Um leitor, que se assina Abelardo Soares, diz que anda buscando a lógica da dinâmica das palavras e expressões, que nem sempre significam o que se julga. As palavras nascem, crescem, entram em circulação e se transformam de acordo com o tempo. Umas mudam apenas na ortografia. Outras ganham novos valores ortofônicos. Muitas tomam novo sentido ou passam a querer dizer uma porção de coisas ao mesmo tempo.
Há as que conservam a sua maneira de ser original. As privilegiadas perduram através dos anos, eternamente jovens, sempre atualizadas. Apenas uma minoria, menos feliz, torna-se difícil, some e até morre. Só resta memória da sua existência se alguém, no passado, chegou a colocá-la em livro fadado a se tornar famoso, com honras de clássico.
Tais reflexões me vêm à mente porque um amigo me perguntou o que vem a ser a mulher do piolho. Seu pai usava muito tal expressão em determinadas ocasiões para designar um cacete. Também ele tem empregado o termo, em ocasiões oportunas, de referência a alguém insistente, renitente, cansativo, indiscreto e inconveniente. Mas como não tem certeza se a sua interpretação é a certa, solicita minha ajuda na esperança de uma possível elucidação.
Também eu muitas vezes escutei se dizer que uma pessoa se portava como a mulher do piolho, desafiando a paciência alheia com a constância do seu verbo ou a defesa do seu interesse. Acredito que a mulher do piolho é a da história que antigamente se contava. A versão que chegou até mim, não posso garantir seja a original, desde que o povo narra com floreios, bordando e rebordando as situações, segundo a capacidade imaginativa de cada qual.
O caso é que era uma vez um homem muito circunspecto e cioso de sua personalidade. Muito moço teve a dita ou desdita de casar com uma mulherzinha extrovertida e por demais faladeira. Num dia de domingo, depois do almoço, o homem estava sentado debaixo de uma árvore, tomando fresco, quando a mulher veio para junto, querendo catar-lhe cafuné.
De bom grado o homem deitou a cabeça no seu colo. Cafuné para cá, cafuné para lá, acabou por cochilar, enquanto a mulher já meio distraída mexia nos seus cabelos. De repente algo estranho atravessou correndo o couro cabeludo do homem.
Mais que depressa a mulher diligenciou uma busca meticulosa, terminando por encontrar um piolho.
– Um piolho!... Acorde marido! Olhe um piolho na sua cabeça.
O homem acordou assustado e logo viu o piolho esborrachado entre os polegares da esposa. Encabulou, mas nada disse. Porém a mulher não parou mais de falar durante a tarde. A noite chegou e ela falando. O homem calado estava, calado continuou. Noite adentro, volta e meia, a mulher exclamava:
– Marido, o piolho!...
No dia seguinte, indo bem cedo para a feira fazer compras, percebeu que a mulher contava a todos quanto cruzavam o seu caminho o achado da véspera.
– Gente, não lhe conto: ontem eu encontrei um piolho na cabeça de meu marido.
– Um piolho! Quem ouvia se escandalizava e com justa razão.
– Sim, senhor. Um p-i-pi-o-l-h-o-lho.
O marido cada vez mais aborrecido, calado estava, calado continuava. Entrava dia, saía dia, dormindo ou acordada, a conversa da mulher convergia somente para o achado.
Por fim, já furioso, o marido arranjou uma mordedura de cachorro e pôs na boca da esposa. Ela pareceu meio surpresa mas teve medo de protestar e se conservou em silêncio. Assim o homem acreditou ter solucionado a questão. Mas essa alegria durou pouco. Na feira, em casa, na missa, toda a vez que alguém olhava para os dois, ela não perdia tempo. Esfregava a unha do polegar direito na do esquerdo, como se estivesse matando um piolho, e apontava depois para a cabeça do marido.
Em desespero de causa o marido carregou com ela para a beira de um rio fundo. Atou aos seus pés uma pedra e lhe deu um empurrão. A pobrezinha caiu na água e começou a se debater, tentando se manter à tona. Mas quando percebeu pessoas que corriam em seu socorro, suspendeu os braços acima da cabeça e fez o gesto de esfregar as unhas dos polegares. Foi afundando, se afogando, mas sem deixar de fazer o gesto de matar o piolho.
Satisfeito o homem voltou para casa, crente de ter se livrado da desmoralização. Mas no dia seguinte quando foi a feira, todos se dirigiam a ele como o marido da mulher do piolho. Repetindo o que ele pensava ter sepultado. Assim acaba a história.
Deve haver quem saiba este caso de outro modo, algum remanescente dos tempos em que se contava história. Mas por enquanto a que sei é esta. Quem souber diferente trate de contar.
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