No curioso e pitoresco Mercado de Fortaleza as vendedoras de rendas e bordados primorosos quase atacam os visitantes, procurando colocar a sua mercadoria bonita.
Os tempos estão difíceis, o dinheiro anda curto e um freguês é mais disputado do que mulher em campo de prisioneiros.
No entanto – santo Deus! – como são de preço ínfimo as belas toalhas e peças de vestuário feminino oferecidas à venda!
Qualquer cédula de dez cruzeiros compra uma bonita toalha bordada e por sete a gente adquire um brinde para uma dama –- uma camisola com florzinhas coloridas.
É na praia ou no sertão que são fabricadas essas bonitas rendas e esses trabalhos bordados. Mulheres de todas as idades, diante dos bastidores diante das mesas. Pito na boca, as mais velhas, cigarro as mais jovens, vão realizando o labor paciente.
Os dedos ágeis fazem deslizar bilros e correr agulhas. E vão surgindo os desenhos.
Segundo parece, vieram da ilha da Madeira as primeiras mestras de rendas que o Brasil conheceu, discípulas, por sua vez, das famosas rendeiras de Puy, na França. Ou terão vindo mesmo do Portugal continental? Bem, que o digam os especialistas.
Fazem-se, é certo rendas igualmente belas em outras partes do país. Em Santa Catarina, por exemplo. As rendas doNordeste, porém especialmente as do Ceará, são, em nossa opinião, mais trabalhadas. Como diz Leite e Oiticica em erudito trabalho, "com certeza o Ceará, de todos os estados nordestinos é o que contribui com a maior quota da produção de renda".
Na praia de Mucuripe siá Maria Rocha, nossa velha amiga, enquanto seus dedos de 73 anos de vida manejam os rolinhos de madeira, vai nos dizendo que faz renda desde os quinze e que "essa moçada de hoje perdeu a receita".
Mas achamos que siá Maria está exagerando pois ali bem perto, bem junto das jangadas de velas arriadas, vemos meninas, moças trabalhando com entusiasmo, com o mesmo afinco daqueles velhos tempos do cangaço em que foram imortalizadas pela canção dos cabras:
Oiá muié rendeira,
Oiá muié rendá...
O cangaceiro, aliás, fez poesia. Poesia curiosa, pitoresca à espera de quem prossiga no seu estudo iniciado pelo mestre Luís da Câmara Cascudo.
Uma dessas poesias de cangaceiro tem os seguintes versos com gosto de sertão:
"Quando inscurece
O sertão é mais bunito que o má.
Como bate o coração
Si de noite faz luá!"
Cangaceiros e beatos
O sertão continua sendo uma terra de misticismo intenso, como aliás, quase ousamos dizer, todo o Nordeste de nossa terra.
Nesse particular o sertão é o mesmo das velhas andanças de Antônio Conselheiro, chefe da grande guerra que foi Canudos, ou do capitão Virgulino Lampião que dominou cidades e despertou paixões, apesar de feio como o tinhoso. E figuras como a do padre Cícero Romão Batista, o padim Ciço – continuam presentes nos corações dos crentes que acendem velhas em seu louvor e lhes fazem promessas e pedidos.
O cangaço, hoje extinto, que marcou profundamente certa fase da vida nordestina, foi o resultado de injustiças sociais, foi, antes de tudo, um fenômeno social. O homem tornou-se cangaceiro para vingar uma afronta, uma injúria. A revolta, a indignação, a dor orientou seus passos.
Na Canindé, a terceira grande cidade religiosa do Brasil (as duas outras são Congonhas do Campo e Bom Jesus da Lapa em nossa opinião), Francelino que foi cabra de Corisco, cangaceiro que deixou nome na história do sertão, nos dizia, há coisa de dois anos:
"Pois é cumu lhe digo. Intrei pro cangaço quando tinha quinze anos pra vingá a morte do meu véio, qui mataro no furmigueiro".
E diante do nosso ar de espanto explicou que seu pai havia levado violenta surra por ordem de um potentado que contrariara. Em seguida, amarrado, sangrando, foi colocado sobre um formigueiro. A saúva completou a obra da maldade humana.
Capítulo das redes
Companheira inseparável do sertanejo, que nasce, vive e morre no seu interior macio, a rede é anterior ao descobrimento; constituía a índios tupis e foi Pedro Vaz de Caminha que primeiro lhe deu aquela designação de rede porque a achou semelhante às redes de pescar.
Perto de 380 fábricas localizadas no norte fabricam anualmente 650.000 redes de malha, algodão ou linha. Nas capitais nordestinas especialmente Fortaleza e Recife, são vendidas nas ruas, em várias esquinas.
Existem também, as que são produto do artesanato, muito trabalhadas, cheias de franjas, primorosamente decoradas em cores vistosas, até mesmo com cordões de seda.
Nas velhas casas grandes dos engenhos, a rede amarrada na varanda foi um símbolo de poder senhorial. Era um autêntico trono no qual o potentado comandava as suas terras, os seus escravos, os seus subalternos.
Mestre Gilberto Freire, muito de nosso respeito e estima, chega a dizer que a vida do senhor do engenho nordestino, era uma "vida de rede".
"Rede parada com o senhor descansando dormindo, cochilando. Rede andando com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes e cortinas. Rede rangendo com o senhor amando."
Esse artesanato bonito do Ceará, rendas e redes – que São Francisco do Canindé o proteja – continua firme com a graça de São José das Botas, que pontifica em Aquirás. E os seus produtores, muitos pobres, vivendo quase que por milagre, vendendo a sua mercadoria por preço muito baixo, sorriem felizes, agradecidos encantados, quando gente de cidade grande, do Rio de Janeiro ou de São Paulo, lhes faz um elogio, gaba uma penca, diz uma palavra amável a respeito daqueles desenhos e daquelas cores que são mesmo um encantamento – Valha-nos, Nossa Senhora do Amparo.
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