No meio da imensa população zoológica freqüentadora do folclore brasileiro se encontra a serpente que nele possui, porventura, lugar dos mais destacados. Aparece na crendice, nos causos, e estórias várias.
É o folclore uma ciência (ou disciplina) perfeitamente utilizável na educação. Tem, no entanto, uma face sombria que não convém referida em jornal como este: oficialmente editado por uma unidade escolar do ensino médio.
Mas, consoante à própria sabedoria popular, há casos que podem mais do que a lei...
Por isso eu conto o caso. Aqui no Instituto da Educação Coronel João Cursino surgiu democrática e respeitosa pendenga entre uma jovem do Curso de Formação de Professores e a distinta mestra de biologia, professora Zélia Ortiz.
Por causa da serpente: eterno símbolo do desentendimento...
É velha crença e revelha nos meios rurais brasileiros que a cobra costuma furtar o leite das crianças de peito. Basta ouvir choro de menino novo, passa o bicho a rondar a casa e, pelas calada da noite, assobe na cama da mulher que está dando de mamar, bota a ponta do rabo na boca do desinfeliz menino, que fica desnutrido enquanto ela chupa delicadamente os mamilos da lactante. Cheia a comprida pança, retira-se de mansinho o ofídio, deixando a criança com fome e a mulher na fiúza de haver dado de mamar ao filho.
A normalista diz (com razão que a gente compreende) que na fazenda do pai dela estas coisas acontecem. A professora (moça da ciência dos livros) afiança, por seu turno, que isso não é possível acontecer.
E de fato, à luz da ciência, não é.
O escritor paulista Manuel Rodrigues Ferreira (A Gazeta, 13 de maio de 1961, p.12) transcreve de um livro publicado por Joaquim Ferreira Moutinho, em São Paulo, em 1869, intitulado Notícia sobre a província de Mato Grosso, a seguinte passagem:
"Vem a pelo narrar mais um fato que teve lugar em Cuiabá.
Uma mulher que amamentava uma criança, conheceu que esta emagrecia gradualmente, sem que pudesse atinar com a causa de seu definhamento.
Casualmente um dia, descobriu se que uma jibóia habitava um buraco próximo ao leito da ama. Todas as noites deixava o seu esconderijo e, subindo o leito afastava o peito da boca da criança, onde introduzia a ponta da cauda e sugava depois todo o leite.
Morta esta serpente, em uma madrugada encontrou-se grande quantidade de leite no seu ventre.
A criança desde então começou a engordar".
Terminada a transcrição, o doutor Manuel Rodrigues Ferreira, fez o seguinte comentário: "Já se escreveu suficientemente para demonstrar que as serpentes não podem sugar, porque não têm lábios.
Para haver sucção, os lábios devem adaptar-se perfeitamente. E a boca da serpente é rígida. Além disso, também a forma de sua língua não permite realizar a sucção. Por outro lado, toda serpente, depois de morta, mostra um líquido branco no seu ventre; é proveniente dos ovários e tem por finalidade construir a casca dos seus ovos. Enfim, as serpentes não são mamíferas. E além disso, não são animais dotados de inteligência, de raciocínio, para na calada da noite, enganar as crianças, dando-lhes os rabos para sugarem".
Karol Lenko, entomologista e falclorólogo, tem escarafunchado este país nos seus mais afastados cafundós. Em artigo para a A Gazeta, de São Paulo (20 de maio de 1961), a propósito do trabalho do já referido engenheiro escritor Manuel Rodrigues Ferreira, ele aponta como documento mais remoto que alude a essa crença a História do Brasil, de frei Vicente do Salvador, obra que abarca um período que vai do descobrimento até 1627.
Para não alongar estas notas, deixo de contar estórias e indicar bibliografia sobre o assunto. Reporto-me ao escrito de Karol Lenko para utilizar uma citação que ele faz de Renan; "É mais difícil impedir um homem de crer, do que fazê-lo crer".
Um professor está no direito, e mesmo no dever, de explicar a seus discípulos que cobra não mama. Entretanto, daqueles que verdadeiramente crêem, o mais que poderá alcançar é um respeitoso silêncio... Coelho Neto certa vez disse: "A ciência ri da crendice, mas não a destrói".
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