pôr esterco em cana que ela dá salgada.

Quem está arrancando mandioca não pode gemer que ela amarga.

Feijão é uma colheita fácil porque só precisa de três águas: uma para nascer, outra pra dar flor, outra pra cozinhar.

Bom pra plantar é na lua cheia. Dá muito.

Tirar taquara na lua nova dá caruncho. Lua nova é muito prissiguida.

Laranja que dá frutos azedos ou não dá frutos, bate três varadas nela no dia de São João."

Este é exemplo de magia de contato, diferente da magia simpática de que já falamos. Nesta, a imitação; naquela a contaminação. Magia de contato também observamos nessa prática:

Mamão quando não quer dar frutos, a gente manda uma dona grávida dar três abraços nele.

Observamos mais vivamente nesta a idéia de transmissão da força vital, da fecundidade.

Não à toa que, entre os povos primitivos, maternidade e agricultura sempre estiveram associados. Kaj Birket-Smith cita que tribos na Indonésia cercam o arroz em flor de tabus e interdições (não se pode falar alto, falar em demônios ou nos inimigos) semelhante aos que cercam a gestante visando assegurar-lhe um filho sem defeitos.

Natural que seja cercado dos maiores cuidados o período de gestação que assegura ao homem a sua continuidade. Pela possibilidade de perpetuação da espécie, aos olhos do povo, a gravidez confere à mulher poderes especiais:

Uma pessoa ofendida de cobra não pode ser vista por uma mulher grávida. A vida latente que a gestante traz em si a dota de tal força que a sua simples aproximação aumentaria em muito a virulência do veneno.

Essa mesma força, esse mesmo poder, é usado então pelo povo, para restituir à planta o poder fecundador que lhe fora negado pela Terra-Mãe.

Julho de 1973

(Merheb, Alice Inês Silva. "Agricultura popular". Jornal do Povo. Ponte Nova, 19 de agosto de 1973)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso