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Gíria e escritores

Eneida

Mestre Antenor Nascentes (salve seus oitenta anos tão frajolas) deu uma entrevista a este Diário de Notícias falando na inteligência — inegável é claro — do carioca e na sua gíria. Eu, por mim, acho que o homem mais inteligente do Brasil é o cidadão amazônico, isso sem negar os outros brasileiros. (Ah, esses baianos, ah esses cearenses! etc., etc.).

A entrevista de mestre Nascentes levou-me a uma saudade: Osório Borba, aquele grande homem de bem, escritor de melhor qualidade. Osório Borba está precisando de alguém que falando de sua vida dê às novas gerações o valor de sua obra; torná-lo conhecido, tirá-lo do esquecimento no qual foi jogado pela morte. Dar-lhe o justo valor que mesmo em vida ele não conseguiu plenamente. Hoje quero salientar apenas uma faceta de sua personalidade: o horror à gíria.

Ai se alguém de sua roda dissesse um termo de gíria. Borba olhava com raiva, murmurando entre os dentes um insulto e era capaz de passar horas em análises de combate à gíria. Lembro uma vez que um colega nosso deste DN entrou pela redação, foi de mesa em mesa convidando para uma feijoada domingo num subúrbio distante onde morava. Explicava:

— Não falta; é aniversário do papai.

Borba adorava feijoadas, domingos nos subúrbios, tudo que se anunciava no convite do companheiro de trabalho. Perguntou-se se eu iria; não, também adoro subúrbios mas não os trens da Central do Brasil. E ele:

— Pensei bem. Também não vou. Fulano é bom sujeito mas muito chato; se ele é assim, imagina o pai. Depois não conheço o velho. Resolvi não vou.

Percebi que Borba não compreendera o convite, mais fiquei firme. Naquele tempo era da gíria carioca o termo "do papai" para indicar a própria pessoa.

Houve a feijoada. No dia seguinte o companheiro entrou pela redação protestando:

— Vocês hein? O papai fazendo anos e raros comparecem. Ô, Borba, por que não foste?

— Porque não conheço teu pai.

Uma enorme gargalhada encheu a redação. O aniversariante explicou, batendo no peito:

— Borba o aniversariante era aqui o papai.

— Então fiz muito bem em não ter ido; odeio gente burra. Papai, papai. Ficam vocês a deturpar a língua e até sentimentos. (Falou, falou, naquele tom briguento que gostava de usar, mesmo sendo, como era, um sujeito profundamente sentimental e atento).

Sobre Borba muito poderei e devo contar. Fica para outro dia. Voltemos à gíria: enquanto este odiava, outro, como Graciliano Ramos, ficava horas e horas no nosso tempo na cadeia puxando pelos presos comuns, para ouvir-lhe a gíria. Lembro-me o quanto ficou entusiasmado ouvindo de um ladrão especialista em golpes contar: — Era um otário alunfardado fantasiado de clóvis. Afinal o otário quer ser sempre mais inteligente do que o ladrão daí trocar um maço de notas verdadeiras por um pacote de notas que ele nem sabe se são de verdade ou não. No fundo mesmo é apenas um clóvis, clown, palhaço.

Por mim confesso: acho a gíria uma arma e só lamento conhecê-la muito pouco. É uma arma que exige ser bem usada. Exemplo: Stanislaw Ponte Preta, mestre em gíria carioca.

 

(Eneida."Gíria e escritores". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 01 de maio de 1966)
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