Ao apresentar a esta egrégia comissão as duas comunicações atinentes à origem e à denominação da dança popular maxixe não tive, nem tenho em vista, senão reavivar o interesse já bastante amortecido sobre esse ainda não solucionado problema folclórico.
Quanto à origem coreográfica, já a maioria, ou mesmo a totalidade de nossos mais autorizados etnógrafos, não discordava, que me conste, em considerá-la africana, embora a música e a dança do maxixe sofressem em nosso país diversas modificações, sob a influência de outras, como a habanera e o tango, de Cuba, em conjuntos com a polca espanhola o que não constitui, como se sabe, novidade.
Quanto à da denominação, não me parecendo aceitáveis as que têm sido conjectrualmente propostas até agora, achei interessante trazer, como trouxe, ao conhecimento desta douta comissão uma notícia publicada num jornal da África do Sul e transcrita há anos num semanário desta capital, onde havia referência a certa localidade africana denominada maxixe.
No tocante à data de introdução de tal dança, nesta capital, de onde irradiou, em sua nova modalidade, para todo o país, assinalei o ano de 1880, pelos motivos que expus nas referidas comunicações, sendo que a segunda destas fi-la apenas como simples achegas, às quais peço permissão para agora acrescentar estas, a fim de serem reunidas, por me parecerem aproveitáveis, ao meu despretensioso estudo.
Tendo em vista que, pelo verbete do dicionário. de Vocábulos brasileiros, de Rohan, o maxixe era uma espécie de batuque, cuja procedência este dicionarista atribuiu ao Rio Grande do Sul, embora sempre se me afigurasse nortista, encaminhei o meu trabalho de pesquisas para a região acima indicada, tendo então mencionados por Simões Lopes Neto, aproximativos do modo por que outrora seria executada certa dança que bem poderia ser o remoto maxixe.
Continuando a pesquisar, eis que se me depara agora no citado dicionário de Rohan, página 18:
"Bochinche: s. m. (Rio Grande do Sul) divertimento chinfrim próprio da plebe, espécie de batuque. Etm. É vocábulo da América espanhola significando alvoroço, assuada (Valdez)".
Sem demora, consultei o Vocabulário sul rio-grandense, de Romaguera Correia, dando à página 33 com o seguinte verbete de "Bochinche: subs. m. baile de plebe, maxixe (do norte) divertimento próprio de gentalha; conflito, perturbação da ordem em qualquer lugar ou reunião: Durante o espetáculo houve grande bochinche. É vocábulo da América Espanhola".
Recorro ao Dicionário espanhol-português, organizado por uma comissão de eméritos publicistas lusitanos, 1879, Empresa Editora de Obras Clássicas e Ilustradas, e vejo registrado (p.305 do I tomo):
"Bochinche: (p. América): alvoroço, assoada".
Não há referência à dança.
Também no Nuevo dic. enciclopédico hispano americano ilustrado, de S. Calleja, Madri, aparece bochinche, mas sem referência à dança de qualquer espécie.
Nem tão pouco outros significados, além de "Alboroto e asonada", se encontram no registro da palavra bochinche, que é considerada também como procedente da América, no Campano ilustrado, Dice. de M. Gonmlez de La Rosa, p.125, 1908.
Vê-se deste modo que os dicionários castelhanos, que consultei, não dão à palavra bochinche o significado de dança (ou música), ao passo que o fazem os lexicografos nacionais — Rohan, Macedo Soares (Dicionário brasileiro) e Romaguera, sendo que este expressamente declara que o "bochinche" é a mesma dança denominada maxixe, no Norte.
Como os dicionários da língua espanhola ou castelhana, que registram vocábulos usados na América, são acordes em afirmar que bochinche é palavra originária deste continente, poder-se-á então concluir que maxixe seja uma forma corrupta daquela.
Mas poderá ter ocorrido justamente o contrário, sendo bochinche corruptela, ou alteração fonética, de maxixe...
Seria admissível essa alteração?
Difícil não seria que tal acontecesse na linguagem plebéia, que, em muitos casos, deixa de obedecer a rigorosos preceitos da fonética regular, consoante a lição de meu saudoso e sábio mestre João Ribeiro.
Mas ficamos em perplexidade, sem podermos algo concluir, visto, tratar-se da mesma dança.
Ocorre-nos, então, perguntar: O maxixe do Norte, será anterior ao bochinche do Rio Grande do Sul, ou vice-versa?
Sabendo-se que bochinche é palavra da América espanhola, e que são quase todas as danças populares de Cuba de origem africana, vem-nos logo à mente perguntar: Será também cubana essa dança ou pelo menos terá a palavra bochinche tal procedência?
Devemos então pensar em que na África existe o designativo maxixe, que, segundo Romaguera, é o mesmo bochinche riograndense do sul.
Ai é que está o buziles...
Estas achegas representam, não obstante, novos elementos de orientação para o prosseguimento das pesquisas em torno desse complicado problema que, a nosso ver, de nenhum modo deve ser posto de lado.
Em resumo: A dança bochinche, do Rio Grande do Sul, será o mesmo maxixe, do Norte, consoante à opinião de Romaguera?
Será uma dessas denominações corruptela ou alteração fonética da outra?
Deve-se ter em vista que lexicógrafos espanhóis, embora registrando a palavra bochinche, como procedente da América, não lhe atribuem o significado de dança ou música, ao contrário do que expressamente o fazem os dicionaristas brasileiros e portugueses.
O Dicionário galego, de Piñol, não registra a palavra bochinche.