Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Chá de buraco

Terezinha Caldas

Ao ouvir esta frase, tão expressiva e pitoresca do nosso homem do interior — espirituoso e simples — passo em revista vários chás.

No Rio de Janeiro, os da fidalga Casa Colombo, com petit fours e os da Americana, filtrados em bolas de filó. Em São Paulo, os da Maple e da Fasano, com "queijo mole". O delicado five-o'clock dos navios ingleses, com geléia e bolinhos de passas e nozes... O chá magro dos doentes, com fatias anêmicas e sem manteiga... Os saudosos chás nas casas-grandes dos nossos engenhos, com o grande bule de louça escondido no abafador de lã, que as meninas bordaram no colégio com grandes flores à matiz; chás que eram acompanhados de beijus, de bolinhos de goma, de pão-de-ló ou de bem-casados, feitos com perfeição e carinho, em geral por alguma babá, Maria-pequena ou Das Dores.

Há os conhecidos chás de mato, com ervas caseiras, tais como capim santo, cidreira, hortelã; os chás de remédio, de pega-pinto, de capeba, de velame etc. E foi ensinando assim várias receitas para determinada moléstia que o matuto espirituoso acrescentou: — Se não der resultado, então só chá de buraco.

Chá de buraco é... cá de cova, que, cedo ou tarde, após uma vida desbaratada ou bem vivida, aguarda inflexível, a todos nós.

E então enviei célere essa singular receita endereçada ao Palácio Itamarati, ao mestre Renato Almeida, que responde lá pelos estudos do nosso folclore...

 

(Caldas, Terezinha. "Chá de buraco". Jornal do Commercio. Recife, 19 de setembro de 1954)
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