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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Formas e símbolos do casamento

Manuel Diégues Júnior

No dia de Santo Antônio, muitas devem ter sido as orações a eles dirigidas para que aparecesse um casamento.

Desde a véspera, pois os santos juninos são comemorados com antecedência, decerto as súplicas têm enchido os oratórios, os altares, as imagens de Santo Antônio. Vale por isso lembrar alguns aspectos ligados ao casamento, reunindo elementos que o estado atual dos estudos etnográficos permite reconstituir.

Das maneiras conhecidas pelas quais se realiza o casamento — o rapto e captura, a compra, a escolha dos pais, o consentimento das partes e a livre escolha — sabe-se que não houve uma sucessão unilinear. Ao contrário: cada uma dessas formas é encontrada em povos diversos, como estádio cultural, sem que tenha havido evolução de uma para outra. De cada uma destas formas encontramos exemplo entre vários povos, sem que entretanto se possa comprovar que tenham conhecido outra anteriormente como etapa cultural. Episódios históricos ou bíblicos revivem estas formas de casamento.

O célebre rapto das Sabinas com que se formou Roma, por exemplo; está ligado àquela primeira forma. A de compra liga-se ao pagamento de determinado valor em gêneros ou animais pelo pretendente ao pai da pretendida. Quando o pretendente não dispunha de recursos prestava serviços ao pai da noiva. É o episódio bíblico de Jacó, que Camões celebrou em soneto imortal: sete anos de pastor Jacó serviu... Serviu a Labão sete anos para obter Raquel, mas ao fim do trabalho recebeu Lia. Outros sete anos trabalhou para alcançar Raquel, pois" mais servira, sendo fora tão longo amor tão curta a vida".

Por sua vez a escolha dos pais está ligada ao sistema patriarcal, no qual a vontade paterna predomina. Em alguns casos, porém aparece o consentimento das partes; os pretendidos são consultados pelos pais se aceitam o casamento. Na Bíblia encontramos Rebeca consentindo em casar com Isaac: "E eles disseram: chamemos a moça e saibamos a verdade. E como sendo chamada viesse, lhe perguntaram: 'Queres ir com este homem!' Ela respondeu: 'Irei'" (Gênesis, 24, vers.57-58). Já a escolha dos noivos livremente por sua espontânea vontade, passou a caracterizar as civilizações mais adiantadas, as contemporâneas, verificando-se o inverso, isto é, os pais é que consentem. É o pedido de casamento.

Qualquer que seja a maneira pela qual se realiza o casamento, encontramos sempre o cerimonial ligado à tradição de antigos ritos e símbolos. São formas simbólicas que revestem a cerimônia do casamento. Entre os malaios o ato nupcial restringe-se aos noivos comerem juntos. Nos povos indo-europeus a cerimônia encontrou sua forma simbólica em juntarem-se as mãos do novo par. Esta tradição por diversos caminhos e por várias maneiras, foi a que chegou até os nossos dias, aceita pela cultura cristã que a incorporou à cerimônia. O aperto de mão, também símbolo da autoridade que o poder representa. A cerimônia do casamento, com o juntarem-se as mãos, traduz o simbolismo da fidelidade e o poder do marido que sustenta a mulher.

A esta tradição, ainda hoje persistente no casamento dos povos ocidentais, e entre eles o brasileiro, juntam-se outros traços culturais, vindos de remotas tradições. O uso do traje branco relembra a tradição romana, segundo a qual o candidatus ou pretendente a um emprego público devia usar o branco como atestado de sua moralidade, de sua pureza de hábitos. Passou ao casamento simbolizando a pureza e a moralidade dos noivos.

O uso das flores encontra origem no simbolismo de que o novo par é como a vegetação que se enflora para produzir novos frutos. Varia a escolha da flor. Na Grécia usa-se a oliveira que é também o símbolo da paz. Em Roma usa-se a manjerona. De preferência as flores devem ser alvas. A civilização cristã simbolizou principalmente no lírio e na flor de laranjeira. A tradição conserva o lírio como usado por Maria Santíssima em seu casamento com São José; e assim o representou o quadro famoso de Rafael. A distribuição das flores, após o casamento, simboliza que devem continuar a florescer e a reproduzir-se.

O anel é outro símbolo nupcial. Representa o arco como unido, tradição essa oriunda da interpretação entre os povos mais antigos de que o arco-íris representa a paz do Senhor com os homens. Além disso o arco não se quebra. Entre os gregos e os romanos colocava-se o anel no quarto dedo; é tradição que ainda hoje vigora entre nós. Acredita-se que dali do quarto dedo, parte a veia que vai direta ao coração. Outra tradição, esta já quase inteiramente desaparecida, liga-se ao uso de cabelo entre as mulheres. É usado solto pelas solteiras e preso pelas casadas. O próprio modo de abrir os cabelos prende-se no estado civil. Só os solteiros faziam a separação; e a esta linha de separação era dado o nome de "liberdade" com que até hoje ficou conhecida.

 

(Diégues Júnior, Manuel. "Formas e símbolos do casamento". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 14 de junho de 1953)

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