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Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

O sigilo na terapêutica popular

Eduardo Campos

A observação talvez não seja nova ou não represente nenhuma contribuição decisiva aos que estudam a medicina popular e suas aplicações pelo homem do povo. Entretanto, vale a pena registrar: o mais importante nos tratamentos, muitas vezes, e o ritual com que o mesmo se processa sem que o doente venha a saber como lhe preparam o remédio que tomou. Não há dúvida: o sertanejo, de um modo geral, acrescenta maior importância ao sentido sigiloso de determinados tratamentos. Rezadores, curandeiros e raizeiros com quem mantive a mais estreita amizade sempre me advertiram do valor de certos gestos e atitudes quando estão preparando os remédios ditados pela sua experiência.

De um para outro meizinheiro verificam-se apenas ligeiras modificações na maneira como externam seu pensamento a esse respeito. Dizem: "É preciso ter 'ciência' para salvar o 'doente'" ou "A força do remédio está no segredo". Realmente, recomendam as pessoas interessadas o mesmo cuidado quando transmitem a fórmula do tratamento aos mais íntimos:

— Olhe, não diga a fulano (o doente), pois assim o remédio não terá valor nenhum.

Se o enfermo fica bom é porque nenhuma força estranha surgiu para impedir a ação benéfica da meizinha receitada ou o poder mágico do remédio teve a sua ação prejudicada pela quebra do sigilo, condição sine qua non, já se vê da medicamentação indicada.

Anotamos, para o trabalho de hoje, algumas receitas dessa terapêutica popular em que não faltam as recomendações de sigilo, desenvolvendo-se o tratamento debaixo de sete chaves, como se se tratasse de um mistério de alta e merecida importância. Pessoas de minha amizade, para citarmos o primeiro caso, estão submetendo um parente que sofre de asma a um desses misteriosos tratamentos. O coitado já bebeu duas vezes gotas de sangue de um gato preto, obtidas da orelha. A verdade — e certamente deve haver milagrosa coincidência por conta da estranha beberagem (o sangue foi dado a beber ao paciente dissolvido numa xícara de chá) — o asmático já não sofre a turbação dos acessos. Até desapareceu o "piadinho" das manhãs, quando a friagem é bastante agradável. Os diálogos em torno do assunto evidenciam a sua influência:

— Ah, se ele souber, o "piado" volta forte, em cima das buchas!

— Dizem que o "segredo" do remédio está no fato do doente ignorar o que bebeu.

— Não digam pra ele.

Outro mais compadecido: "Coitado do gato..."

Os gatos, infelizmente para eles, têm um prestígio excepcional no tratamento da asma. Já anotamos em nossa Medicina popular como são utilizados de diversas maneiras. Ora servidos apenas os pêlos do focinho, ora o próprio sangue, puro, bebido de uma vez, sem rebuços ou, em última instância, um verdadeiro cozido de carne de um gato mourisco (jaguarundi), citado com destaque pelo romancista Cordeiro de Andrade no seu livro Cassacos, romance impregnado de cenas da vida campestre do Ceará. Dessa ou daquela maneira, insistimos, o repugnante remédio deve ser ministrado sob aquele princípio de mistério tanto da simpatia dos nossos queridos irmãos sertanejos...

Chá de jasmim-de-cachorro, para citar mais exemplos, é outra recomendação em que se tem aproveitados os excrementos de um cão, quase a se transformarem em pó, em um remédio dos mais repugnantes. Poucos são aqueles que tendo sarampo no hinterland nordestino escaparam de bebê-lo. A verdade é que sendo meizinha sobremodo generalizada, é temida por todos os doentes. Quem adoece de sarampo fica logo desconfiado. Passa a recusar os remédios:

— Que é isso? Tem um cheirinho esquisito...

— Tolice. Tome o remédio.

— Mas isso parece...

— Parece, mas não é. Você não quer ficar bom?

Quem não desejará recuperar a saúde? E vai o enfermo facilitando, facilitando... Quando menos espera está ficando bom, mais disposto. Ao recuperar-se, dias depois, estarrecido, sabe por intermédio de algum indiscreto que tomou, sem saber, chá de jasmim-de-cachorro.

Ainda para o tratamento da asma, de que nos valeu como primeiro exemplo o ritual das gotas de sangue da orelha de um gato preto, convém lembrar que um cancão amarrado ao pé da cama de quem sofre da doença, é santo remédio. O importante na história é não descobrir o asmático que o passarinho aprisionado debaixo de sua cama tem como objetivo acalmar os acessos que tomam conta de seu corpo.

Há quem aconselhe manter o cancão dentro de uma gaiola, no interior da casa, sem que o doente saiba qual a missão terapêutica que vai desempenhar. Enquanto não houver comentários a respeito, tudo será favorável a que o enfermo recupere a saúde, ficando livre do "piado" que é, realmente, incômodo. Mas falou alguém sobre a ação do passarinho, está decretada a sorte do asmático:

— Foram falar, botaram o remédio fora!

E existem sempre as informações de casos reais em que o doente, logo que soube para que se destinava o cancão, piorou terrivelmente, precisando até de médico.

— Dizendo é pior. Quebra a força do remédio e a doença vem com força mesmo...

Não existem somente esses exemplos em que se evidencia a atitude sigilosa, mágica, do sertanejo quando se vale de seus recursos, ora repugnantes, ora perfeitamente aceitáveis, no combate às diversas enfermidades comuns à sua área geográfica. A maioria dos remédios esquisitos obedece a um ritual todo especial. Existe como que uma série de normas que devem ser cumpridas pelos familiares do enfermo, sob pena do tratamento não surtir o efeito desejado.

Quando falham as medidas de precaução para encobrir a repugnante realidade de certas meizinhas, podemos estar certos: falhará igualmente o tratamento.

 

(Campos, Eduardo. "O sigilo na terapêutica popular". Diário de Pernambuco. Recife, 21 de abril de 1957)

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