Na rua de pouco trânsito, com as senhoras ainda saindo pouco e os homens, por causa delas sain do muito menos do que hoje, cruzam vendedores ambulantes, soltando os mais histéricos pregões!
É o português vendedor de perus:
– Olha ôôô prú da roda vô ôôô a!
– Olha ôôô avacaxi ôôô!...
O italiano do peixe:
– Pixe camaró... Ulha a sardenha!
A turca ou turco vendedores de fósforos:
– Fófo barato, fófo, fófo!
Berra o vendedor de vassouras:
– Vai vasouôôôôôra, vai o espanadoire...
E o comprador de metais:
– Chuuuumbo, féerro, cama velha, metal velho para vender!...
O homem das garrafas vazias, com o seu cesto à cabeça, grita assim:
– Gueraalfas bazias pr’a bundaire!!
E a negra da canjica:
– Canjiquinha... Iaiá, bem quente!
À porta dos teatros quedam os vendedores de empada, pastelaria feita com banha de porco e cujo recheio é um mingau detestável, em nada comparável às que se vendem pelas confeitarias. Gritam eles, os vendedores, agitando na mão uma pobre lanterna de papel, iluminada a vela de sebo:
– As empedinhas spiciaes cum quêmerão e as azaito nas! Stam queimando! Não tendo o quêmerão nam pagam nada!
Não têm nem sombra de camarão, mas os fregueses pagam da mesma maneira.
De um deles sei que, ao reclamar a ausência de camarão na empada, ouviu do vendedor:
– É verdade, não tem.
E, explicando melhor:
– É que há uns que gostom, outros que não gos tom...
E continuou apregoando:
– As empedinhas spiciaes cum quêmerão estam queimando. Não tendo quêmerão, nam pagam nada.
Quando a Repartição de Higiene manda matar os ratos que aqui festivamente recebem a bubônica importada da Europa, pondo em cheque a obra do diretor da Repartição de Higiene Pública, Osvaldo Cruz, andam homens pelas ruas a comprar os roedores mortos, de tal sorte obrigando o filho da terra a caçá-los. Diz-se que só na zona dos bacalhoeiros da rua do Mercado e na de certos trapiches da Saúde, se conseguiu um número de ratos maior que o de toda a população do Distrito! Gritam os mercadores desses malignos roedores:
– Rato, Rato, Rato...
Faz-se do grito uma canção popular que os próprios compradores cantam, depois, no seu comércio e que as revistas do ano repetem. Os ratos, porém, são exterminados por completo, e com eles as pulgas, como já se havia feito com o piolho e o percevejo, de horrenda tradição colonial.
Aos poucos vai-se limpando a cidade.
O Malho, em 1903, publica um soneto que começa assim:
Bravo! Limpa-se o Rio de Janeiro!
Os homens limpos! A cidade limpa!
Vai ser São Sebastião a mais supimpa
Capital – por que não? do mundo inteiro!
Sem a preocupação do mundo inteiro é que não se passa.
Particularmente interessante e pitoresco é o preto vendedor de sorvete, com a lata de sua mercadoria envolta em panos, sempre muito brancos e muito asseados, apregoando em verso:
Sorvetinho, sorvetão
Sorvetinho de tostão
Quem não tem um tostãozinho
Não toma sorvete, não!
Sorvete, Iaiá!
Há o funileiro, que bate num prato de cobre com um badalozinho de chumbo, mas não grita; o mascate vendedor de panos e armarinho, sopesando caixas-de-folha enormes, que contêm verdadeiros armazéns de mercadorias, e a vibrar uma espécie de matraca, que nada mais é que a medida de um metro, dobrado em dois pedaços que se ligam por duas dobradiças; os doceiros de caixa, chamarizes de crianças, esses, tocando uma gaita de boca; há o ba leiro, há a baiana do cuscuz, da pamonha, do amendoim e da cocada, a baiana que se instala num vão de porta, com o seu lindo xale africano, a sua trunfa, os seus colares e as suas anáguas postas em goma, à espera da freguesia, fumando um cachimbo de nó de imbuia.
Não esquecer que, no verão, o sorvete também se vende em carroças que tem, incompreensivelmente, a forma de navios. Por vezes as praças coalham-se de Gamas e Cabrais, vendendo gelados em casquinha a tostão e a dois vinténs. O caldo-de-cana é, por sua vez, posto à venda em carretas-realejos, o homem da manivela moendo, ao mesmo tempo, a cana e a música. Por um copázio paga-se cem réis.
O mais vergonhoso de todos esses ambulantes do começo do século, porém, é o leiteiro, com a esquelética vaca, que hoje, felizmente, esconde a sua tuberculose no fundo dos estábulos que recuaram para bairros distantes.
O vendedor de leite, que usa barba passa-piolho e tamancas, é dos primeiros ambulantes a surgir na rua mal desperta, puxando por uma cordinha curta o ruminante de seu comércio, magro e pachorrento, duas ou três chocalhantes campainhas dependuradas ao pescoço bambo e pelancu do. E logo o homem da ajudância no serviço, atrás, ordenhador astuto da alimária, mágico avisado, capaz de transformar, à vista do freguês, sem que esse perceba, a água que está dentro de múltiplas vasilhas, em leite, e do melhor! Vem, depois, o bezerro, de focinheira de couro, esfaimado e tristonho, preso à cauda com sua pacata genito ra. Quem pensar que ele, no entanto, no quadro, serve apenas de elemento decorativo, engana-se, porque, quando a mão do ordenhador já não mais ordenha o leite recalcitrante, empacado na glândula mamária da leiteira, vem o bezerrote para o trabalho com sucção, que é tanto mais violento quanto maior é a ânsia do triste em libar o alimento que tanto lhe recusam. Com três ou quatro arrancadas vaza a teta, mas logo a focinheira de couro lhe chegam de novo, para que possam, aí, entrar em função a mão calosa do vendedor, a vasilha com água e a vasilha do leite...
Se a febre amarela, por uma enternecedora intuição patriótica, poupa o nativo, ceifando o leiteiro, que não é do país, de preferência, esse, por sua vez, desforra-se ceifando com o leite malsão que, criminosamente, vende, a vida das nossas pobres criancinhas. Nunca as afecções gastrintestinais, na verdade, graças à fraude do criminoso e traiçoeiro ambulante, mataram tanto! Para compensar a perda desses inocentes, que vão aumentar o adubo das roseiras, para os cemitérios, há, enfim, o lucro do homem da vaca que, quando não morre levado pela peste, traduz-se em cadernetas da Caixa Econômica, ou em louras esterlinas postas a ferrolho ao fundo de fortes arcas de ferro ou pau.
Os médicos da Higiene Pública sabem do que se passa; o governo, também. As providências não surgem, entretanto. É que ao lado do leiteiro, contra a vida das nossas pobres criancinhas, estão duas forças temíveis: uma imprensa estrangeira que vive a defender o que ela chama “a liberdade do comércio num país que ainda precisa de imigração” e a corja da política que ainda vive dessa imprensa e que, para não desgostá-la, impede a ação dos defensores da saúde do povo, na ânsia de melhor defender os interesses dos que lhes garantem a pepineira e o voto.
[Início do século XX]