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Julho 2007 - Ano X - nº 102

Sumário

Festança
Maxixe e bochinche
Lindolfo Gomes

Cancioneiro
Cantadores de Piracicaba
Ruth Guimarães

Imaginário
As três cidras do amor

Pahi-Tuná: O velho das mil mulheres

Colher de Pau
O pau de bater feijão
A. Seixas Neto

Oficina
Comércio e ambulantes na Bahia, em 1871
Oscar Canstatt

Palhoça
Formas e símbolos do casamento
Manuel Diégues Júnior

Panacéia
O sigilo na terapêutica popular

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Pahi-Tuná: O velho das mil mulheres

Um dia, as florestas que estavam à beira do lago ressoaram um grande alarido e os gritos alegres de uma multidão de mulheres. Aproximavam-se tão depressa em suas canoas que cada uma delas dividia as águas em duas longas penas brancas. As mulheres aportaram no sopé da montanha, escalaram-na pelo lado sul e depois esconderam as canoas na sombra das árvores.

Era precedidas por um único homem, o velho chamado Pahi-Tuná.

Chegando ao topo da montanha, olharam em torno delas e para o horizonte. Viam-se rios, lagos e florestas. Na verdade, havia muita coisa para ser vista.

Instalaram-se ali. Os anos passavam. Todos os filhos homens que nasciam de Pahi-Tuná eram sacrificados por suas mães. Pahi-Tuná já estava extremamente idoso quando uma das mulheres mais jovens teve dele um filho tão feio, tão raquítico, tão pustuloso, que a mãe teve piedade dele e não o deixou morrer. Como não era possível mantê-lo com ela, escondeu-o numa gruta, situada num local da floresta que ninguém conhecia, longe da montanha. Para tentar curá-lo, recorreu às virtudes das plantas, mas nada dava certo.

Teve então uma idéia: pegou um saco de amassar mandioca, pôs a criança dentro, suspendeu o saco, sentou-se do outro lado e começou a puxar com toda a sua força, pressionando desta forma a criança, como se fosse mandioca. Tantos líquidos saíram dele que, quando ela o retirou, estava completamente transformado. Na verdade havia se tornado a criança mais bonita que já se vira. A mãe, cheia de alegria, apertou-o muito em seus braços e depois começou a chorar lágrimas muito amargas. Como escondê-lo das outras mulheres que não deixariam de matá-lo?

Assim se passaram alguns anos, entre tremores e alegrias.

Ela conseguira mantê-lo escondido até então, mas as outras mulheres suspeitaram: elas juraram descobrir o segredo que a pobre mulher guardava no coração mas que não chegava a esconder totalmente. Algumas mulheres começaram a espioná-la e descobriram finalmente a gruta onde escondia o jovem; de fato, o menino havia crescido. Tendo-o visto, as mulheres ficaram encantadas com ele. Deitaram-se a seus pés, mostrando-lhe todas as belezas de seus corpos, mas o rapaz as rejeitou.

"Mamãe", disse ele um dia, enquanto comiam, "mamãe, esconda-me, pois as mulheres me perseguem".

A partir desse dia, não havia mais descanso para ele. Embora a mãe o escondesse, as mulheres sempre o descobriam. Elas haviam vasculhado o centro da floresta, conheciam todas as grutas. Assim sendo, a mãe pensou que o melhor seria esconder o filho no fundo do lago. Seguramente as mulheres não iriam até lá para procurá-lo. Pahi-Tunaré, pois era este o nome que as mulheres lhe deram, abraçou sua mãe e esta o jogou no lago.

Um dia por semana a mãe, ao chegar no lago, gritava: "Pahi-Tunaré! Pahi-Tunaré!"

Então o filho saía da água, e passava uns momentos ao lado da mãe.

No entanto, as mulheres, que continuavam apaixonadas pelo moço, não paravam de procurá-lo. Um dia, no momento em que ele respondia ao chamado da mãe, elas descobriram o esconderijo. Desde então, iam à praia nos dias combinados, para imitar a voz da mãe; depois, levavam Pahi-Tunaré para a floresta e lá as mais belas o atraíam para seus corpos.

Essas novas delícias, acrescidas à juventude de Pahi-Tunaré, fizeram-nas esquecer do velho Pahi-Tuná. O ancião desconfiou de alguma coisa e, num dia em que foi ao lago, encontrou o filho nos braços de suas mulheres. O ciúme fê-lo esquecer o fato de que era o pai e jurou vingar-se dele. Teceu uma rede com as fibras resistentes do curauá e depois foi lançá-la no lago. Quando recolheu a rede, Pahi-Tunaré lá estava. Porém, chegando à praia, Pahi-Tunaré se debateu com tanta força que rompeu a rede e escapou.

Depois de alguns dias, Pahi-Tuná teceu uma rede de fibras ainda mais fortes. Foi sem fazer ruído em sua canoa até o meio do lago, esperando que Pahi-Tunaré viesse à superfície para respirar. Este apareceu logo depois. A rede girou no ar, abriu-se e caiu.

Pahi-Tunaré estava preso nas malhas. Porém a rede se rompeu mais uma vez, e o prisioneiro desapareceu no fundo das águas.

Mais uma vez decepcionado, Pahi-Tuná retornou à gruta onde morava e onde algumas mulheres o aguardavam. Via-se a dor em seu rosto e, pela lentidão de seus movimentos, podia-se perceber a cólera que lhe consumia o coração.

"O que tem você, pobre Pahi-Tuná? Você está com um ar triste e parece sofrer", disse uma das mulheres, a mais bela e a que mais o amava.

"Nada. Fiquei muito velho", respondeu Pahi-Tuná. "O tempo do amor passou, esquecem-se de mim e têm razão. Não lhes quero mal, gostaria somente de ter uma mecha dos seus cabelos. Poderia ainda trabalhar de vez em quando com vocês, e me divertir trançando uma rede na qual poderia descansar a fadiga de meu velho corpo."

Logo depois as mulheres se puseram a cortar o cabelo para oferecer mechas a Pahi-Tuná. Ele se mostrou muito satisfeito com isso.

Num dia que passeava à beira do igarapé com sua bela rede tecida com os cabelos negros de suas mulheres, Pahi-Tunaré subiu à superfície da água para respirar.

No mesmo momento, o velho lançou a rede e o fez prisioneiro. Embora se debatesse, não conseguiu arrebentar a rede. Pahi-Tuná o arrastou para a margem e depois o matou. Antes de enterrá-lo, o velho cortou-lhe o membro viril.

Toda a tribo ficou consternada ao saber do desaparecimento de Pahi-Tunaré. As mulheres lamentavam em volta do velho Pahi-Tuná. Este, sentado na entrada da gruta, tinha no colo uma de suas mulheres que o acariciava. De repente, ela sente cair uma gota de sangue na sua mão. Surpresa, quer saber de onde vem. Volta os olhos para a abóbada da gruta e dá um grito. Então acorrem as outras mulheres. Compreendem então que o moço havia sido morto pelo velho, e que este lhe cortou o membro viril para pendurá-lo na gruta, onde os vermes já o estão corroendo.

Imediatamente elas abandonam o velho e fogem.

Pahi-Tuná persegue-as. Conseguem chegar a uma caverna e todas desaparecem. Ele continua seguindo-as, mas ouve uma música extraordinária que precede as mulheres, à medida que se aprofundam na terra.

Pahi-Tuná procura ainda segui-las, mas todos os tipos de animais venenosos barram-lhe o caminho. Acende uma fogueira na caverna para assustá-los e poder seguir as mulheres, guiado pela música que continua ouvindo. Então cobras e aranhas-caranguejeiras o impedem de prosseguir. Volta para casa muito triste e desanimado. Só encontra ali seus animais domésticos.

Vendo-se só, Pahi-Tuná, no dia seguinte, vai ao campo para desenterrar mandioca. Na volta, fica surpreso ao encontrar o forno ainda quente, e, ao lado, uma grande quantidade de bolos de mandioca. "Quem os teria feito?" Procura por toda parte nas redondezas e não encontra ninguém.

No dia seguinte, volta ao campo. Ao retornar, encontra também bolos. Então quer descobrir qual é o mistério.

Um dia, faz de conta que vai para o trabalho e se esconde na floresta, num lugar de onde pode avistar a entrada da gruta e o forno, que ficava bem perto da entrada.

E ele espreita.

Depois de algum tempo, avista um lindo papagaio que costumava consolá-lo em sua solidão com palavras carinhosas. A ave desce de uma árvore e voa diretamente para o forno. Ao chegar, levanta as penas, estende as asas, deixa cair a pele e se transforma numa linda moça que ele reconhece imediatamente, e que começa a trabalhar. A moça amassa a mandioca, esquenta o forno e começa a preparar os bolos.

Quando o fogo fica bem forte, Pahi-Tuná, rápido como um raio, sai de seu esconderijo e, segurando a cintura da moça com um braço, com o outro arranca sua plumagem verde e a lança no fogo.

"Obrigada, meu amigo", disse ela. "Agora posso viver com você."

Quando as mulheres abandonaram Pahi-Tuná para correr atrás de Pahi-Tunaré, essa moça, que não queria ser infiel para com o velho, havia se transformado em papagaio e nunca o havia abandonado.

A partir de então, viveram juntos ainda durante muitos anos.

O lugar em que tudo isso aconteceu passou a se chamar, a partir de então, Pahi-Tuná, e a própria forma das montanhas representa a história do velho das mil mulheres.

(Duchartre, P. L.; Monteiro, Vicente do Rego. Lendas, crenças e talismãs dos índios do Amazonas. São Paulo, Imprensa Oficial, 2005)

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