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Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

As três cidras do amor

Era uma vez um rei que tinha um filho, o qual era muito amigo da caça.

Um dia, quando andava nuns campos, encontrou uma velhinha muito aflita e com muita fome. O príncipe não levava dinheiro, mas trazia de comer para enquanto andasse por fora.

Chamou os criados e mandou dar de tudo à velhinha. Ela comeu, beber e, depois de estar farta, agradeceu muito ao príncipe, dizendo-lhe:

— Não vos posso mostrar a minha gratidão de outra maneira, porque nada tenho; mas aqui tendes estas três cidras, em sinal do meu reconhecimento.

E recomendou-lhe que nunca as abrisse senão ao pé de uma fonte, e que quando as abrisse que fosse sempre ao comprido e nunca ao través.

O príncipe guardou as cidras, despediu-se da velha, e continuou o seu caminho.

Quando já tinha andado bastante, lembrou-se de abrir uma das cidras, mas esqueceu-se de a abrir ao pé de uma fonte, como a velha lhe tinha recomendado. Imediatamente, saiu de dentro uma formosa menina, que lhe disse:

— Dá-me água, senão morro!

O príncipe lembrou-se então do que lhe dissera a velha, e a menina, como ele não lhe desse de beber, morreu.

O príncipe ficou com muita pena, mas como tinha ainda duas cidras, estava mais consolado, e foi andando o seu caminho. Mais adiante abriu outra cidra, mas tornou a esquecer-se que havia de ser ao pé de uma fonte.

No mesmo instante apareceu-lhe uma linda menina, que disse como a primeira:

— Dá-me água, senão morro!

Como ali não havia água, a menina morreu. O príncipe estava cada vez mais triste, e não se atrevia a abrir a terceira cidra com medo que lhe acontecesse o mesmo. Mas estava com tantos desejos de ver o que ela tinha, que foi procurar uma fonte e ali a abriu.

No mesmo instante saiu-lhe de dentro uma formosa menina mais linda do que qualquer uma das outras, que disse também para ele:

— Dá-me água, senão morro!

O príncipe, que trazia uma concha, tirou água da fonte e deu de beber à menina.

A menina restabeleceu-se, mas, como era muito delicada e estava muito fraca, o príncipe teve medo de levá-la até o palácio, que era ainda muito longe.

Disse-lhe então que subisse para uma árvore que ali estava, enquanto ele ia buscar uma carruagem para ela ir.

A menina assim o fez, e o príncipe foi-se embora.

Daí a um certo tempo apareceu uma negra muito feia, que vinha buscar água à fonte, para o seu senhor.

A negra começou a olhar para a água e, como estava muito clara, viu a cara da menina. A negra, julgando que era a cara dela, começou a dizer:

— Negra, negra tão bonita, vir buscar água à fonte!... Quebra, quebra o cantarinho!

E dava uma pancada com o cântaro; mas como ele era de cobre, não se partia.

A negra olhava outra vez para a água e, vendo a cara da menina, tornava a repetir:

— Negra, negra tão bonita, vir buscar água à fonte!... Quebra, quebra o cantarinho!

E dava outra pancada com o cântaro.

À menina dava-lhe muita vontade de rir, mas não se queria rir com medo que a negra a visse.

Até que à terceira vez a menina não se pôde conter e soltou uma grande gargalhada.

A negra começou a olhar para todos os lados sem ver ninguém, até que por fim olhou para cima e viu a menina em cima da árvore.

Começou a fazer-lhe muita festa e a pedir-lhe que descesse. A menina não queria, porque dizia que estava à espera do príncipe.

A negra, como era bruxa, começou a fazer ainda mais festas à menina e a dizer-lhe:

— Anda cá. minha menina, deixa-me ao menos catar-te a cabecinha!

Tanto fez, tanto fez, que a menina desceu.

A negra, assim que apanhou a menina, principiou a fingir que a catava e a fazer-lhe muitas perguntas a respeito do príncipe, a que a menina respondia com toda a verdade.

A negra, assim que soube tudo, tirou um grande alfinete que tinha pregado em si e espetou-o na cabeça da menina.

Imediatamente a menina se transformou numa pomba e desapareceu.

A negra subiu na árvore em lugar da menina e pôs-se a esperar pelo príncipe, que chegou daí por um bocado.

Olhou para cima da árvore e ficou muito admirado de ter deixado uma menina tão bonita e de achar uma negra tão feia. Principiou a zangar-se muito, mas a negra começou a chorar e a dizer que era um triste fado que a perseguia, e que tão depressa estava bonita como uma negra muito feia.

O príncipe acreditou, teve dó dela e mandou-a descer da árvore, levando-a para o palácio.

No outro dia pela manhã, levantou-se muito cedo e foi para o jardim passear.

Daí a um bocado viu ir uma pombinha muito bonita, chegar ao pé do jardineiro e dizer:

— Hortelão da minha horta, como passa o príncipe com a sua negra cachorra e torta?

Acabando de dizer isto, fugiu.

O hortelão não lhe respondeu nada; mas foi ter com o príncipe e disse-lhe:

— O que quer, vossa alteza, que eu responda àquela pomba?

— Diz-lhe que passo bem e levo boa vida! — disse o príncipe.

No outro dia, voltou a pomba e tornou a dizer:

— Hortelão da minha horta, como passa o príncipe com a sua negra cachorra e torta?

O hortelão respondeu-lhe:

— Passa bem e leva boa vida!

A pomba, então, disse:

— Coitadinha de mim, que ando aqui perdida!

O hortelão foi dizer ao príncipe o que a pomba tinha respondido.

O príncipe mandou-lhe armar um laço de fita para ver se a apanhava, porque gostava muito dela.

No outro dia, a pomba voltou e disse o mesmo. O hortelão respondeu a mesma coisa, e a pomba, quando olhou para o lado, deu uma gargalhada e disse:

— Ah! ah! ah! laço de fita não é para meu pé! — E foi-se embora.

O hortelão foi dizer ao príncipe, e ele disse-lhe que armasse no outro dia um laço de prata. A pomba veio, disse as mesmas palavras, e no fim, olhando para o laço, disse a rir:

— Ah! ah! ah! laço de prata não é para meu pé! — E foi-se embora.

O hortelão foi outra vez dizer ao príncipe. O príncipe ordenou que lhe pusessem um laço de ouro.

A pomba veio no outro dia, disse as mesmas palavras e, olhando para o laço, disse a rir:

— Ah! ah! ah! laço de ouro não é para meu pé! — E foi-se embora outra vez.

O hortelão foi dizer ao príncipe e ele, já muito zangado, ordenou ao hortelão que lhe armasse um laço de brilhantes.

A pomba, no outro dia, apenas veio, saltou para o laço e disse:

— Este, sim, é que é para o meu pé!

E deixou-se apanhar.

A negra, assim que viu que tinha apanhado a pombinha, começou a dizer que estava muito doente e que queria um caldo dela. O príncipe, com muita pena, começou a dizer que não se havia de matar, e principiou a fazer-lhe muitas festas.

Quando estava a passar-lhe a mão pela cabeça, encontrou um alfinete que estava enterrado e tirou-o. Imediatamente, a pomba se transformou numa linda menina, a mesma que o príncipe tinha deixado em cima da árvore.

O príncipe ficou muito admirado de a ver, e a menina contou tudo o que a negra lhe tinha feito.

O príncipe mandou matar a negra e da sua pele fazer um tambor, e dos ossos uma escada para a menina subir para a cama.

Depois, casou-se com a menina e foram muito felizes.

 

Veja também: Entrevista: A Moura Torta

(Pedroso, Consiglieri. Contos populares portugueses. São Paulo, Landy, 2001, p.47-52)

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