Moleque comprador de tempero já foi expressão injuriosa. Moleque, por si só, significava negro pequeno de pouca idade, filho ou parente de escravo ou forro, independendo do seu bom ou mau comportamento. Depois é que a palavra passou a designar falta de dignidade ou demasiada travessura. Quanto ao comprador de tempero...
Havia três tipos de comprador de tempero. O primeiro compreendia parente, agregado ou aderente, pobre e passado da idade, sem esperança de melhoria de vida. Eram criaturas desenformadas, jogadas ao desprezo, confundidas com a criadagem da casa, incluíam os bajuladores, sinceramente empenhados a dar uma ajudazinha a qualquer graúdo e as muxingueiras.
Dava-se o apelido de muxingueira a uma mulher que vivia de favor sob teto alheio, morrendo no trabalho para justificar a comida consumida supostamente de graça. Era rara a família média baixa, que não possuía uma parenta ou aderente muxingueira, avó, tia ou prima, que sob os comentários da vizinhança, dava sua fugida ao açougue ou à venda, quando era preciso.
As muxingueiras, quando ainda possuíam algum orgulho, embrulhavam o fichu na cabeça, fechavam a cara e enfrentavam a situação indo fazer a compra. Se eram afáveis ou conhecidas na rua como mártires, ganhavam depois de certo tempo prerrogativas. Os caixeiros se penalizavam da situação e se ofereciam para ir buscar a nota ou a atender no passeio ao menor aceno.
Os vagabundos que ficavam nas imediações das casas de secos e molhados e os caixerinhos novos que, a troco de gorjeta levavam a domicílio qualquer cabeça de alho ou vintém de azeite e vinagre, ocupavam a segunda classe de compradores de tempero.
A terceira era a dos profissionais. Meninos e velhas dedicados exclusivamente ao mister, com hora certa de passar pelas casas para saber se queriam alguma coisa da rua. Compravam tempero, faziam o bicho, reclamavam dos gêneros que se deteriorassem depressa e sabiam a vida de toda a freguesia. Nem sempre discretos, propalavam o que viam e inventavam o que apenas supunham, sempre com riqueza de pormenores e de imaginação.
Gente direita não comprava tempero: é o que se deduz da leitura. Por que? Deve ter sido resquício do velho preconceito deixado pelo tempo da escravidão, em que só aos sujeitos cabia tarefa inferior. Onde alguém da compreensão e juízo iria conceber uma senhora ou senhorinha de família e consideração, andando pelos açougues, vendas, armazéns, quitandas, padarias e quejandos, a comprar comida, acotovelando-se com pessoas de outras classes sociais?
Fazer feita também não era das tarefas nobres. A não ser que fosse em veraneio, um dia por outro, com a família inteira atrás. O pai ou irmão junto, pronto para revidar qualquer movimento desagradável e evitar palavreados menos saudáveis.
Algumas corajosas, criadas em outros centros, ou as pobretonas que tinham pouco dinheiro para as despesas ou gente exigente demais em casa, iam com as empregadas às compras, embora guardando distância conveniente, evitando escolher muito ou regatear, agindo conforme umas poucas gringas costumam proceder. Eram exceções, entretanto.
Se faltava pão para a ceia, tempero para a panela, acabava o querosene, a não ser que a empregada quisesse comprar, estava tudo perdido. Porque nem todas as empregadas tinham coragem de ir à rua. Quando um pai ou responsável trazia uma rapariguinha ou negrona para se alugar, se ela era moça de casa ou dera um passo, mas se conservara a recomendação era de não a mandar à rua comprar nada, para não aprender o que não devia. A rua era a perdição.
Ficava então alguém à janela esperando que passasse balaio, gamela ou tabuleiro, trazendo o que se queria ou sucedâneo. Por vezes aparecia um menino qualquer que, em troca de vintém, corria até a quitanda ou padaria. Mas podia acontecer que o menino se ofendesse à enunciação do pedido de fazer compras, indagando se tinha cara de comprador de temperos.
Saía o menino a resmungar que porta de venda, açougue, mercado, quitanda, era ajuntamento de ganhadeiras, vendedeiras, cachaceiros, fateiras, peixeiras e o que mais houvesse. Toda esta gente cuspinhando fumo negro entre os dentes, semi-vestida, de maneira nada polidas, com um linguajar e modos que não constituíam o desejado pelos olhos e ouvidos de quem queria ser respeitado e acatado quando crescesse.
Os desocupados e cachaceiros, com chapéus jogados para o alto da cabeça, a bebericar e a discutir temas poucos honestos ou a jogar damas no canteiros, também não recomendavam como companhia para meninos de família pobre mas honrada.
O tempo passou. As tavernas e similares ganharam aparência melhor, graças aos esforços da saúde pública e o rigor do policiamento na cidade. Mas, ainda assim comprar tempero continuava a ser tarefa proibida. Mesmo na década dos trinta quando a senhora do negociante estava passando troco na Caixa, a maioria relutava em entrar num estabelecimento para adquirir o necessário indispensável.
Mas um dia veio a guerra. A Segunda Guerra Mundial, trazendo consigo uma série de calamidades. Falta de luz, carvão, lenha, carne, leite, feijão, açúcar, e outros gêneros. Começaram as filas. As empregadas, mesmo as que saíam para comprar, não se queriam sujeitar a agüentar de pé, horas intermináveis até chegar a sua vez. Além de tudo, como era para esperar na fila e executar os trabalhos caseiros? Estava iniciado, então, o êxodo das senhoras e senhorinhas, que saíram do seu retraimento para lutar pela sobrevivência, própria, ou da família. Toda a gente passou a comprar tempero.