Diz-se que era uma vez, na cabeceiras do São Francisco, um cantador chamado Mané do Riachão. Cantava tanto e tão bem, e num repente tão acertado, que nunca houve, nem haverá quem cante assim. E foi um dia — é melhor falar baixinho este final impressionante — e foi um dia, numa função que Mané era o próprio diabo.
* * *
Subimos a serra certo dia — agora neste quente novembro — para descobrir que em Piracicaba, a alegre e clara noiva da colina, há violeiros que cantam tão bem quanto Mané do Riachão. E não têm nada de diabólicos, muito pelo contrário.
Eles são como os antigos bardos. Têm os mesmo sonhos embora usem, civilizadamente, colarinho e gravata e andem calçados. E embora também o seu meio de locomoção não seja mais o caminhar sem fim pelas estradas poeirentas, mas as ferrovias da Companhia Paulista. Exibem-se aqui e ali, isto é, — exibem-se não é bem o termo — procuram um contato com o público. Sua arte primitiva também precisa de divulgação e compreensão como todas as artes. Esses troveiros — como os menestréis, os cantores da gesta e os sentimentais seresteiros — cantam para alguém. É uma necessidade o seu cantar, chorando mágoas em rimas tocantes e contando casos nas modas dolentes.
O Centro de Folclore de Piracicaba promoveu o espetáculo no antigo e tradicional teatrinho de Santo Estevão. Primeiro são apresentadas as modas de viola, e que incrível impressão de viagem no tempo para mil oitocentos e qualquer coisa, quando se ouve o repinicado e as modas, e com a entrada dos cantadores. Vêm dois a dois: um violeiro, que é também cantador, e o segundo que faz o contra-canto. Entram, e eles mesmos não sabem como, e a gente fica com o coração nas mãos de medo que errem, que façam fiasco, que se vão embora sem dizer nada, ou que fiquem ali parados, com aquela desoladora expressão de quem não sabe onde está. Mas o que acontece depois é magnífico. Durante o canto, adquirem aprumo. Isolam-se. Parecem fora do palco e do mundo — ou fora ou acima — porém, de qualquer modo, absolutamente inconscientes da assistência. Constroem um estranho mundo para eles. Um mundo trágico, às vezes, quase sempre triste, onde há lágrimas e dramas, amores sucedidos, facadas, fugas, tudo aquilo vindo devagarinho, monotonamente, poema dolorista sem variações. Os rostos inexpressivos dos troveiros, quase todos mestiços, com traços reveladores do desordenado caldeamento de raças, vão se animando. Mostram-se ora místicos, ora piedosos, ora exaltados.
Boniteza
Depois que terminam, a volta é como um choque. Parecem voltar de um estado de transe. Percebem, de repente, que há gente escutando. E aí, na hora de agradecer as palmas e de sair do palco, é que começa verdadeiramente, uma nova tragédia, mas essa não é cantada.
O caboclíssimo Tico Siqueira, com feições pétreas de índio, canta em voz nasal e forte. O segunda (segunda voz) é o filho, garoto de dez ou doze anos, com o mesmo tom bronzeo-dourado na pele, e uma nota viva nos olhos surpreendentes verdes. Quando entramos, o cantador ia em meio de longa litânia — A moda da Helena — história de certa moça que dois homens amavam. A semelhança da se sua homônima de Tróia, a história acaba mal. Ela bebe veneno. O pai morre de desgosto. O marido vai para longe e nunca mais volta. E o amado se suicida sobre o túmulo dela à meia-noite. Tragédias e mais tragédias tão ao gosto do sertanejo. A moda é de autoria de Tico Siqueira. E a nota poética é dada por ele, comentando com música o sucedido:
— Dois amor quando se ajunta ai! ai!
é uma boniteza, ai, ai
Boniteza é, sem dúvida nenhuma, esse sentimentalismo de troveiro. Tico Siqueira não tem uma crispação no rosto, de pele lisa e acobreada e de músculos distendidos. Quando entram os visitantes, não se volta, não parece lisonjeado, surpreendido, embaraçado, nem alegre, e nem triste tão pouco, mas apenas absoluta e intransigentemente fechado. Dizem que ele é bom num cururu e num pontilhado de viola. Dizem que tem um guizo de cascavel na viola, para torná-la mais sonora e para livrar-se do mau-olhado.
— É minha companheira — diz, revelando num rápido lampejo de olhar a primeira emoção da noite. Tem trinta e cinco anos. Antes dele a viola já teve outros donos, naturalmente, pois Tico Siqueira ainda é moço, embora não seja fácil definir-lhe a idade. Sabe-se que é troveiro e cururueiro há vinte anos. Na viola está o seu nome em grandes floreiros brancos.
— Quem foi que escreveu? O senhor?
— Não sei ler — responde sem sorrir, mantendo a feição granítica impenetrável, e a gente, não sabe o que dizer, pois o fato tanto pode ter como não ter importância para ele, e para descobrir isso só adivinhando.
No programa consta ainda outra longa toada cantada por dois compridos violeiros.
João Chiarini anuncia no palco que veio gente de São Paulo, para assistir as cantorias. Dá os nomes dos visitantes, que naturalmente nada significam para os violeiros. O que tem de valor para eles é o fato de terem vindo da capital, de longe, para ouvi-los. E, sem mínimo aviso, uma voz segura e nasal, e inesperada, voz de barítono rústico, entoa uma louvação onde rima — com muita coerência — mãe com Guimarãe (sem s).
Caninha-verde
Depois é a cana-verde. Espera-se que seja parecida com a caninha-verde portuguesa:
A minha caninha verde.
A minha cana madura!
Ai ovai!
Oh! minha linda rainha.
Oh! minha vida docura.
Sim, espera-se que seja parecida com a caninha verde portuguesa. Forma-se a roda. Há um violeiro. Há contra-cantos. E...
Oh! Esta não é, em verdade, a caninha verde d'além com o Manel mais a Meria. Esta nada tem que ver com o compadre chegadinho. É um jogo musical, dentro de um ritmo primário e com movimentos de dança primitiva.
Meia volta
À direita
Volver
À esquerda
Volver.
A viola vai tocando, num ding-ding sem fim, as afinações têm nomes bizarros: cebolinha, cebolão, castejana, quatro-pontos, guariano, quatrodedos, tempero-pré-meio, rio-abaixo, guaismão, tudo com um gosto livre de verso branco e nesse ritmo dissolvente e amolecedor de toada!
É comovente a canhestra, há um gosto quente de sol. E os nomes das cordas sugerem passeios de canoa, em folganças do Divino. Soam a rumores de água corrente: canutio, toêra, amarela, branca, turina, a antiga turuna (sol, do, mi, sol, do).
A batida é um compasso binário simples, é tão insistente, tão igual, tão constante, que se acaba até por pensar em compasso binário. O pensamento dá só meia-volta e mais meia-volta. Volver. À direita. Volver. À esquerda. Volver.
O que está violerando não toma parte na dança nem no canto. Faz-se um semicírculo de cantadores e dos seus respectivos segundas. A quadra é atirada como uma bola e os cantadores têm que apanhá-la, cada um na sua vez pegando-a pelas duas últimas estrofes, como nos desafios. Aliás o que caracteriza as cantigas regionais é o seu todo desafiante de torneio. A roda se anima.
A coisa esquentou
Zico Mineiro foi a figura máxima da noite. É esguio e negro, com um pixainzinho arrepiado e rugas transversais na testa. A voz é gutural o riso aberto em a. Zico tem uma vida complicadíssima. Dificuldades financeiras e dificuldades com as garotas. Canta sobre o amor, usando quadras do populário — que é o que se chama cantar por cima — na saborosa linguagem popular — ou improvisando — o chamado cantar por baixo. Ele vem logo para o primeiro plano dos cantadores, não como cantador, mas porque é demasiadamente humano, humano de um modo denso e completo que impressiona. E tem uma comovente simplicidade. Conseguiu arrancar dos presentes palmas risos e assobios. Impossível ouvi-lo indiferente, embora se possa admitir — com alguma surpresa por, se gostar dele — que às vezes ele canta mal, como às vezes canta muitíssimo bem. Conseguiu enternecer, encantar e fazer rir. É o mais humano dos cantadores. O mais feio também. E tem uma vaidadezinha que é uma delícia. Acabada a cantoria, lá estava ele todo ansioso, querendo saber se tinha se saído bem. Se se saiu bem? Vejam isto que ele cantou na cana-verde:
Tenho dois anér no dedo
Um é de ouro outro é de prata,
Uai! Uai!
Um é de ouro outro é de prata,
tenho dois amor no mundo
uma é branca, outra é mulata.
Mas o diabo é que o Zico topou cantador pela frente, e a coisa esquentou. É Agostinho Aguiar quem responde:
Que uma é branca outra é mulata,
Mineiro ocê falou!
Roda morena!
Mineiro ocê falou,
mas tou bem desconfiado
que a cigana te enganou.
Ouvem-se grandes risos aprovativos. Os repentistas aliam, num sincretismo incrível — analfabetismo, poesia, sangue-frio, ingenuidade, e um completo "estar em dia" com a vida piracicabana. Zico Mineiro cantou mais uma trova do populário:
A folha da bananeira
de madura amarelou.
Uai! Uai!
De madura amarelou,
a boca do meu benzinho
de tão doce açucarou.
E lá vem a pronta resposta de um repentista atualizado:
De tão doce açucarou,
foi o que o Zico falou.
Roda morena!
foi o que o Zico falou
foi por isso que o açúcar
tão depressa racionou.
Consegue-se falar com os violeiros, nos bastidores. Estão todos reunidos e olham uns para os outros, indecisos, numa evidente defensiva. Mas são delicados, têm um certo traquejo e a consciência de terem cantado "no certo". Agostinho Aguiar convida gentilmente para o cururu no outro dia.
— Tem cururu lá em casa às três horas.
Cumprimentam e saem sobraçando as violas, sonhando quem sabe que sonhos? Com certeza que
a boca do meu benzinho
de tão doce açucarou,
para compensar a escassez do outro açúcar.
Dança do cururu
— Boa tarde, Agostinho.
Recebe-nos a porta Agostinho Aguiar, o famoso cantador, moreno e meão, lenço de pintinhas branco e preto no pescoço, um riso largo e hospitaleiro. É cururueiro há dezesseis anos, bi-campeão dos concursos do Centro de Folclore de Piracicaba, tem muitas medalhas, uma delas concedida por Planalto — a revista paulistana que promoveu a ida de violeiros a São Paulo. Agostinho foi um dos cincos que cantaram para Mário de Andrade, no Parque Antártica, na capital, em 1941. O cururu é a casa dele, nessa gloriosa tarde piracicabana de feriado. Olho em torno com alguma curiosidade. A sala tem cortinas claras nas janelas, um antigo relógio de parede, de madeira negra, pinga as horas em um andante tranqüilo. O chão é um alegre tabuleiro vermelho de tijolos lavados.
Já estão todos reunidos. Villanova apareceu pitorescamente de botas. Já tinha reparado nele antes, na caninha-verde não só pela vivacidade como também porque é muito risonho. João Chiarini, fundador do Centro de Folclore de Piracicaba, veio conosco e imediatamente está em todos os lugares ao mesmo tempo, não sei como, ubíquo e solícito, numa atividade em gritante contraste com a sua expressão quieta demais e com seus desolados bigodes de chinês. Serafim Barbosa se apresentou de ponto em branco. Não fala muito, apenas sorri, e tem belos dentes. Santão também está de branco.
— Por que o chamam Santão? É muito comportado?
— É sim... — respondem, — quando dorme.
Zico Mineiro chegou atrasado, depois de nós, e já tinha bebido um pouco para afogar as mágoas. Ainda vem lúcido e toca bem, dentro do compasso, uma espécie de reco-reco de taquara. Está firme sobre as pernas e responde depressa a uma pergunta que não foi feita:
— Ué! que graça tem cururu sem cachaça?
— O que é cururu, afinal de contas?
— Só dá por aqui, na baixa Sorocabana — responde Agostinho de maneira indireta.
E se alguém me perguntar, agora, depois de tudo o que vi, o que é dança do cururu, serei obrigada a confessar honestamente: "Sei lá!" pois cururu é muita coisa, mas dança mesmo não é.
123 carreiras
O conjunto de cururueiros não poderia ser mais eclético. Há dois caboclos — Tico Siqueira e Sebastião Soares: três negros — Santão, Serafim Barbosa e Sebastião Ferraz, um branco — Villanova; é um resumo das três raças, com predominância da branca — Agostinho Aguiar.
Enquanto formam a roda de cururu e sorteiam a carreira, Tico Siqueira condescende em cantar modas de sua autoria. E depois que ele acaba, indago para começar conversa:
— Por que canta?
O poeta rústico tem uma frase bonita:
— Canto por inclinação. — Diz e olha depressa para o outro lado.
Já os cururueiros formaram uma espécie de grande coral, cantando todos juntos, em voz profunda assim:
Ai, ai, ai, orialai, orialai,
Ui, lalalalalei, larilalai,
penosa e impressionante litânia inicial, elementar como o coro da formação dos mundos. Essa parte é chamada baixão. O momento não é para perguntas, mas preciso fazer uma:
— Que é isso de sortear carreira? Que é carreira?
— Carreira é a alinhação — explica o que está mais próximo.
Fico na mesma e que remédio senão perguntar outra vez:
— O que é alinhação?
- Alinhação é a tonste. A linha.
E antes que seja feita nova pergunta, Chiarini vem em meu socorro:
— Carreira é a rima.
Fico sabendo que as carreiras são 123. Têm elas, por exemplo, a de São João, de rima em ão. A do sagrado, de rima em ado. Do dia, de rima em ia. De Santa Catarina em ina, e assim por diante.
Canturino, canturião
Serafim é escritureiro, canta na escritura, isto é, passagens da Escritura Sagrada. Sebastião também é escritureiro, pelo menos hoje. Ouço-o cantar, lamentosamente, numa cadência de cantochão:
Bastião tá envergonhado
eu quero falar direito
as trovas me sai errado.
Ai! quero tirar licença,
Ai! pra cantar verso acertado.
Alembrei de Jesus Cristo,
aquele meu pais amado,
naquela hora angustiosa
em que ele foi amarrado
na presença de Pilatos
ai! eu já canto acertado
alembro meu pai amado
a vergonha ficou de lado.
Entre uma carreira e outra depois que todos os cantadores cantam usando uma rima há um intervalo para passarem a outra rima. E nesses intervalos vou aprendendo com os violeiros a saborosa linguagem cururueira. Estou gostando de aprender e eles estão gostando de ensinar.
Zico Mineiro disse que não canta na escritura, porque é ponto de letra.
— O que é isso?
— Coisa que a gente precisa ler nos livros e depois inventar os versos para contar o que leu.
Aprendo que cantar profundo.
— Coisa que a gente precisa é entrar de cheio no assunto. Que cantar por volta é fazer uma espécie de trocadilho sonoro — cantar uma coisa dando a entender outra diferente.
Cantar pesado, diz-se do verso firme e bom. Cantar colosso — cantar muito bem cantado. Canturino é o que começa a aprender cururu. Canturião é o mestre cururueiro.
Cantando no certo
Depois canta Sebastião Soares que é claramente um desajustado. Parece esquizofrênico e canta tão profundamente integrado na cantiga que comove. Fica em êxtase. Desnutrido, miudinho, com gestos excessivos e um significativo alheamento do ambiente, interpreta uma espécie de oração. Reza, gesticula, fala com algum imaginário espectador, que vê através de todos nós. Nossa Senhora e os santos são as constantes do seu canto. Coisa de dar nó na garganta, vê-lo em pleno delírio místico, embalado pela monotonia do canto.
Villanova —- rústico, arruivado e sanguíneo de olhos claros, filho de colono — é tão moço e tão espontâneo que ri das próprias respostas quando são boas. Foi discípulo de Agostinho Aguiar, canta há seis anos, é vice-campeão de cururu, com duas medalhas, e forma com Zico Mineiro a dupla de namoradores dos canturiões locais.
Vilanova começou a aprender cururu numa roda caseira. Roda de frangos, diz pitorescamente. É natural que se tenha curiosidade de saber o que sentem esses cantores nas suas primitivas manifestações de arte.
— Escute aqui, Vila, você não sente um frio na espinha quando canta em público? Não tem medo de errar?
— Medo a gente não tem, não é?
— Nem um pouquinho?
— A gente fica nervoso certa hora.
— Quando?
Aí vem a magnífica resposta:
— Fico nervoso certa hora, não só eu, mas qualquer cururueiro, quando estou cantando no certo, e sei que estou indo bem e quem está escutando não apoia.
Quando não afina
Esse cururueiro tem raça. Pertence à estranha família dos cultores da Beleza, tão dispersa e tão variada. Vou entrando devagarinho no âmago da fascinante questão.
— Como é mesmo essa história? Você quer dizer que se enerva quando não dão atenção? Que se aborrece quando vaiam?
Não é nada disso, não. Pode estar tudo quieto em roda. A gente sabe aqui — põe a mão no peito — quando o pessoal não apoia.
Agora ficou claro o problema que é o mesmo de todos os artistas em todos os tempos.
— Já sei. Você sente quando não afina com o público.
Vila exulta com o descobrimento.
Isso mesmo dona. Às véis a gente não afina com quem está escutando.
— As mulheres não entram nessa cantoria?
— Entram sim. Cantei com uma, um dia. Ela mexeu comigo e eu respondi assim:
Pra cantar com mulher
vou contar o prazer que eu tinha
eu banco soldado da marinha
pincho o refe e surro com a bainha.
Lugar de homem é na sala
e de mulher é na cozinha.
Vilanova não conta a resposta dela. Ou esqueceu ou não quer lembrar. É o fim do cururu e da prosa. E antes de sairmos para a festa da tarde ensolarada, toma-se café forte de coador, com bolo, e só o gosto de ambos daria bem uma nova reportagem.
(Transcrição da "Revista do Globo" - nº428 - 08/02/1947 - Porto Alegre - Rio Grande do Sul )
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