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Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Comércio e ambulantes na Bahia, em 1871

Oscar Canstatt

O comércio da Bahia aumentou consideravelmente com a construção da estrada de ferro para o rio São Francisco. Essa via férrea, que não tem ainda, aliás, uma extensão considerável, pelo padrão europeu, já atravessa, porém, uma parte importante da província. Fui nela até Santo Antônio de Alagoinhas. O funcionamento da estrada de ferro não se afasta essencialmente muito do das estradas de ferro européias, mas sente-se a falta da rigorosa observância dos horários de partida e de chegada. A construção da linha foi empreendida por uma sociedade anônima inglesa, que se propôs ligar o alto São Francisco ao porto da Bahia. Como tudo no Brasil se começa com entusiasmo para logo arrefecer, assim também a estrada de ferro, começada com grande açodamento, embora só com um quinto da extensão projetada construído, estacionou aí. Muito deve ter concorrido para isso o seu pequeno rendimento no primeiro ano, por que nada poderia animar menos o prosseguimento da construção.

O trecho que percorri era aparentemente um dos menos populosos e não muito produtivo. Todavia não lhe faltavam elementos, porque as terras no interior oferecem naturalmente muitos atrativos aos novatos. Tivemos também que passar diversos pequenos túneis e viadutos cuja construção não deixava nada a desejar comparada com idênticas construções européias. Um dos túneis, revestido de tijolos, e um grande viaduto de ferro são as obras-de-arte mais notáveis. Apesar de ser tão curto o trecho construído, contei mais de meia dúzia de estações, nas quais paramos para tomar peque na quantidade de carga e alguns passageiros mal encarados, e quase pretos. O trem, tanto na ida como na volta, esteve tão vazio, que não me admirei quando um companheiro de viagem me disse que a renda da estrada decrescia de ano para ano. No ano de 1875 a renda do trecho inaugurado foi de 366 contos, 247 mil e 450 réis, tendo transportado 65.661 passageiros, 84.251 kg de bagagem e 15.173.264 de carga. Seu custeio foi de 410 contos, 722 mil e 965 réis.

Santo Antônio de Alagoinhas é um lugar miserável que nada tem de convidativo e a que voltei as costas o mais de pressa que me foi possível. As estações intermediárias não me parece serem muito melhores, e nem Vila Santa Ana do Catu, Pojuca, Pitanga, Feira Velha, Bandeira, Muritiba, como se chamam todas as outras, me tentaram a demorar pelo caminho. Impelia-me, ao contrário, um certo desejo de voltar para a Bahia, onde afinal algumas coisas me fazem lembrar a cultura européia, porque os segredos do interior do Brasil eu os tinha em vista para mais tarde.

Quando se vem de fora para a cidade, o quadro, com seu exotismo, tem ainda maior encanto. Eu já me tinha certamente encontrado antes com diferentes espécies de vendedoras negras, entre elas algumas que em vez de cesto ou canastra trazem à cabeça uma caixa envidraçada, dentro da qual resguardam do pó e das moscas seus artigos, na maioria doces e ninharias semelhantes, mas nunca tinha tido ocasião de examinar de perto essas caixas originais. Por acaso, quando eu passava, uma das vendeiras (quitandeiras) abriu uma das bem protegidas caixas, mas seu conteúdo pareceu-me tão pouco tentador que, apesar dos insistentes elogios da excelência das guloseimas ofereci das, não as quis provar. Notei, então, que no Brasil todos os volumes que não excedem um certo tamanho são carregados na cabeça, e é admirável a destreza com que os negros nela equilibram qualquer volume, grande ou pequeno, andando pelas ruas em animada conversa em voz alta. Nas conversas entre si não se servem sempre da língua do país, preferindo seus idiomas africanos nativos. Isto se dá sobretudo com os negros mina, que não nasceram no Brasil. São estranhos sons guturais que chegam aos ouvidos estrangeiros.

O acaso quis que, quando voltava para o hotel, alguns viajantes chegados no momento estivessem planejando uma visita à convidativa ilha de Itaparica, do outro lado da baía de Todos os Santos. Decidi-me imediatamente a solicitar o favor de participar dessa excursão, de que todos tanto esperavam, solicitação que foi atendida com a melhor boa-vontade. Itaparica é, de certo modo, famosa, não só devido à sua situação e uberdade, como a certos acontecimentos históricos. O tráfico clandestino de escravos foi por muito tempo feito nas suas praias, quando já havia muito se trabalhava para a extinção desse nefando comércio. Até pelos anos 1860 eram introduzidos negros de contrabando nessa ilha, para serem vendidos, embora na margem oposta da baía um navio a vigiasse noite e dia. Contaram-me como, não havia ainda muito tempo, bordejava em torno de Itaparica um navio misterioso, em que não tardaram a reconhecer um negreiro. O navio de sentinela no porto se pôs em movimento, para examiná-lo mais de perto. Viu-se, então, de terra, com espanto, um estranho espetáculo. O navio ameaçado, bom conhecedor daquelas águas, não hesitou, e atirando ao mar 300 dos negros que trazia a bordo, escapuliu como um muçu para o oceano. Os pobres escravos, por felicidade bons nadadores, alcançaram a costa perto. Pelas leis brasileiras tornavam-se propriedade do Governo, que, com secreta alegria dos ricos proprietários da Bahia, os encaminhou para a construção da estrada de ferro que acabava de ser iniciada. Os brasileiros souberam ainda tirar partido da escravatura, então não tão largamente ferreteada, aproveitando-se, por outra forma, do acidente. Os proprietários de plantações trocavam secretamente seus velhos escravos imprestáveis pelos recém-chegados trabalhadores da estrada de ferro, sem que o Ministério tivesse notícia da barganha, porquanto o número dos negros salvos continuava a ser o mesmo, nas listas do governo.

 

(Canstatt, Oscar. Brasil: terra e gente (1871). Brasília, Senado Federal: Conselho Editorial, 2002, p.283-285)

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