Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2007 - Ano X - nº 98


Sumário

Festança
A alma simples do povo numa noite de pagode
Audálio Dantas

Festa de São Benedito
Auguste François Biard

Natal em Belém
Leandro Tocantins

Cancioneiro
Zé Marcolino, o poeta injustiçado
José Medeiros de Lacerda

Tapejara

No seio da Virgem Mãe
Guilherme Santos Neves

Imaginário
História do Jesus mendigo
Carmen Dolores

Biroca
Luíz Alberto Ibarra

A bondade da aranha
Roberto Martins

Colher de Pau
As doceiras
Daniel Bicudo

Chá do Paraguai (mate)
Oscar Canstatt

A saúde final
Paulo de Verbena (Marcelino de Carvalho)

Oficina
Candango
Francisco Pereira da Silva

Remeiros do São Francisco
Antônio Gonçalves

Vendedores ambulantes e pregões da cidade
Luiz Edmundo

Palhoça
Gíria e escritores
Eneida

Dez curiosidades folclóricas natalinas
João Chiarini

Moleque comprador de tempero
Hildegardes Vianna

Panacéia
Penitentes e sua origem folclórica
Luíz Róseo

Folclore português: Benzimentos
Elisa Vilares Cepeda

Chá de buraco
Terezinha Caldas

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Penitentes e sua origem folclórica

Luíz Róseo

Baseado em pesquisas e informações de remanescentes, participantes dos grupos de homens rústicos que se louvavam desse sacrifício, com sentimento religioso que se poderia chamar crendice por suas características mesmas, pode-se afirmar que os penitentes surgiram no Cariri, logo após a colonização do vale.

Segundo o historiador patrício padre Antônio Gomes, chegou a Jardim o padre João Bandeira acompanhado de índios catequizados em 1792. E a povoação que tinha o nome de Barra do Correntinho cresceu e desenvolveu-se graças a ação do padre baiano, fundador oficial da cidade de Jardim.

Surgiram então os primeiros penitentes em Jardim cantando nas festas religiosas. Sua ação fez-se mais atuante quando foi erigido no alto da serra do Araripe o Cruzeiro, pelo padre Miguel de Sá Barreto.

Compunham-se de vários grupos os penitentes, sob a orientação dos decuriões: mestre João Vieira, José Martins e ainda como sobrevivente mestre Sebasto, como o chama o povo. Suas aparições eram mais freqüentes na Semana Santa, no tempo quaresmal, às quartas e aos sábados, sendo que durante o ano geralmente aos sábados.

Esse grupos de religiosos compõem uma organização sob ordens rigorosas dos seus dirigentes que se tornam de difícil identificação pessoal dos componentes, de vez que anda embuçados em grandes lençóis nada se lhes distinguindo. Andam sempre reunidos, e a cantar. Mas no centro urbano, atravessam as ruas silenciosamente, parecendo fantasmas pela esquisita e tétrica figura que apresentam. Ao se aproximarem dos sítios, principalmente em trechos assinalados por cruzes, as conhecidas cruzes das estradas do sertão, entoam o seu canto que é triste, lamentoso, como um gemido de alma perdida. Pessoas há que não suportam ouvir-lhe o canto, principalmente se não moram no sertão, pela tristeza e sofrimentos que o caracterizam.

Quando da morte de uma pessoa de nível sócio-econômico semelhante ao seu, reúnem-se os penitentes em casa do falecido onde rezam e cantam os seus benditos a noite inteira. Acontece quase freqüentemente o protesto de membros da família do falecido, porque recebem como um rito que tenha correlação com presságios funestos, crendo-o supersticiosamente. Mesmo assim não é motivo ou causa para que eles desistam de realizar o culto.

Continuarei em posteriores comentários dando publicidade aos versos que em suas linhas gerais são de louvação ao Senhor e aos santos padroeiros das cidades onde residem. São inúmeras as melodias e os versos cantados pelos penitentes. Atribui-se tal denominação ao fato de ser efetivamente uma penitência o que eles praticam, usando até instrumentos pontiagudos de aço moldado como gilete, que lhes ferem o corpo, como mortificação semelhante àquela recebida por Jesus Cristo na sua via crúcis e que o fazem com tal intenção. Referidos instrumentos que os penitentes no seu linguajar rude e pitoresco denominam de disciplinas.

(Róseo, Luís. "Penitentes e sua origem folclórica". Correio do Ceará. Fortaleza, 10 de novembro de 1966)

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